A última vez que os Estados Unidos criaram um mecanismo especial de acesso consular para um evento esportivo em larga escala foi nos Jogos de Los Angeles, em 1984. Quarenta e dois anos depois, o governo americano anuncia algo parecido — com uma diferença que muda tudo. O FIFA PASS não é um visto. Não é uma aprovação. É uma senha para entrar mais rápido na fila de quem ainda pode ser recusado.

O que o FIFA PASS realmente oferece ao torcedor brasileiro

O sistema foi anunciado pelo presidente Donald Trump em Washington, após reunião com Gianni Infantino, presidente da FIFA. A lógica é simples: torcedores estrangeiros com ingresso confirmado para a Copa do Mundo de 2026 terão prioridade no agendamento da entrevista consular para o visto americano. O secretário de Estado Marco Rubio foi claro ao detalhar o alcance da medida:

É HOJE! BRASIL ESTREIA DIANTE DO MARROCOS NA COPA DO MUNDO | De Placa 13/06/26
"O passe não garante a aprovação do visto, mas assegura prioridade no acesso às entrevistas exigidas pelo Departamento de Estado."

Traduzindo: você pula a fila do agendamento, mas os critérios de concessão continuam idênticos. Renda comprovável, vínculos com o Brasil, histórico de viagens — nada muda nessa etapa. O que muda é o tempo de espera para chegar até ela.

Com mais de 6 milhões de ingressos disponíveis para os jogos distribuídos entre EUA, México e Canadá, o fluxo esperado de turistas é historicamente sem precedente. O governo americano viu no FIFA PASS uma forma de evitar o colapso logístico do sistema consular nas semanas que antecedem o torneio — seria injusto chamar de solução estrutural, mas é uma solução em escala de Copa do Mundo.

O precedente de quem já tentou e foi barrado

O caso iraquiano expõe o limite real do sistema. Quando o Iraque se classificou para a Copa — apenas a segunda vez na história do país, depois de 1986 — o torcedor Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos contra Noruega e França, em Boston e Filadélfia. O problema: os EUA suspenderam serviços consulares de rotina no Iraque após a escalada do conflito entre EUA, Israel e Irã.

"Ir a um jogo, a um estádio, a uma multidão, torcer e ver meu time — isso é tudo para mim. É um sentimento incomparável", disse Adnan à BBC.

Adnan viajou à Jordânia para tentar um visto. Chegou à entrevista e foi informado de que, por não ser cidadão jordaniano, aquela embaixada não poderia atendê-lo. O custo da tentativa: cerca de US$ 1.800 (R$ 9.400) entre ingressos e viagem. Ele desistiu. O FIFA PASS, nesse cenário, não teria mudado o desfecho — teria acelerado a chegada a um não.

Torcedores de mais de um quarto dos países participantes da Copa enfrentam proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de visto, segundo análise de dados da BBC. Para esses casos, nenhum passe resolve.

Por que a Copa de 2026 tornou o visto ainda mais crítico

O contexto de preços também pressiona quem ainda está tentando. Os ingressos para a Copa variam entre US$ 100 e US$ 6.370 — com a final no MetLife Stadium chegando a US$ 33 mil no mercado oficial e a US$ 2 milhões no mercado de revenda. Procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey já abriram investigação sobre o processo de venda da FIFA, citando preços exorbitantes e alegações de vendas escalonadas para inflar a demanda artificialmente.

O torcedor que quiser acompanhar o Brasil do início ao fim na categoria mais barata dos estádios precisará de cerca de R$ 19.700 só em ingressos. Quem optar pela categoria A, gastará em torno de R$ 70 mil. Esses números tornam o custo do visto — e o tempo perdido tentando obtê-lo — ainda mais relevante no cálculo total da viagem, como registrado por SportNavo em cobertura anterior sobre os custos da edição.

A FIFA adotou o modelo de preços dinâmicos pela primeira vez numa Copa, sistema algorítmico que ajusta valores automaticamente com base na demanda — prática comum nos EUA desde que o San Francisco Giants a pioneirizou em 2009. O resultado prático foi um aumento de mais de 1.000% em relação a alguns ingressos de 2022, segundo comparativo da CNN Brasil.

O que o torcedor brasileiro pode fazer agora

O FIFA PASS ainda não está operacional. O governo americano sinalizou que os detalhes de funcionamento serão divulgados nos próximos meses, com previsão de disponibilização no início de 2026 — o que, com a Copa começando em 11 de junho, deixa uma janela apertada para quem ainda não tem visto.

Alguns pontos práticos que já estão definidos:

  • O ingresso confirmado é requisito para acessar o FIFA PASS — sem bilhete, sem prioridade.
  • A prioridade vale para o agendamento da entrevista consular, não para a aprovação.
  • Os critérios de concessão do visto americano permanecem inalterados — renda, vínculos com o país de origem e histórico de viagens continuam sendo avaliados normalmente.
  • Quem já tem visto americano válido não precisa do FIFA PASS para entrar nos EUA.

Para brasileiros que ainda não têm visto e pretendem comprar ingressos, a recomendação prática é não esperar o FIFA PASS estar ativo para iniciar o processo consular. O agendamento regular já está disponível, e a espera média para entrevistas em consulados brasileiros oscila entre semanas e meses dependendo da cidade. Quem comprar ingresso agora e usar o FIFA PASS quando ele estiver disponível poderá reagendar com prioridade — mas quem deixar tudo para o último trimestre de 2026 corre o risco de chegar à entrevista depois que os jogos já acabaram.