Confesso: em 2022, eu subestimei o impacto de uma troca de técnico às vésperas da Copa do Mundo. Escrevi, naquela época, que o Marrocos chegaria ao Catar desorganizado, sem identidade tática, condenado pela instabilidade institucional de demitir Vahid Halilhodzic a três meses do torneio. Walid Regragui assumiu, e a seleção africana chegou à semifinal — a mais longe que qualquer equipe do continente jamais foi. Hoje, diante do mesmo roteiro repetido pela Copa do Mundo de 2026, sou obrigada a rever minhas premissas. E a pergunta que fica não é se o Marrocos vai sofrer com a mudança, mas se o Brasil entende que essa instabilidade pode ser, paradoxalmente, uma vantagem para o adversário.
A demissão de Regragui e o padrão institucional da federação marroquina
Uma federação que demite dois técnicos consecutivos às vésperas de Copas do Mundo não age por impulso — age por convicção. A Real Federação Marroquina de Futebol (RFMF) construiu um modelo de gestão que prioriza o alinhamento político-institucional sobre a continuidade técnica, e os números de Regragui tornam essa escolha ainda mais reveladora. Sob seu comando, o Marrocos registrou 44 vitórias, 11 empates e apenas 3 derrotas em jogos oficiais e amistosos, com aproveitamento de 82,2% — o segundo melhor do ciclo entre todas as seleções classificadas, atrás apenas da Argentina. Mesmo assim, a derrota na final da Copa Africana de Nações para o Senegal, disputada em Rabat, foi suficiente para selar seu destino.
O próprio Regragui havia declarado publicamente que deixaria o cargo caso não conquistasse o título continental. A RFMF, que inicialmente resistiu ao pedido de demissão, acabou cedendo. Em suas redes sociais, o técnico se despediu com a frase "Sempre, Marrocos. Deus, pátria e rei. Obrigado" — uma saída digna para um ciclo tecnicamente impecável, mas politicamente desgastado. O lateral Achraf Hakimi, do Paris Saint-Germain, traduziu o sentimento coletivo:
"Walid Regragui, obrigado pelo trabalho excepcional que você realizou à frente da seleção marroquina. Sua liderança, paixão e visão inspiraram não apenas os jogadores, mas também um país inteiro e milhões de fãs ao redor do mundo."
O substituto escolhido foi Mohamed Ouahbi, que comandava a seleção sub-20 marroquina. A decisão foi catalisada por um resultado específico: o título mundial da categoria, conquistado numa campanha que incluiu vitórias sobre Brasil, França e Argentina. A lógica da federação é compreensível dentro de uma perspectiva de longo prazo — Marrocos será sede da Copa do Mundo de 2030, e Ouahbi representa a transição geracional que o país precisa iniciar agora. Mas a pergunta que o contexto imediato impõe é outra: o que significa estrear num Mundial com menos de cem dias de trabalho com a seleção principal?
O paradoxo de 2022 e por que a história não se repete da mesma forma
A armadilha analítica mais óbvia aqui é a analogia direta com 2022. Regragui assumiu o Marrocos em agosto daquele ano, três meses antes do Catar, e levou a equipe à semifinal. Logo, Ouahbi pode fazer o mesmo — ou melhor. Essa leitura, porém, ignora uma diferença estrutural decisiva: Regragui chegou a uma seleção que já tinha identidade tática consolidada sob Halilhodzic, e precisou apenas ajustar relações interpessoais — sobretudo reintegrar Hakim Ziyech, que havia se aposentado da seleção após conflitos com o técnico demitido. Ouahbi assume uma equipe que perdeu justamente o arquiteto desse sistema, e precisa construir vínculos de confiança com jogadores de alto nível que atuam nos maiores clubes europeus, em tempo recorde.
Há, contudo, um dado que desafia a narrativa do caos. Em métricas de pressão defensiva — especificamente o PPDA (passes permitidos por ação defensiva, indicador que mede a intensidade do pressing de uma equipe; quanto menor o número, mais agressiva é a marcação), o Marrocos de Ouahbi nos amistosos preparatórios apresentou índices mais baixos do que o time de Regragui nos últimos seis meses de trabalho. Isso sugere que o novo técnico, formado na base, trouxe uma proposta ofensiva e de pressão alta que pode surpreender o Brasil, especialmente considerando que a seleção de Carlo Ancelotti ainda não definiu uma escalação estável — o técnico italiano não repetiu a mesma formação em nenhum dos 12 jogos à frente da equipe.
Conforme registrado pelo SportNavo nos últimos meses, o Marrocos demonstrou evolução ofensiva nos amistosos sob Ouahbi, concedendo maior liberdade de movimentação a Hakimi — que, no sistema do novo técnico, funciona menos como lateral convencional e mais como um segundo meia pela direita. Essa dinâmica, se mantida no MetLife Stadium, coloca pressão direta sobre o lado esquerdo brasileiro, onde Alex Sandro e Douglas Santos disputam a titularidade sem que nenhum dos dois tenha consolidado a posição.
O que o Brasil enfrenta e o peso real da incerteza marroquina
A síntese honesta desta análise exige reconhecer que a instabilidade institucional do Marrocos é simultaneamente um risco e uma variável imprevisível para o Brasil. O risco é real: uma equipe com novo treinador, poucos treinos coletivos e jogadores ainda calibrando os automatismos tende a ser menos coesa nas transições defensivas — exatamente onde Vinícius Júnior e Raphinha são mais perigosos. A variável imprevisível é que times sem pressão de expectativa, com a liberdade de quem não tem nada a perder, frequentemente produzem performances acima da média em grandes torneios.
O Brasil, por sua vez, chega ao duelo com suas próprias incertezas. Neymar não será relacionado para a estreia — o camisa 10 se recupera de lesão na panturrilha direita sofrida em 17 de maio, quando o Santos perdeu por 3 a 0 para o Coritiba pelo Brasileirão, e a expectativa é que retorne apenas na segunda rodada, contra o Haiti, em 19 de junho. Ancelotti declarou em entrevista coletiva que o jogador "está trabalhando muito forte para se recuperar o mais rápido possível" e que sua convocação se justifica não apenas pela qualidade técnica, mas pelo "exemplo que pode representar para os jovens deste grupo". A formação mais provável — Alisson; Ibañez, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá; Raphinha, Vinícius Júnior e Matheus Cunha — nunca atuou junta em nenhum jogo oficial.
Do lado marroquino, Ouahbi deve escalar Bounou no gol; Hakimi, Chadi Riad, Marwane Saadane e Mazraoui na linha defensiva; com Brahim Díaz como referência técnica no setor ofensivo. A geração que chegou à semifinal do Catar segue presente, agora com a adição de jovens revelados no título sub-20. O duelo entre essa defesa marroquina — uma das mais organizadas da Copa de 2022, com apenas cinco gols sofridos em sete jogos — e o ataque brasileiro será o termômetro real de ambas as seleções. Brasil e Marrocos se enfrentam neste sábado (13) às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford; a vencedora abre vantagem no Grupo C e assume o controle da chave que também inclui Haiti e Croácia.








