Confesso: eu errei sobre Bielsa em 2024. Quando ele começou a construir esse Uruguai sem Luis Suárez, achei que era teimosia de um técnico obcecado por sistemas. Hoje, sentada aqui nos Estados Unidos, acompanhando a Celeste tropeçar num empate de 2 a 2 com Cabo Verde e ver aquele dado circular em todas as redações, entendo o que estava em jogo — e o quanto a aposta de Bielsa ainda precisa se provar.
O número que não para de aparecer é simples e brutal: a última vez que o Uruguai venceu uma partida de Copa do Mundo sem Suárez em campo foi em 1990, contra a Coreia do Sul, com gol de Daniel Fonseca nos minutos finais. Trinta e seis anos. Três gerações de torcedores. Onze vitórias no torneio desde 1970 — dez delas com o camisa 9 atuando. A estatística tem o peso de uma pedra de calcário no pescoço de qualquer treinador.
Por que Bielsa deixou Suárez fora da lista
O atacante tem 39 anos e, ao contrário do que muitos esperavam, não aceitou o silêncio em paz. Suárez chegou a anunciar a aposentadoria da seleção, depois voltou atrás e se colocou à disposição publicamente para disputar o Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá. A mensagem era clara: ele queria estar aqui. Bielsa disse não.
A decisão não foi por acaso nem por capricho. O técnico argentino construiu ao longo de três anos um modelo de jogo que exige intensidade física nas transições — pressão alta, sprints repetidos, marcação no campo adversário. Suárez, na fase final da carreira, já não entregava esse volume com consistência. Bielsa optou pela renovação: Darwin Núñez, com sua velocidade explosiva, e Facundo Pellistri, que chegou ao Mundial com passagem pelo Manchester United, formam o núcleo ofensivo que o treinador imaginou para substituir uma era inteira.
"Bielsa escolheu um caminho sem volta. Ou a renovação funciona aqui, ou o custo político vai cobrado por anos", escreveu o jornalista uruguaio Sebastián Giovannini antes da estreia da Celeste no torneio.
O raciocínio de Bielsa tem lógica interna. Nas Copas de 2010 e 2018, quando Suárez estava em sua melhor forma física, o Uruguai chegou às semifinais e às quartas, respectivamente. Mas em 2022, no Catar, a Celeste foi eliminada na fase de grupos — com Suárez em campo. O ídolo não era mais garantia de resultado; era símbolo. E Bielsa não convoca símbolos, convoca jogadores.
O que os números revelam sobre o ataque sem o camisa 9
Decidiu. Mas a conta chegou cedo demais.
O empate com Cabo Verde expôs fragilidades reais no ataque uruguaio. Darwin Núñez, que custou cerca de 100 milhões de euros ao Liverpool em 2022, chegou ao torneio carregando a expectativa de ser o novo dono da área. Nos dois jogos da fase de grupos até agora, porém, a Celeste balançou as redes duas vezes — insuficiente para uma equipe que precisa de resultados, não de performances.
O histórico de Suárez em Copas ajuda a entender o tamanho do vazio deixado. Só em 2010, o atacante marcou três gols e conduziu o Uruguai às semifinais na África do Sul — campanha que incluiu o episódio da defesa com a mão contra Gana nas quartas de final, que resultou em expulsão, mas levou a decisão para os pênaltis. Em 2014, no Brasil, ele anotou dois gols contra a Inglaterra numa vitória por 2 a 1, antes de ser suspenso pela mordida em Giorgio Chiellini. Em 2018, marcou contra Arábia Saudita e Rússia. Ao todo, participações diretas em dez das onze vitórias uruguaias desde 1970.
Pellistri tem mostrado mobilidade e criatividade pelos lados, mas ainda não o peso de área que Suárez carregava com naturalidade. O Uruguai soma, no torneio atual, mais dificuldade para converter chances do que para criá-las — um problema de finalização, exatamente onde o veterano era insubstituível.
"Suárez sabe fazer gol quando o jogo está feio, quando ninguém mais acredita. Isso não se ensina em seis meses", disse um integrante da comissão técnica uruguaia, em declaração não atribuída publicada pelo portal ESPN Uruguai antes da Copa.
O que Bielsa acerta e o que ainda está em aberto
A leitura honesta é que Bielsa acertou no diagnóstico e ainda não provou que acertou na solução. Manter Suárez significaria adiar um problema estrutural: a seleção uruguaia precisava se reinventar depois de uma geração histórica que incluiu Suárez, Edinson Cavani e Diego Forlán. Nenhum processo de transição é indolor — e o técnico sabia que o preço seria pago em algum torneio.
O problema é que esse torneio é a Copa do Mundo de 2026, disputada em casa das Américas, com toda a pressão continental sobre um país que tem dois títulos mundiais na prateleira e uma autoestima futebolística desproporcional ao seu tamanho. O empate com Cabo Verde não foi apenas um resultado ruim; foi uma ferida exposta diante de 50 mil pessoas no estádio e de um país inteiro acordado de madrugada para assistir.
Bielsa construiu uma equipe tecnicamente honesta, coletivamente organizada e fisicamente capaz. Falta o último elemento: alguém que transforme pressão em gol quando o placar pede. Suárez fazia isso aos 25, aos 30, aos 35. Se faria aos 39, ninguém sabe — e agora ninguém vai descobrir.
O Uruguai enfrenta a Espanha na última rodada do Grupo H precisando de uma vitória para avançar às oitavas de final. A Espanha venceu seus dois jogos anteriores e chega em ritmo de semifinalista. Para Bielsa provar que a renovação valeu o custo, Darwin Núñez e companhia precisam fazer o que Suárez fez por 15 anos: vencer quando não há margem para erro. O aproveitamento do Uruguai em Copas sem Suárez, em jogos disputados entre 1990 e 2026, é de 0%.








