A última vez que a França ficou sem um técnico campeão do mundo no comando foi em 2002 — quando Aimé Jacquet já havia deixado o cargo e Roger Lemerre pagava o preço de uma eliminação na fase de grupos. Vinte e quatro anos depois, a história rima com brutalidade: Copa do Mundo encerrada, quarto lugar no bolso e Didier Deschamps de malas prontas. Mas desta vez, o desgaste não veio do campo — veio dos bastidores, da imprensa, de um ambiente que o próprio treinador definiu como irrespirável.

14 anos no comando e um número que pesa mais do que o ouro de 2018

Catorze. É o número que sintetiza a era Deschamps à frente da seleção francesa. Catorze anos de convocações, decisões polêmicas, títulos e eliminações precoces que nunca couberam direito no currículo de quem ergueu a taça em Moscou, em julho de 2018. Nenhum treinador na história recente das grandes seleções europeias ficou tanto tempo no cargo: Joachim Löw ficou 15 anos com a Alemanha, mas saiu após a Euro 2021. Deschamps resistiu até a Copa de 2026 nos Estados Unidos — e resistiu, ao que tudo indica, além do que deveria.

A campanha de 2026 terminou com derrota para a Espanha por 2 a 0 na semifinal, seguida de um jogo pelo terceiro lugar que a França perdeu para a Inglaterra por 6 a 4 — um placar que mais parece basquete do que futebol, e que ninguém no vestiário vai esquecer tão cedo. Quarta colocação. Para uma seleção que chegou ao torneio como uma das favoritas ao título, o resultado doeu como uma faca entortada.

Mas os números não param no campo. Deschamps acumulou, nesses 14 anos, uma Copa do Mundo (2018), uma vice em 2022 — eliminado nos pênaltis pela Argentina — e duas semifinais em Copas do Mundo (2014 e 2026). Nas Eurocopas, o desempenho foi menos brilhante: vice em 2016, eliminação nas quartas em 2020 e nas semis em 2024. Um currículo robusto, mas irregular — e a irregularidade, no futebol de alto nível, cobra juros.

O ambiente irrespirável que ninguém quis admitir antes

O calor de Dallas ainda estava no ar quando Deschamps concedeu sua entrevista à TV francesa M6, na noite de sábado, 18 de julho. Não havia câmera de bastidor que captasse o peso daquele momento, mas as palavras fizeram o trabalho sozinhas.

"Decidi que aquilo tinha que parar. E se tomei essa decisão, não foi por mim, digo sinceramente, foi pelo bem da seleção francesa. Talvez não o tenha dito antes, mas vou ser honesto: não tomei esta decisão por mim. Porque existia um ambiente que era muito irrespirável com relação a mim, e a seleção francesa não merece isso. A seleção francesa está acima de tudo. Ela não me pertence. Eu a servi em missão por quatorze anos. Não há nada acima desta camisa", desabafou o treinador.

A palavra irrespirável não saiu por acaso. Deschamps escolheu cada sílaba. Nos últimos dois anos, o técnico viveu sob pressão constante da imprensa francesa, que questionava suas escolhas táticas, sua relação com Kylian Mbappé — e os reflexos do ego do camisa 10 dentro do vestiário — e sua capacidade de reinventar um esquema que parecia cada vez mais previsível para os adversários. A tensão não era nova. Era crônica… e aí vem o problema.

A relação com Mbappé, capitão da seleção e maior estrela do elenco, nunca foi simples. Nos bastidores da Copa de 2022, já circulavam relatos de atritos entre o atacante e outros jogadores. Em 2026, com Mbappé atuando pelo Real Madrid e carregando o peso de ser o melhor jogador do mundo, a convivência dentro do grupo tornou-se um exercício diário de gestão de ego — tarefa para a qual Deschamps parecia cada vez menos disposto.

O que a França busca agora e quem pode assumir o desafio

A Federação Francesa de Futebol (FFF) já anunciou que iniciará, nas próximas semanas, o processo de seleção do novo técnico. O desafio é imenso: substituir um campeão do mundo que moldou uma geração inteira de jogadores não é tarefa simples, e o calendário não dá folga — a próxima edição da Nations League começa em setembro, e a Euro 2028 já está no horizonte.

Três nomes circulam nos corredores da FFF com mais força. Zinedine Zidane, ídolo histórico que nunca assumiu a seleção apesar de anos de especulação, surge novamente como candidato — desta vez, com a aposentadoria do cargo de técnico de clubes tornando o projeto mais viável. Thomas Tuchel, que deixou o Chelsea em 2023 e comandou a seleção inglesa até a Copa de 2026, também foi cotado, mas sua ligação com a Inglaterra complica qualquer negociação. O terceiro nome, mais surpreendente, é o de Roberto De Zerbi, que revelou trabalho impressionante no Olympique de Marselha na temporada 2025/2026 da Ligue 1.

O novo treinador herdará um elenco que Deschamps, generoso até no momento de adeus, não deixou de elogiar.

"Há aqui um elenco com verdadeira qualidade futebolística. Tínhamos a matéria-prima para obter resultados. Em nível pessoal, foi uma jornada maravilhosa", disse o treinador, reconhecendo o potencial do grupo mesmo diante da decepção do quarto lugar.

A matéria-prima existe — e é abundante. Além de Mbappé, a França conta com Camavinga, Tchouaméni, Upamecano e uma geração de jogadores entre 21 e 26 anos que pode dominar o futebol europeu por pelo menos mais uma década. O problema nunca foi o talento individual. Foi a arquitetura coletiva — e quem vai construí-la agora, tijolo por tijolo, é a questão que a FFF precisa responder antes que o próximo ciclo comece sem alicerce.

Conforme registrado pelo SportNavo durante a cobertura da Copa do Mundo de 2026, a saída de Deschamps foi anunciada horas depois da derrota para a Inglaterra, sem coletiva de imprensa formal — apenas a entrevista à M6, íntima e carregada, que funcionou como um testamento de 14 anos comprimido em poucos minutos de televisão.

A FFF tem até o final de agosto para anunciar o novo técnico, segundo fontes próximas à federação. O primeiro compromisso oficial do substituto será em setembro, pela fase de grupos da UEFA Nations League 2026/2027 — um torneio sem glamour de Copa, mas com pressão suficiente para revelar se o novo ciclo vai começar com os pés no chão ou tropeçar já na largada.

Deschamps foi o maestro que regeu a mesma sinfonia por 14 anos — às vezes em crescendo glorioso, como em Moscou 2018, às vezes em dissonância aberta, como nas noites em que a França parecia uma orquestra afinada tocando partituras erradas. Agora o palco está vazio, a partitura está aberta e alguém precisará aprender a linguagem desse elenco antes que os músicos percam a paciência.