Um barco que perde o leme antes de sair do porto. É assim que a Seleção Brasileira chega ao ciclo mais decisivo das últimas duas décadas: sem treinador efetivo, sem coordenador técnico e com um 4 a 2 estampado no peito depois de ser dominada pelo Senegal em amistoso realizado em junho de 2026 em Lisboa. O resultado não foi acidente — foi diagnóstico.

O placar que não mente

A sequência de gols conta a história melhor do que qualquer narrativa. O Brasil saiu na frente com gol de Paquetá, em jogada construída por Marquinhos e Vinicius Júnior. Parecia que a equipe teria o controle do jogo. Não teve. Diallo empatou, um gol contra do próprio Marquinhos virou o placar, e Sadio Mané marcou duas vezes — a última em cobrança de pênalti, após o próprio Ederson cometer a falta no contra-ataque. Resultado final: 4 a 2. A última vez que o Brasil tinha levado quatro gols foi no traumático 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014.

O capitão Danilo reconheceu o vazio de liderança institucional no vestiário:

"O que passamos ao presidente é que ele defina um norte, um plano, e nós vamos ajudar para fazer dar certo. O Ramon vem crescendo, tem respeito e respaldo aqui na seleção. Caso seja ele que continue, importante os jogadores assumirem a responsabilidade também."
A fala, ao mesmo tempo leal e impotente, resume o estado de um grupo que está esperando que alguém de fora resolva o que precisa ser consertado por dentro.

Vinte e quatro anos de espera e quatro quartas de final perdidas

O Brasil conquistou seu último título mundial em 2002, na Copa da Coreia e Japão. Nos cinco torneios seguintes, caiu quatro vezes nas quartas de final — uma regularidade que, a essa altura, já não é mais coincidência, mas padrão. O único desvio dessa trajetória foi em 2014, quando o time chegou às semifinais jogando em casa e foi goleado pela Alemanha. Chamar isso de progresso seria um eufemismo difícil de sustentar.

O jornalista Perrone, do UOL, foi preciso na análise:

"A derrota da seleção brasileira para Senegal, por 4 a 2, de virada, não foi zebra nem um escândalo. O fracasso no amistoso em Lisboa apenas retrata o estágio atual do futebol brasileiro."
O equilíbrio do futebol mundial cresceu de forma estrutural. Seleções que o Brasil derrotava com margem confortável há 15 anos hoje se apresentam com atletas na Premier League, na Ligue 1 e em ligas de elite europeias — e o Senegal é o exemplo mais claro disso.

O Senegal que o Brasil subestimou

Quem ainda enxerga Senegal como surpresa não acompanhou a evolução do futebol africano nas últimas duas décadas.

Em 2002, a seleção senegalesa já havia eliminado a França, então campeã mundial, e chegado às quartas de final. O atual técnico da equipe, Aliou Cissé, foi capitão daquele time histórico. Ele não deixa, porém, que a nostalgia ofusque o presente:

"Naturalmente são feitas muitas comparações, mas aquele time já criou a parte dele na história. Nós temos bons jogadores e podemos criar a nossa história."
Criaram. Com Mané como referência e um elenco espalhado pelas principais ligas europeias, o Senegal apresentou em Lisboa superioridade tática e física que o Brasil simplesmente não conseguiu responder.

No futebol, como no ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e o Brasil, sem um projeto de jogo definido e sem treinador permanente, entrou em campo com improvisos enquanto o adversário executou um plano claro de pressão alta e transições rápidas.

A base que não chegou e a estrutura que precisa ser reconstruída

Aqui está o ponto que mais me interessa como especialista em futebol de base: a crise da Seleção não nasce no dia do jogo. Ela nasce anos antes, nas categorias sub-17 e sub-20, na falta de sincronia entre CBF e clubes formadores, na ausência de um projeto de longo prazo que vá além do ciclo de Copa. O Brasil produziu talentos individuais expressivos nos últimos anos — mas talento individual sem sistema é como motor potente sem chassi.

A coluna de Perrone no UOL aponta que a solução não é apenas contratar um bom técnico e deixá-lo no cargo por dois ciclos, como aconteceu com Tite. É rever todo o trabalho nas categorias de base em sintonia com os clubes, diagnosticar os males que minaram a seleção nos últimos 20 anos e construir remédios eficientes. Humildade, organização e projeto a longo prazo são os ingredientes que faltam — e nenhum deles aparece da noite para o dia.

A CBF aguardava Carlo Ancelotti para assumir o cargo em meados de 2024. O italiano chegou, mas a reestruturação profunda da base segue sem cronograma público. O Brasil volta a campo pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026 com a obrigação de apresentar respostas que o amistoso de Lisboa deixou em aberto — e o calendário não perdoa quem posterga diagnósticos urgentes.