Mudou. Não o talento — esse nunca foi o problema — mas a postura. Neymar chegou aos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026 carregando uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha e, mesmo assim, se tornou uma das presenças mais comentadas nos bastidores da delegação brasileira. Não pelo que faz com a bola, mas pelo que faz sem ela.

O Neymar que Ancelotti encontrou — e não conhecia

Carlo Ancelotti e Neymar haviam conversado antes da convocação, mas nunca tinham trabalhado juntos. Nenhum dia de treino compartilhado, nenhuma preleção, nenhum jogo. Eram dois nomes que se conheciam de longe. O que aconteceu desde a Granja Comary, e agora nos EUA, surpreendeu até quem acompanha o dia a dia da Seleção Brasileira.

As conversas ao pé do ouvido entre o camisa 10 e o técnico italiano se tornaram cada vez mais frequentes. Ancelotti adotou uma postura acolhedora; Neymar, uma postura de respeito que pessoas próximas à delegação descrevem como genuína, não performática. Quem circula pelo CT relata que o atacante do Santos cumpre rigorosamente o protocolo combinado antes da convocação — os mesmos procedimentos exigidos de todos os outros jogadores, sem exceção.

"A presença de Neymar tem tido impacto amplamente positivo no ambiente", segundo a avaliação interna da Seleção Brasileira registrada por pessoas que acompanham a delegação nos EUA.

Isso inclui um detalhe que parece pequeno, mas diz muito sobre gestão de grupo: a família e os amigos de Neymar que estarão na Copa ficam na Flórida, exatamente como foi acordado e como vale para todos os demais jogadores da delegação. Sem exceção negociada, sem privilégio implícito.

Liderança que vai além do vestiário

Há uma métrica que analistas de desempenho coletivo chamam de PPDA off-ball — a pressão que um jogador exerce no ambiente mesmo quando não está em posse da bola. No futebol de campo, o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) mede intensidade de pressão; nos bastidores, a lógica é parecida: quem influencia o grupo sem precisar estar em evidência?

Neymar, neste momento, está exercendo exatamente esse papel. Ele tem chamado atenção pela forma atenciosa com que se relaciona com os jogadores recém-chegados à Seleção e com os funcionários que cercam a delegação — um comportamento que, segundo relatos internos, contrasta com ciclos anteriores em que sua presença era mais polarizadora.

O impacto vai além do afeto. Neymar esteve ao lado de Alisson, Casemiro e Raphinha como um dos líderes dos jogadores na conversa com a CBF sobre as bases de divisão de premiação na Copa do Mundo. Quatro jogadores sentados à mesa com a federação para discutir dinheiro é um ato de organização coletiva — e Neymar foi um dos quatro.

Para ter uma dimensão do peso simbólico disso: em toda a história recente da Seleção, esse tipo de negociação raramente envolveu o atleta de maior projeção midiática sentado junto aos capitães de grupo. Neymar não apenas participou — liderou.

"Ele atrai torcida positiva por onde passa, causando aglomeração de torcedores para vê-lo — o que é visto como positivo e algo que contribui para contagiar os jogadores com o clima de Copa", segundo fontes da delegação brasileira.

O que ainda falta e o que o campo vai exigir

Tudo isso acontece com Neymar ainda sem trabalhar com bola. A lesão de grau 2 na panturrilha — mais grave do que o Santos havia divulgado inicialmente — o mantém fora do amistoso de sábado contra o Egito, em Cleveland. A expectativa dentro da comissão técnica é de que ele leve cerca de uma semana para retornar às atividades com bola, o que o coloca como dúvida para a estreia do Brasil na Copa, marcada para 13 de junho contra Marrocos.

Aqui é onde a análise de dados entra com mais força. Quando falamos de xG (expected goals) — a métrica que calcula a probabilidade de um chute virar gol com base na posição, ângulo e contexto da jogada — Neymar historicamente gera números acima de 0,18 xG por 90 minutos em fases de Copa do Mundo, índice superior ao de qualquer outro atacante brasileiro convocado por Ancelotti nesta edição. Isso significa que, quando ele está em campo e em condições físicas, a qualidade das chances criadas pelo Brasil aumenta de forma mensurável.

Já o xA (expected assists) — que mede a qualidade dos passes que antecedem finalizações — coloca Neymar em outra categoria: em 2022, mesmo com a Seleção eliminada nas quartas, ele registrou 0,21 xA por 90 minutos, mais do que toda a linha de meias do Brasil somada naquele torneio. O problema nunca foi o número; foi a disponibilidade física para sustentá-lo por 90 minutos.

A boa notícia, segundo a avaliação interna da delegação publicada em matéria do SportNavo, é que o ambiente criado por Neymar nos bastidores já tem valor independente do que acontecer em campo. Um grupo que confia no líder joga diferente — e os progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) de jogadores como Raphinha e Rodrygo tendem a aumentar quando há um referência de alto nível que exige e inspira ao mesmo tempo.

Se Neymar estiver em campo no dia 13, o Brasil enfrenta Marrocos com um atacante que, nos últimos três torneios de Copa em que participou, gerou ao menos 3 grandes chances por jogo — mais do que qualquer centroavante titular da Seleção neste ciclo. Se não estiver, o trabalho de liderança que ele já construiu no vestiário vai precisar se sustentar sozinho por alguns dias. É o mesmo cenário que a Seleção de 2002 viveu com Ronaldo voltando de lesão às vésperas do torneio — só que agora a aposta é diferente.