A melhor defesa da fase classificatória europeia estreia contra a seleção que mais vezes chegou perto do título sem jamais tê-lo conquistado. Esse paradoxo — poder sem troféu de um lado, experiência sem invencibilidade do outro — é exatamente o que torna o duelo desta quarta-feira, 17 de junho, entre Inglaterra e Croácia, no AT&T Stadium, em Arlington, Texas, algo além de uma estreia de grupo.
A Inglaterra que Thomas Tuchel construiu tijolo por tijolo
Quando Thomas Tuchel assumiu a seleção inglesa em janeiro de 2025, herdou um elenco de talentos individuais extraordinários e uma fragilidade coletiva crônica. O que ele fez foi reorganizar prioridades: oito jogos nas Eliminatórias Europeias, oito vitórias, 22 gols marcados, zero sofridos. Nenhuma outra seleção da UEFA produziu uma campanha classificatória tão dominante quanto essa.
A engrenagem funciona a partir de uma linha dupla de contenção. Declan Rice e Elliot Anderson cobrem o espaço entre a defesa e o meio, liberando Jude Bellingham para operar na zona de criação sem obrigações defensivas rígidas. O resultado foi uma equipe que controla partidas sem depender de inspiração individual — o que, historicamente, era o maior vício inglês.
Nos amistosos de preparação, surgiram rachaduras. O empate por 1 a 1 com o Uruguai e a derrota por 1 a 0 para o Japão expuseram dificuldades criativas diante de blocos baixos e organizados. A equipe respondeu com vitória por 1 a 0 sobre a Nova Zelândia e goleada por 3 a 0 diante da Costa Rica, mas a dúvida sobre o que fazer quando o adversário se fecha permanece.
No ataque, Harry Kane chega ao Mundial após a melhor temporada de sua carreira: 61 gols pelo Bayern de Munique na temporada 2025/2026. Bukayo Saka dá profundidade pela direita. A esquerda ainda é indefinida — a disputa entre Marcus Rashford e Anthony Gordon não foi resolvida antes da viagem ao Texas, conforme registrado pelo SportNavo nas semanas que antecederam a convocação.
Dalic e a Croácia que acumula pódios mas ainda persegue o topo
A Croácia de Zlatko Dalic chegou ao Mundial com uma campanha classificatória sólida: sete vitórias, um empate, 26 gols marcados e apenas quatro sofridos. O único tropeço foi o empate sem gols contra a Tchéquia, em Praga — resultado que não esconde a consistência geral, mas revela exatamente o perfil de adversário que pode travar o time croata.
A história recente é o maior capital dessa seleção. Vice-campeã em 2018, na Rússia, quando eliminou Argentina, Inglaterra e a anfitriã antes de cair para a França na final. Terceira colocada em 2022, no Catar, após derrotar o Brasil nas quartas de final nos pênaltis. Duas Copas, dois pódios. Nenhuma outra seleção com um décimo do orçamento inglês tem esse histórico recente.
O meio-campo croata, construído durante anos em torno de Luka Modric, entrou em processo de transição. A nova geração precisa provar que consegue carregar o peso de uma nação de 3,9 milhões de habitantes que, de alguma forma, compete de igual para igual com as grandes potências europeias. A fase recente levanta dúvidas — a Croácia não venceu nenhum dos três últimos amistosos — mas o histórico de Dalic em torneios decisivos pede cautela antes de qualquer desconto.
O que está em jogo para os dois no Grupo L
O Grupo L também reúne Gana e Panamá — adversários respeitáveis, mas que, no papel, colocam Inglaterra e Croácia numa posição de favoritas claras à classificação. Isso transforma o duelo desta quarta em algo próximo de uma semifinal antecipada: quem vencer praticamente reserva uma vaga nas oitavas com conforto; quem perder precisará gerir pressão nos dois jogos seguintes.
As casas de apostas, com odds coletadas até as 16h30 desta segunda-feira, 15 de junho, apontam a Inglaterra como favorita expressiva para a vitória. A lógica é defensiva: uma seleção que não sofreu gols em oito partidas de eliminatórias tem estrutura para controlar o ritmo do jogo. A Croácia, por sua vez, já mostrou em 2018 que sabe lidar com o peso do favoritismo alheio — foi exatamente assim que eliminou a seleção inglesa nas semifinais da Copa da Rússia, com virada de 2 a 1 na prorrogação.
O AT&T Stadium, em Arlington, tem capacidade para mais de 80 mil pessoas e será palco de um jogo que, independentemente do resultado, definirá o tom das próximas semanas para ambas as seleções. A Inglaterra joga sua segunda partida do grupo contra Gana, no dia 21 de junho. A Croácia enfrenta o Panamá na mesma data. Uma derrota aqui não elimina ninguém — mas cria uma pressão que, para times com histórico de colapsos em torneios, pode ser difícil de administrar.
Se Kane marcar — e ele marcou em 14 das últimas 18 partidas pelo Bayern — e a defesa inglesa mantiver a solidez das eliminatórias, a Inglaterra sai de Arlington com a vaga encaminhada. Mas a Croácia já enterrou a Inglaterra uma vez num estádio de Copa. A pergunta que fica é esta: se Modric sair do banco e decidir nos minutos finais, como Tuchel vai explicar para a Inglaterra que a história se repetiu?








