Confesso: em 2022 escrevi que Cristiano Ronaldo chegaria ao Qatar como peso morto de Portugal. Que a equipe de Fernando Santos seria mais eficiente sem depender do camisa 7. O torneio mostrou exatamente o oposto do que eu esperava — não porque CR7 foi decisivo, mas porque a ausência de liderança após sua saída do time titular expôs um vácuo que nenhum dado estatístico conseguia prever. Hoje, em 2026, com 41 anos e uma sexta Copa do Mundo no currículo, Ronaldo me obriga a revisar aquela análise.
O que significa uma sexta Copa para alguém que já venceu tudo menos ela
Nenhum jogador na história do futebol masculino disputou seis Copas do Mundo. Ronaldo chegou a essa marca carregando 79 gols em competições oficiais pela seleção portuguesa — número que supera a soma de todos os gols marcados por atacantes de Portugal nas cinco edições anteriores em que ele participou. A comparação não é retórica: é um dado que contextualiza a dependência estrutural que Portugal construiu em torno de um único jogador ao longo de 20 anos.
A polêmica da semana veio de onde menos se esperava. Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians e campeão do mundo em 1994, declarou no programa "Quebrada FC" que abriria mão do hexacampeonato brasileiro para ver Ronaldo levantar a taça.
"De coração e como amante do futebol eu torço e muito pro Cristiano Ronaldo conquistar a Copa do Mundo. Agora, se o Neymar estiver em campo jogando é mais do que merecido nós vamos torcer", disse Marcelinho.
A frase gerou reação imediata nas redes sociais, mas tem uma lógica interna que merece ser examinada: Marcelinho não está negando o Brasil — está reconhecendo que o futebol, em sua dimensão mais ampla, tem dívidas com jogadores que transcendem fronteiras. Ronaldo é uma delas. A questão é se Portugal tem estrutura para honrar essa dívida em 2026.
Portugal estreia no Grupo H e CR7 enfrenta a pressão de ser o mais velho da lista
A seleção portuguesa ficará sediada na Flórida durante o torneio, treinando no CT Gardens North County District Park, em Palm Beach Gardens. O técnico Roberto Martínez destacou a recepção calorosa ao desembarcar nos Estados Unidos:
"Tivemos uma despedida maravilhosa e sentimos todo o carinho do povo português", afirmou o treinador espanhol na chegada.
Portugal estreia na quarta-feira, dia 17 de junho, contra a RD Congo, no Grupo H — o mesmo grupo que inclui o Uruguai, adversário que Martínez aponta como o maior obstáculo para a classificação. A pressão sobre Ronaldo não é apenas midiática: é estrutural. Aos 41 anos, ele joga no Al Nassr, fora dos holofotes da Champions League há três temporadas. Seus números no clube saudita são consistentes — mais de 35 gols por temporada —, mas o nível de exigência tática de uma Copa do Mundo não tem equivalência com a Saudi Pro League, cujo índice de intensidade de pressão coletiva é 40% inferior ao da fase de grupos de um Mundial, segundo dados do CIES Football Observatory de 2025.
A questão que os analistas portugueses debatem não é se Ronaldo vai marcar gols — ele vai, estatisticamente, porque é o maior artilheiro da história da seleção com 133 gols em 214 jogos. A questão é se Portugal consegue funcionar quando ele não marca, quando o adversário fecha os espaços e a equipe precisa criar coletivamente sem depender do talento individual do camisa 7.
O paralelo com o Brasil de hoje e o que os números revelam sobre legado
Enquanto Portugal se prepara para sua estreia, o Brasil enfrenta o Marrocos neste sábado (13), às 19h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, sem Neymar. O camisa 10 segue em recuperação de uma lesão grau 2 na panturrilha direita e não participou de nenhuma atividade com bola desde que se apresentou ao grupo, em 27 de maio, em Teresópolis. A situação de Neymar, 128 jogos e 79 gols pela seleção, espelha com precisão o dilema de Ronaldo: dois jogadores que construíram carreiras individuais monumentais, mas cujos legados seguem incompletos sem uma Copa do Mundo.
O técnico Carlo Ancelotti foi direto na véspera da estreia:
"Temos um bom sentimento sobre esta Copa, não apenas sobre esta primeira partida. É apenas a primeira partida desta competição, nós trabalhamos, estamos prontos. Estamos preparados", assegurou o treinador italiano.
Romário discordou do tom de cautela do técnico. Em entrevista à "Romário TV", o campeão de 1994 foi categórico: "Eu nunca na vida joguei contra alguém que eu tivesse medo. O Brasil sentir medo de alguém, aí é f***, tá fo***". A frase resume uma tensão geracional no futebol brasileiro — entre a abordagem pragmática de Ancelotti, moldada por décadas de gestão de elencos europeus, e a mentalidade de dominância que marcou as gerações de 1994 e 2002.
O Marrocos, adversário desta estreia, não chega como figurante. Neil El Aynaoui, meio-campista de 23 anos que custou 25 milhões de euros à Roma em 2025, declarou que enfrentar o Brasil "sempre foi um sonho de infância". O jovem, nascido em Nancy e formado no Lens, adotou a camisa 8 em homenagem a Andrés Iniesta — referência que diz muito sobre o estilo de jogo que Marrocos pretende impor. Conforme registrado pelo SportNavo, a seleção africana chega ao MetLife com uma proposta tática que mistura transição rápida com posse organizada, nada parecida com o bloco defensivo de 2022.
Portugal e Brasil têm caminhos distintos nesta Copa, mas compartilham a mesma pergunta central: é possível construir um título coletivo quando a narrativa gravitacional orbita um único jogador? Para Ronaldo, a resposta chegará em campo a partir do dia 17. Para o Brasil, começa hoje às 19h, com ou sem o camisa 10 na grama do MetLife Stadium.








