— Cara, ele já tem 16 gols em Copa. Quanto falta pra ser o maior de todos?
— Um. Só um.
— Um gol separa ele de todo mundo que já jogou esse torneio?
— Todo mundo. Klose, Marta, Ronaldo, Fontaine. Todos.

Essa conversa aconteceu em bares de Buenos Aires, de Caxias do Sul, de Lisboa e de Dallas nas últimas 48 horas. E ela resume com precisão cirúrgica o que está em jogo nesta segunda-feira, 22 de junho, quando Lionel Messi entra em campo às 14h (horário de Brasília) no AT&T Stadium, em Dallas, para enfrentar a Áustria pela segunda rodada do Grupo J da Copa do Mundo de 2026.

O que os números dizem sobre Messi e a artilharia histórica das Copas

Miroslav Klose marcou 16 gols em quatro edições da Copa do Mundo — 2002, 2006, 2010 e 2014. Foram 24 jogos disputados com a camisa da Alemanha no torneio, uma média de 0,67 gols por partida. Marta, por sua vez, acumula 17 gols em cinco Copas femininas, tendo estreado no torneio em 2003. São dois marcos que definem o teto da artilharia histórica do futebol mundial em Mundiais.

Messi chegou a 16 gols na estreia desta Copa, quando marcou os três tentos da vitória argentina sobre a Argélia por 3 a 0. Com esse hat-trick, igualou Klose na artilharia masculina e ficou a apenas um gol de Marta no cômputo geral. Para contextualizar a dimensão desse número: 16 gols em Copas do Mundo equivalem a mais do que toda a produção ofensiva combinada de seleções como Escócia (23 participações, 25 gols em toda a história do torneio) e Irlanda (oito participações, 15 gols). Um homem sozinho, em sete jogos distribuídos por cinco edições — 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 —, produziu mais do que nações inteiras ao longo de décadas.

A trajetória de Messi no torneio não foi linear. Em 2006, na Alemanha, marcou apenas um gol — contra a Sérvia e Montenegro, na fase de grupos. Em 2010, na África do Sul, saiu zerado. Em 2014, no Brasil, chegou a quatro gols e à final, perdida para a Alemanha de Klose por 1 a 0 na prorrogação, em Maracanã. Em 2018, na Rússia, somou um. E em 2022, no Qatar, explodiu: sete gols, incluindo dois na final contra a França, e o título mundial que encerrou o maior debate do futebol contemporâneo.

O que Rangnick disse sobre Messi antes do jogo em Dallas

Do lado austríaco, o técnico Ralf Rangnick não tentou minimizar o adversário. Antes da partida, o treinador classificou Messi como o maior jogador de todos os tempos e reconheceu abertamente a qualidade do elenco argentino. A declaração não foi protocolar — foi estratégica. Rangnick sabe que qualquer tentativa de diminuir Messi publicamente seria desmentida em campo em questão de minutos.

"Messi é o maior jogador de todos os tempos", declarou Rangnick em entrevista antes do confronto em Dallas, reconhecendo a dimensão do desafio que sua equipe enfrenta.

A Áustria chega a este jogo embalada por uma vitória de 3 a 1 sobre a Jordânia na estreia, com uma equipe que inclui nomes como David Alaba, Marcel Sabitzer e Konrad Laimer — jogadores que atuam nas principais ligas europeias. Rangnick escalou Alexander Schlager no gol; Kevin Danso, Stefan Posch e Alaba na defesa; Xaver Schlager, Nicolas Seiwald, Sabitzer, Romano Schmid, Laimer e Paul Wanner no meio; e Michael Gregoritsch no ataque. É uma estrutura organizada, de pressing alto, característica do estilo do treinador alemão.

A última vez que a Áustria avançou da fase de grupos de uma Copa do Mundo foi em 1982, na Espanha — há 44 anos. Naquela edição, os austríacos chegaram à segunda fase antes de serem eliminados. Uma vitória sobre a Argentina atual, campeã mundial em 2022, representaria a maior zebra desta Copa e um dos maiores resultados da história do futebol austríaco.

A escalação de Scaloni e o cenário para Messi marcar em Dallas

Lionel Scaloni confirmou a escalação titular da Argentina sem surpresas: Emiliano Martínez; Nahuel Molina, Cristian Romero, Lisandro Martínez e Facundo Medina; Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister e Enzo Fernández; Thiago Almada, Lionel Messi e Lautaro Martínez. É o mesmo núcleo que funcionou contra a Argélia, com Almada mantendo a vaga de titular no trio ofensivo.

Nas últimas semanas, Messi também esteve no centro de uma situação extracampo delicada. Familiares precisaram desmentir rumores sobre a morte de seu pai, Jorge Messi, após especulações circularem nas redes sociais argentinas. O próprio jogador havia se emocionado ao comemorar um dos gols na estreia, revelando estar passando por um momento difícil na vida pessoal. A pressão dentro e fora de campo não parece, historicamente, afetar seu rendimento — em 2022, sob escrutínio máximo, foi o melhor jogador do torneio.

"Estou passando por um momento delicado na minha vida pessoal", revelou Messi ao comemorar com emoção visível um dos gols contra a Argélia, sem detalhar a situação.

A Argentina entra neste jogo como favorita clara e com um objetivo duplo: garantir a classificação antecipada para as oitavas de final — uma vitória assegura a vaga independentemente do resultado entre Jordânia e Argélia — e dar a Messi a plataforma para o gol histórico. Nos outros dois jogos do Grupo J, a Jordânia e a Argélia disputam vaga na madrugada desta segunda-feira. Uma derrota de qualquer uma dessas seleções, combinada com vitória argentina, encaminha a eliminação do perdedor ainda na segunda rodada.

A arbitragem do jogo ficará a cargo do egípcio Amin Mohamed Omar, com assistentes também egípcios — Mahmoud Abouregal e Ahmed Hossam Taha — e o qatari Khamis Almarri no VAR. A transmissão no Brasil será pela CazéTV, disponível no Disney+.

Se Messi marcar contra a Áustria, terá 17 gols em Copas do Mundo — número que nenhum homem ou mulher atingiu antes na história do torneio. Fará isso aos 38 anos e 11 meses de idade, em sua sexta Copa do Mundo, num país que não é o seu, diante de uma seleção que não o viu crescer. O número que ficará gravado: 38 anos. A idade em que Lionel Messi pode se tornar o maior artilheiro da história das Copas do Mundo.