0 xG. Zero. Esse foi o número que Cristiano Ronaldo acumulou no jogo de estreia de Portugal contra a República Democrática do Congo — nenhuma finalização de qualidade, nenhum contato real com a área adversária no momento decisivo. O empate em 1 a 1 não foi só um resultado ruim; foi um retrato estatístico de um camisa 7 que parece jogar ao lado do jogo, não dentro dele.

E mesmo assim, Roberto Martínez confirmou CR7 entre os titulares para encarar o Uzbequistão nesta terça-feira, às 14h (de Brasília), no NRG Stadium, em Houston. A escalação oficial traz Diogo Costa no gol, defesa com João Cancelo, Rúben Dias, Renato Veiga e Nuno Mendes, meio com Vitinha, João Neves e Bruno Fernandes, e ataque com Pedro Neto, João Félix e Ronaldo.

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A ironia de Martínez e o fogo que ela jogou na imprensa portuguesa Martínez debo
A ironia de Martínez e o fogo que ela jogou na imprensa portuguesa Martínez debo

A ironia de Martínez e o fogo que ela jogou na imprensa portuguesa

A coletiva pré-jogo desta segunda-feira (22) tinha tudo para ser protocolar. Virou um momento de tensão velada. Quando um jornalista perguntou ao técnico se ele estava acompanhando os outros jogos da Copa, Martínez não hesitou:

"Estamos sempre na praia. Não temos tempo. É por isso que temos uma equipe de analistas, temos uma equipe de pessoas que estão preparando cada passo. E, se você ler a imprensa portuguesa, você verá que estamos sempre na praia, então não conseguimos assistir a nada."

O sarcasmo foi direto ao alvo. A polêmica começou quando imagens dos treinos em Palm Beach Gardens, na Flórida, mostraram a delegação portuguesa na praia — e a imprensa de Lisboa transformou isso em símbolo de falta de seriedade. Depois do empate com o Congo, o assunto explodiu.

Matheus Nunes foi um dos jogadores que tentou apagar o incêndio antes que virasse temporal. Nas suas palavras:

"As idas à praia já faziam parte do plano de trabalho para nos adaptarmos ao clima. Por exemplo, eu passo o ano a jogar em Manchester e lá não faz tanto calor; é uma diferença brutal. Por isso, já estava nos planos ir à praia de manhã para nos adaptarmos ao calor, ao sol e à umidade. Não estamos a passar mais tempo na praia do que no treino."

O argumento faz sentido do ponto de vista fisiológico — aclimatação ao calor úmido da Flórida é protocolo legítimo em preparações para torneios de verão nos EUA. Mas a narrativa já tinha saído do controle, e o empate com o Congo deu munição para quem queria criticar.

O que os números do jogo contra o Congo revelam sobre CR7

Reparemos no detalhe que a cobertura emocional da imprensa portuguesa costuma ignorar: o problema de Ronaldo não é esforço, é posicionamento e integração ao sistema.

Portugal dominou a posse contra o Congo — acima de 60% — mas converteu isso em poucas chances reais. O problema central está no que analistas chamam de progressive passes: passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário. Sem um centroavante que faça movimentos de ruptura entre linhas, a bola circula como água num copo, girando sem destino.

Alguns números que contextualizam a atuação de Portugal na estreia:

  • xG total da equipe: abaixo de 1.2 — número baixo para uma seleção com Bruno Fernandes, João Félix e Pedro Neto no elenco
  • xA (expected assists) de Ronaldo: próximo de zero — sem participação efetiva na criação de jogadas
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): Portugal pressionou pouco no campo adversário, o que explica por que o Congo conseguiu construir com conforto antes do gol de empate
  • Defensive actions de CR7: mínimas — o que é esperado para um atacante de referência, mas agrava o problema quando ele também não entrega no ataque

A imagem que melhor descreve o jogo de Ronaldo contra o Congo é a de uma frente fria que chega com toda a aparência de tempestade — nuvens carregadas, céu fechado — mas não solta uma gota de chuva. A ameaça estava lá. A concretização, não.

Portugal precisa vencer — e CR7 sabe o que está em jogo

Com apenas um ponto no Grupo K, Portugal chega a este segundo jogo em terceiro lugar. Uma vitória sobre o Uzbequistão — que perdeu por 3 a 1 para a Colômbia na estreia — praticamente garante a classificação para o mata-mata. Um tropeço, e o cenário muda completamente antes da última rodada.

O Uzbequistão não é adversário para ser subestimado em termos de organização. Fayzullaev marcou o gol histórico do país em Copas do Mundo — o primeiro da história uzbeque na competição — contra a Colômbia, mostrando que a seleção asiática tem capacidade de criar situações perigosas em transição. O PPDA defensivo da equipe, porém, é alto, o que significa que eles pressionam pouco e cedem espaço para construção adversária — exatamente o que Portugal precisa explorar com progressive passes de João Neves e Bruno Fernandes.

A questão é se Ronaldo consegue ser o finalizador que Portugal precisa nesse espaço. Aos 41 anos, em sua sexta Copa do Mundo, ele chega ao jogo mais importante da fase de grupos carregando o peso de uma estreia apagada e de uma imprensa que já começou a fazer as perguntas que ele menos quer ouvir. Conforme registrado pelo SportNavo, a manutenção de CR7 como titular é uma aposta de Martínez na experiência e no impacto psicológico do nome — mas os dados dizem que Portugal joga melhor quando o time tem fluidez entre linhas, algo que um centroavante mais móvel poderia oferecer.

A bola rola às 14h desta terça no NRG Stadium. Se Portugal não vencer, a última rodada — contra a Colômbia, favorita do grupo — vira uma final antecipada com desvantagem emocional. Para Ronaldo, marcar hoje não é só sobre gols: é sobre silenciar a narrativa antes que ela tome conta dos bastidores.