— Cara, a França já tá classificada?
— Ainda não. Mas se vencer o Iraque hoje, tá feito.
— E aí o Mbappé vai com tudo?
A conversa se repete em bares de Belo Horizonte a Porto Alegre, mas a resposta exige mais do que um sim ou não. A seleção francesa estreou na Copa do Mundo de 2026 com uma vitória por 3 a 1 sobre o Senegal e entra em campo nesta segunda-feira, 22 de junho, diante do Iraque, com a aritmética ao seu favor: uma vitória garante classificação antecipada aos 16 avos de final, independentemente do que aconteça entre Noruega e Senegal horas depois. Os Bleus chegariam a seis pontos no Grupo I, tornando-se matematicamente inalcançáveis por pelo menos duas seleções da chave.
Quatro anos e uma derrota que ainda molda a França
O ponto de partida para entender esta seleção está no Qatar, em dezembro de 2022. A França chegou à final do Mundial e perdeu nos pênaltis para a Argentina, após um jogo que terminou 3 a 3 no tempo normal. Mbappé marcou três vezes naquela partida — hat-trick que, por ironia, não foi suficiente para o título. Desde então, a seleção acumulou a Copa América de 2024, onde foi eliminada nas semifinais pela Espanha, e passou por uma renovação parcial de elenco que mistura veteranos do vice-campeonato com nomes que chegaram à seleção principal depois de 2022.
A escalação confirmada por Didier Deschamps para o jogo desta segunda-feira reflete essa transição: Maignan; Koundé, Upamecano, Saliba e Lucas Digne; Manu Koné e Rabiot; Dembélé, Olise e Barcola; Mbappé. Dos titulares que jogaram a final de 2022, pelo menos quatro seguem no time — mas o meio-campo e as pontas mostram uma geração diferente. Michael Olise, 23 anos, e Bradley Barcola, 22, são exemplos de jogadores que mal tinham espaço no ciclo anterior e hoje disputam posição de titular.
Deschamps completa 14 anos à frente da seleção em 2026 — um período mais longo do que toda a carreira profissional de alguns atletas do atual elenco. Nenhum técnico na história recente da Europa permaneceu tanto tempo em uma seleção de primeira linha sem ser demitido. Segundo dados levantados pela reportagem publicada pelo SportNavo, ele acumula 76 vitórias em 114 jogos pelo cargo, aproveitamento de 66,6%.
Mbappé, 100 jogos e a conta que ainda está aberta
Kylian Mbappé chegou ao jogo contra o Iraque com 100 partidas disputadas pela seleção francesa — marca atingida exatamente contra o Senegal, na estreia. Nessas 100 partidas, ele soma 50 gols, média de 0,5 por jogo, número superior ao de Ronaldo Fenômeno em seleções nos mesmos primeiros 100 jogos (44 gols). A Copa de 2026 representa a terceira participação de Mbappé em Mundiais: ele foi vice em 2018, vice em 2022 e agora busca o título que falta na vitrine.
A pressão sobre o camisa 10 não é apenas simbólica. Com Giroud aposentado e Benzema fora do ciclo desde 2023, Mbappé acumula a função de referência ofensiva que antes era dividida. Nas últimas três edições de Copa do Mundo em que a França participou, o artilheiro da seleção foi sempre o centroavante — Giroud em 2018 e 2022. Desta vez, o modelo é diferente: Mbappé joga como falso nove, com Dembélé e Barcola nas pontas, o que exige mais mobilidade e menos apoio fixo na área.
"Vim aqui com fome de gol e com o objetivo de ganhar a Copa", declarou Mbappé em entrevista à imprensa francesa antes da partida contra o Iraque, acrescentando que observa de perto o recorde de Messi — 13 gols em Copas do Mundo — como referência pessoal.
O que a classificação hoje muda no caminho até o mata-mata
A disputa pela liderança do Grupo I vai além da classificação em si. O regulamento da Copa de 2026 mantém o critério de confronto direto como primeiro desempate entre seleções empatadas em pontos — e a França já tem vantagem sobre o Senegal por 3 a 1. Isso significa que, mesmo que as duas terminem a fase de grupos com o mesmo número de pontos, os franceses passam na frente.

A posição no grupo define o cruzamento no mata-mata. Seleções que terminam em primeiro lugar no grupo enfrentam o segundo colocado de outra chave — e, com 32 seleções divididas em oito grupos de quatro, o caminho pode incluir adversários como Espanha, Brasil ou Alemanha já nas oitavas, dependendo dos resultados paralelos. Terminar em segundo abre possibilidade de cruzamentos diferentes, não necessariamente mais fáceis.
Um dado coloca a situação em perspectiva: nas últimas quatro edições de Copa do Mundo, todas as seleções que se classificaram na segunda rodada como líderes do grupo chegaram pelo menos às quartas de final. A França de 2026 tem a chance de repetir esse padrão já nesta segunda-feira — e a próxima rodada, contra a Noruega na sexta-feira, 26 de junho, servirá para definir se os Bleus chegam ao mata-mata como cabeça ou vice do Grupo I.








