Quantos gols os Estados Unidos precisariam fazer para convencer o mundo de que desta vez é diferente? A pergunta pairava sobre o SoFi Stadium, em Los Angeles, antes do apito inicial contra o Paraguai — e a resposta chegou em forma de goleada histórica: 4 a 1, o maior placar já construído pela seleção norte-americana em toda a história das Copas do Mundo. Em 94 anos de participação em Mundiais, os EUA jamais tinham balançado a rede quatro vezes numa única partida do torneio.

O resultado não foi surpresa apenas pelo placar. Foi pela forma. Pela organização defensiva que sufocou a Albirroja no terço final do campo, pelas 16 roubadas de bola na zona de pressão que resultaram em gols e em oportunidades, e pela frieza de um grupo jovem — média de 26,7 anos contra 28 do Paraguai — que não sentiu o peso da estreia em casa. A diferença de geração se traduziu em diferença de pernas, ritmo e, sobretudo, de leitura tática.

O que a goleada revela sobre o projeto de Pochettino

Mauricio Pochettino é discípulo declarado de Marcelo Bielsa, e o DNA do futebol argentino de alta intensidade ficou estampado em cada linha do jogo norte-americano. A equipe pressionou desde os primeiros minutos, forçando erros na saída de bola paraguaia e convertendo recuperações em transições rápidas. Das 16 roubadas de bola no último terço, pelo menos uma originou diretamente um dos gols da partida — dado que sintetiza a proposta do técnico: pressão organizada como mecanismo ofensivo, não apenas defensivo.

"Não é um espetáculo de elenco, mas é uma formação coletiva de um técnico que é discípulo de Marcelo Bielsa. Tem uma organização, e é um jogo muito vertical, muito em direção ao gol. É o melhor anfitrião, e ele mostrou que pode ser mais do que isso", avaliou o comentarista PVC, no programa Posse de Bola.

A verticalidade citada por PVC não é acidental. Pochettino construiu um sistema que valoriza a transição rápida e penaliza equipes que se postam em bloco médio — exatamente o que o Paraguai tentou fazer nos momentos em que perdeu a bola. Dos 15 jogadores que entraram em campo pelos EUA, 12 atuam no futebol europeu, o que garante uma base técnica e física compatível com o estilo exigente do treinador argentino.

A geração que a Europa formou e os EUA colhem agora

Havia um tempo em que falar de seleção norte-americana era falar de atletas de mercados periféricos, jogadores formados na MLS sem exposição às grandes ligas. Esse tempo ficou para trás. Dos 15 convocados que estiveram em campo contra o Paraguai, apenas três não atuam na Europa: o goleiro Freese, do New York City, o zagueiro Ream, do Charlotte FC, e o meia Berhalter, do Vancouver Whitecaps. Todos os demais têm contratos em ligas de ponta.

Nomes como Tillman, do Bayer Leverkusen, Dest, do PSV, e McKennie, da Juventus, compõem uma espinha dorsal acostumada à Champions League e ao ritmo das principais competições continentais. O capitão Christian Pulisic, do Milan, ditou o tom da partida do início ao fim. E o artilheiro do jogo foi Folarin Balogun, do Monaco, filho de nigerianos que nasceu nos Estados Unidos por uma razão inusitada: a companhia aérea não permitiu que sua mãe embarcasse durante a gravidez. Balogun marcou dois gols e é hoje o produto mais acabado de uma geração criada nos centros de formação europeus.

"Pulisic ditou o ritmo para a seleção americana — e isso se manteve durante toda a noite. Todo o time se superou, mas Pulisic criou a energia e o ímpeto inconfundíveis que levaram a partida a um rumo imparável", registrou análise publicada após o jogo.

No lado paraguaio, o contraste foi evidente. A Albirroja entrou em campo com oito jogadores de 30 anos ou mais ao longo da partida, enquanto os EUA tinham apenas o zagueiro Ream, de 38 anos, nessa faixa etária — e o segundo mais velho era Robinson, com 28. O ditado popular diz que quem não tem cão caça com gato, mas o Paraguai não tinha nem um nem outro: faltaram velocidade para acompanhar as transições americanas e frescor físico para sustentar a pressão nos 90 minutos.

A contra-leitura que o resultado não apaga

Mas seria ingênuo transformar uma estreia em veredicto definitivo. O Paraguai que perdeu por 4 a 1 não é uma potência do futebol mundial — voltou à Copa após 16 anos de ausência e chegou ao torneio com um elenco envelhecido e sem coesão tática visível. Vencer com autoridade sobre um adversário assim é condição mínima para qualquer anfitrião com pretensões reais.

O verdadeiro teste para os EUA virá contra adversários que pressionar alto e encaixar transições rápidas. Equipes que saem bem com a bola, que têm jogadores capazes de resistir à marcação e criar em espaços reduzidos vão exigir muito mais de Pochettino. O próprio técnico sabe que a organização coletiva observada contra o Paraguai precisará ser replicada em cenários de maior pressão — e a Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções, reserva esse tipo de teste já nas fases eliminatórias.

Até lá, o que os EUA entregaram no SoFi Stadium foi suficiente para mudar o debate. A questão não é mais se os norte-americanos sabem jogar futebol de Copa. A questão agora é até onde essa geração, formada nos centros de excelência da Europa e moldada por um técnico de mentalidade bielsista, consegue chegar num torneio que o país sedia pela segunda vez. Os EUA voltam a campo pela fase de grupos na próxima semana, com o placar histórico no bolso e a pressão de um país inteiro nas costas.