28 de outubro de 2024. Naquele dia, Jesse Marsch foi apresentado como técnico da seleção canadense em uma sala de conferências em Toronto, com câmeras de TV e discurso protocolar. Ninguém ali sabia que, menos de dois anos depois, ele estaria no gramado do SoFi Stadium, em Inglewood, com os olhos marejados, chamando seus jogadores para uma roda histórica no centro do campo.

O Canadá antes de Marsch — uma seleção sem linguagem própria

Para entender o que aconteceu neste domingo, é preciso voltar a 2022. O Canadá chegou ao Catar depois de 36 anos de ausência em Copas do Mundo — a última participação havia sido em 1986, no México, com três derrotas e zero gols marcados. A edição de 2022 foi, ao mesmo tempo, uma celebração e um choque de realidade: três jogos, três derrotas, eliminação na fase de grupos. A equipe tinha talentos individuais de alto nível, com Alphonso Davies já consolidado como um dos laterais mais explosivos do futebol europeu, mas não tinha identidade coletiva. Era um conjunto de peças brilhantes sem encaixe.

O paralelo histórico que me vem à mente é o da Dinamarca de 1986: um elenco tecnicamente rico, com Laudrup e Elkjær, que foi eliminado na fase de grupos por falta de estrutura tática e gestão de vestiário. Às vezes, um elenco talentoso precisa de um arquiteto antes de se tornar uma construção de verdade.

A chegada de Marsch e os dois anos que mudaram tudo

Marsch não é um nome novo no futebol europeu. Quem o acompanhou no Red Bull Salzburg e no Leipzig sabe que o americano é um especialista em impor pressão alta e ritmo intenso — o que os alemães chamam de Gegenpressing. No Canadá, ele encontrou um grupo fisicamente apto e mentalmente carente de direção. A combinação funcionou.

Quando pressiona alto, o Canadá sufoca. Quando pressiona alto, o adversário comete erros que se transformam em transições rápidas. Essa dupla repetição não é acidente — é o princípio central que Marsch instalou ao longo de mais de 20 meses de trabalho. O elenco mescla jovens promessas formadas nos sistemas de base europeus com veteranos da MLS que já passaram pelos 30 anos e sabem o valor de cada convocação.

O gol que classificou o Canadá neste domingo veio de Stephen Eustaquio, aos 47 minutos do segundo tempo — nos acréscimos, contra a África do Sul. Não é uma coincidência que o gol tenha saído de um volante de 27 anos que atua no FC Porto e representa exatamente esse perfil híbrido: formado no futebol europeu, mas com identidade canadense.

"Estamos trabalhando há dois anos e mantiveram a crença em tudo que a gente combinou, seguiram os planos que desenhamos, mantiveram-se concentrados e agressivos. Vocês mostraram o caráter de vocês", disse Marsch, emocionado, no discurso pós-jogo.

A frase não é retórica vazia. Ela descreve um processo. E processos de dois anos raramente aparecem em noticiários — só aparecem quando geram resultados como o deste domingo.

O que o Canadá nas oitavas muda no mapa do futebol continental

Não é a primeira vez que a história do futebol registra uma seleção de segunda prateleira avançando além do esperado em uma Copa sediada em seu próprio continente. A Coreia do Sul de 2002 chegou às semifinais em casa. Os Estados Unidos de 2002 chegaram às quartas. Mas o Canadá de 2026 tem algo diferente: uma geração jovem que não está satisfeita em participar — está aqui para competir.

Do outro lado, a África do Sul sai de cabeça erguida. Sob o comando de Hugo Broos, 74 anos, o técnico mais velho a dirigir uma seleção em um mata-mata de Copa do Mundo, os Bafana Bafana chegaram pela primeira vez à fase eliminatória — algo que não aconteceu nem em 1998, 2002 ou 2010, quando o país sediou o torneio. Broos ainda não confirmou se vai se aposentar após a eliminação.

"Foi uma Copa do Mundo muito boa e não será uma decisão fácil. No entanto, não posso dizer agora se vou parar ou continuar", disse o treinador belga à imprensa após o apito final.

Em matéria do SportNavo, já havíamos apontado que o futebol africano estava amadurecido o suficiente para surpreender nesta edição — e a estatística confirma: nove dos dez representantes do continente avançaram para as oitavas de final, com aproveitamento de 90%, o melhor entre todas as confederações.

Marsch encerrou o discurso no gramado com uma frase que vai circular por muito tempo no Canadá:

"Hoje vocês se tornaram heróis canadenses. Heróis canadenses para as futuras crianças deste país. Esse esporte tem um grande futuro por conta de vocês. Vocês mudaram a história do esporte neste país."

O próximo passo é concreto: o Canadá enfrenta o vencedor do duelo entre Holanda e Marrocos — que se enfrentam nesta segunda-feira no Estádio BBVA, em Monterrey — no dia 4 de julho, às 14h (horário de Brasília), no NRG Stadium, em Houston. Seja qual for o adversário, Marsch já tem um plano desenhado. Ele sempre tem.