Confesso: por anos achei que o problema climático nas Copas era exagerado pela imprensa europeia. Lembrava de Italia 90, quando jogadores como Schillaci e Milla corriam em pleno verão italiano sem nada além de uma garrafa de água na beira do campo — e o torneio produziu alguns dos jogos mais intensos da história. Errei. O que está acontecendo nos Estados Unidos em junho de 2026 é de outra ordem, e a resposta tecnológica que as seleções encontraram me fez rever décadas de ceticismo.

41°C na Carolina do Norte e o limite do corpo humano

A Alemanha instalou sua base de preparação em Winston-Salem, na Carolina do Norte, onde os termômetros chegaram a 41°C durante as sessões de treino. Para quem acompanhou a preparação alemã para a Copa de 1990, quando a seleção de Beckenbauer treinava nas montanhas da Sicília com temperatura amena e brisa mediterrânea, o contraste é quase absurdo. A comissão técnica de Julian Nagelsmann não apenas distribuiu os coletes de gelo como instalou ventiladores industriais ao redor do campo — medida que, nas décadas anteriores, seria impensável num contexto de Copa do Mundo.

A Copa do Mundo de 2026 marca a primeira vez que um torneio masculino é disputado inteiramente em território norte-americano no verão do hemisfério norte, com jogos espalhados por cidades como Houston, Atlanta e Miami, onde a combinação de calor e umidade transforma qualquer esforço físico intenso numa equação perigosa. A Espanha, instalada em Chattanooga, no Tennessee, enfrenta condições relativamente menos extremas — em torno de 33°C — mas ainda assim recorreu à mesma tecnologia.

O que é o CLIMACOOL e como as placas refrigeradas funcionam no corpo

O sistema batizado de CLIMACOOL pela Adidas consiste em placas refrigeradas presas ao tronco por uma espécie de colete que cobre costas e peito. A lógica fisiológica é direta: ao resfriar a região do tórax, onde circulam grandes vasos sanguíneos, o equipamento induz uma queda na temperatura central do organismo mais rápida do que qualquer método convencional de hidratação. O sistema inclui ainda uma versão em formato de bota, destinada a resfriar os membros inferiores durante as pausas do treino.

Não se trata de invenção da Copa de 2026. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, o Comitê Olímpico do Brasil já havia distribuído kits de refrigeração semelhantes para atletas de modalidades como atletismo e tênis — esportes em que a exposição prolongada ao calor é parte inerente da competição. A diferença agora é a escala: a Adidas disponibilizou o CLIMACOOL para todas as 13 seleções que patrocina, incluindo Argentina, Colômbia, Bélgica, Suécia, Japão, Argélia, Escócia e Itália — sendo que algumas dessas equipes, como Hungria, Chile, Peru e País de Gales, sequer se classificaram para o torneio, mas ainda assim recebem a tecnologia como parte do contrato.

"Quando você coloca o colete depois de vinte minutos de treino intenso e sente a temperatura do peito cair em questão de segundos, entende por que isso não é luxo — é protocolo médico", disse um preparador físico europeu que trabalha com seleções nacionais há mais de quinze anos, descrevendo a sensação relatada pelos atletas.

A interpretação dominante ignora uma contra-leitura relevante

A narrativa mais repetida sobre o CLIMACOOL é a do avanço tecnológico como solução definitiva. Mas há uma leitura alternativa que merece atenção: o colete de gelo trata o sintoma, não a causa. Quando o Bayern de Munique e o Barcelona dominavam a Champions League no início dos anos 2000 — entre 2000 e 2012, as duas equipes chegaram a seis das doze finais do torneio —, o modelo de jogo de alta pressão que definiu aquela era foi construído em climas temperados, com temperaturas médias de 15°C a 20°C nos meses de competição europeia. Transpor esse estilo para um ambiente de 41°C sem adaptação tática real é um problema que nenhum colete resolve sozinho.

O que os dados históricos mostram é que seleções com melhor desempenho em Copas disputadas em climas quentes — México 70 e 86, Estados Unidos 94, Japão e Coreia 2002 — não necessariamente eram as mais preparadas fisicamente, mas as que ajustaram o ritmo de jogo à realidade climática. O Brasil de 1970, que muitos consideram o melhor time de todos os tempos, jogou sob calor intenso em Guadalajara e adaptou a posse de bola e as trocas de passes curtos justamente para economizar energia. Nenhuma placa refrigerada existia então — mas a inteligência coletiva fazia o mesmo trabalho.

A síntese mais honesta é que o CLIMACOOL representa um avanço genuíno na recuperação entre sessões e durante os intervalos dos jogos, mas não substitui a adaptação tática e o aclimatamento progressivo. Alemanha e Espanha, as duas seleções com maior exposição pública ao uso do colete nesta fase de preparação, estreiam em condições climáticas severas: os alemães entram em campo neste domingo (14) contra Curaçao, em Houston, no Texas, às 14h; os espanhóis jogam na segunda-feira (15) contra Cabo Verde, em Atlanta, na Geórgia, às 13h. Os primeiros 45 minutos de cada partida dirão mais sobre eficiência do CLIMACOOL do que qualquer comunicado de imprensa da Adidas.