— Esse Marrocos que vai jogar contra o Brasil é o mesmo de 2022?
— Quase. Mas quase não é igual.
— Então mudou ou não mudou?

A pergunta dos bares é legítima e merece uma resposta que não caiba em três palavras. O Marrocos que entrou em campo na tarde de sexta-feira, 27 de março, no Riyadh Air Metropolitano — o estádio do Atlético de Madrid, em Madri — contra o Equador não é exatamente o mesmo que encantou o mundo no Catar. Mas tampouco é uma equipe nova. É uma equipe em transição deliberada, o que, na história do futebol de seleções, costuma ser o estado mais perigoso de todos.

Mohamed Ouahbi herdou um grupo vitorioso e, ao mesmo tempo, traumatizado. Os Leões do Atlas chegaram à semifinal de 2022 com uma identidade tão clara quanto um bloco de concreto: pressão alta, compactação defensiva em dois blocos de quatro, e transições rápidas pelo lado direito, onde Achraf Hakimi funcionava como um lateral-atacante de fato. Walid Regragui construiu aquilo ao longo de meses. Ouahbi recebe a herança depois de uma derrota dolorosa na final da Copa Africana de Nações para o Senegal — uma derrota que, ao menos em campo, encerrou um ciclo e abriu outro.

O que os números de Ouahbi revelam sobre sua filosofia

Quem acompanhou o sub-20 marroquino nos últimos anos sabe que Ouahbi não é um técnico de manutenção. Ele construiu uma geração: foi sob seu comando que Marrocos conquistou o título mundial sub-20, e é dessa safra que vêm dois dos nomes mais interessantes da convocação para o amistoso contra o Equador — os atacantes Gessime e Zabiri. Chamar dois campeões do mundo da base para um amistoso às vésperas de Copa não é gesto casual. É um sinal.

Historicamente, quando seleções europeias ou africanas promovem jogadores jovens em janelas pré-Copa, o movimento costuma ter duas leituras possíveis: ou o técnico está testando alternativas porque algum titular está em dúvida, ou ele está construindo uma identidade diferente da do predecessor. No caso de Ouahbi, tudo indica que as duas leituras são válidas ao mesmo tempo. A convocação do meia El Mourabet, destaque do Strasbourg na temporada 2025/2026 da Ligue 1, reforça essa impressão — é um perfil de jogador mais técnico, mais voltado à posse, diferente do meio-campo de marcação que Regragui preferia.

Segundo a imprensa marroquina, Ouahbi deixou claro internamente que quer um Marrocos capaz de ditar o ritmo do jogo, não apenas reagir ao adversário — uma mudança filosófica significativa em relação ao bloco defensivo de 2022.

Isso me lembra o que aconteceu com a Alemanha entre 2000 e 2004. Após o vexame na Eurocopa de 2000 — eliminação na fase de grupos, a pior campanha da história da Mannschaft em grandes torneios —, Rudi Völler começou a misturar veteranos com jovens da base. O resultado foi gradual: a Copa de 2002 trouxe a final, mas a identidade só ficou clara mesmo em 2006, com Klinsmann. Ouahbi tem menos tempo. Tem semanas, não anos.

A escalação contra o Equador e o que ela entrega

A formação titular escolhida por Ouahbi para o amistoso no Metropolitano manteve o esquema base de 4-3-3, mas com nuances importantes. Bono no gol, Hakimi na lateral direita e Mazraoui na esquerda compõem uma defesa que qualquer treinador do mundo gostaria de ter. No meio, a presença de El Khannouss e Saibari ao lado de El Aynaou sugere um trio com mais mobilidade do que o quarteto de marcação que Regragui usava em momentos de pressão.

O ponto mais revelador, porém, está no ataque. Brahim Diaz, naturalizado marroquino e hoje um dos melhores meias do Real Madrid, aparece como extremo pela direita — posição que já ocupou em 2022, mas com liberdade maior para entrar pelo centro. E El Kaabi, artilheiro da Liga Europa pelo Olympiacos na temporada passada com 11 gols, é o centroavante titular. A ausência de En-Nesyri, que estava presente em convocações anteriores, é um dado que merece atenção.

Do outro lado, o Equador de Sebastián Beccacece chegou ao amistoso carregando uma estatística impressionante: em 16 jogos sob o comando do técnico argentino, a La Tri sofreu apenas 4 gols — ou seja, ficou com o gol em branco em 12 das 16 partidas. Com Moisés Caicedo no meio e Enner Valencia na frente, o Equador não é adversário de fachada. Testar o novo Marrocos contra uma equipe tão organizada defensivamente diz muito sobre o nível de exigência que Ouahbi impôs ao próprio grupo.

Nas palavras do próprio Beccacece, em entrevista à imprensa equatoriana antes da viagem a Madri, "cada amistoso pré-Copa é uma final em câmera lenta — você não pode desperdiçar nenhuma informação".

O que o Brasil precisa entender sobre este Marrocos

Existe uma armadilha clássica na análise de seleções africanas às vésperas de Copa: olhar demais para os nomes e de menos para o sistema. Em 1994, a Nigéria de Rashidi Yekini surpreendeu o mundo não porque tinha os melhores jogadores individualmente — tinha, mas o diferencial foi a compactação tática que ninguém esperava de uma seleção africana naquele momento. Em 2002, o Senegal eliminou a França campeã mundial na estreia, e o El Hadji Diouf que jogou aquele jogo não era o melhor jogador da Copa — era o mais bem posicionado dentro de um sistema coletivo eficiente.

O Marrocos de 2022 seguiu essa lógica ao extremo. Regragui montou um bloco defensivo que eliminou Portugal e Espanha não por acaso, mas por repetição de padrões bem treinados. A questão que Ouahbi precisa responder — e que o amistoso contra o Equador começa a responder — é se o novo Marrocos mantém essa solidez coletiva enquanto adiciona qualidade técnica individual. É uma equação difícil. Poucas seleções na história conseguiram ser ao mesmo tempo compactas e fluidas sem um ciclo longo de trabalho.

Em matéria do SportNavo, já analisamos como o Brasil de Ancelotti planeja abordar o setor defensivo marroquino — e a presença de Hakimi como ameaça constante pelo lado direito é uma das preocupações centrais da comissão técnica brasileira. Com Brahim Diaz cada vez mais influente e El Kaabi como referência de área, o Marrocos tem hoje um ataque mais variado do que tinha em 2022, quando dependia muito das transições e menos da construção.

O amistoso no Metropolitano não define nada, mas entrega pistas. E as pistas dizem que Ouahbi quer um Marrocos que jogue, não apenas que resista. Se ele conseguir isso em semanas, o Brasil encontrará em campo um adversário diferente do que os analistas estão projetando.

Marrocos mudou de técnico, mas não de ambição — e essa é a parte mais perigosa.