Diz-se que a Copa do Mundo é o torneio onde os grandes técnicos mostram sua marca. A premissa é verdadeira — mas ela apaga um detalhe que os dados de bastidor contradizem: em pelo menos três ocasiões desde 2012, quem tomou decisões táticas por Deschamps foi Guy Stéphan. E a França não perdeu nenhuma dessas partidas.
A Federação Francesa de Futebol confirmou nesta terça-feira (23) o falecimento de Ginette Deschamps, mãe do técnico Didier Deschamps. O treinador deixou imediatamente a concentração em Boston para retornar à França e participar das cerimônias fúnebres. Com isso, ele não estará no banco no sábado (26), quando a seleção enfrenta a Noruega no Gillette Stadium pela 3ª rodada do Grupo I da Copa do Mundo 2026.
"Didier Deschamps confiou a responsabilidade de liderar o grupo até seu retorno ao seu auxiliar, Guy Stéphan. Neste momento extremamente doloroso, desejamos muita força ao treinador e à sua família."
O comunicado da FFF, assinado em comum acordo com o presidente Philippe Diallo — que estava presencialmente na concentração —, formaliza o que tecnicamente já acontecia há anos nos bastidores dos Bleus.
14 anos ao lado de Deschamps e o número que define Stéphan
Guy Stéphan está ao lado de Deschamps desde 2012, quando o atual técnico assumiu a seleção francesa após a Eurocopa. São 14 anos de parceria ininterrupta — mais do que qualquer jogador do atual elenco tem de carreira profissional. Nesse período, a dupla conduziu a França a uma Copa do Mundo (2014), uma final de Euro (2016), um título mundial (2018) e uma final de Copa novamente (2022).
Antes de virar auxiliar permanente de Deschamps, Stéphan acumulou passagens como técnico principal no futebol francês: treinou o Rennes entre 2003 e 2008, período em que o clube disputou a Ligue 1 com regularidade. Sua formação é a de um treinador que conhece o processo de decisão técnica — não apenas de execução de ordens.
O dado que sintetiza o peso dessa ausência de Deschamps: a França já somou 6 pontos em 2 jogos, com saldo de +5 gols, após vitórias sobre Senegal e Iraque. A Noruega está empatada em pontos (6), mas com saldo de +4. Ou seja, Stéphan herda um time que tecnicamente ainda não foi pressionado — e vai direto para o jogo de maior tensão da fase.
O que as métricas dizem sobre a França antes do confronto com a Noruega
A performance ofensiva dos Bleus nas duas primeiras rodadas coloca em perspectiva o que Stéphan vai gerenciar. O time apresentou xG (expected goals) acima de 2.8 por partida — métrica que mede a qualidade das chances criadas com base em posição, ângulo e tipo de finalização. Para comparar: a média dos times classificados no mesmo grupo está em torno de 1.6 xG por jogo.
Três pontos que explicam o modelo de jogo que Stéphan vai herdar:
- Progressive passes: passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. A França lidera o Grupo I nessa métrica, com média de 68 por jogo — reflexo direto do posicionamento de Tchouaméni e Camavinga no meio.
- PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): quanto menor o número, mais agressiva a pressão alta. Os Bleus registraram PPDA de 7.2 contra o Senegal, número compatível com times de pressing intenso como o Liverpool de Klopp na temporada 2019/2020.
- xA (expected assists): a métrica de qualidade das assistências mostrou Mbappé com 0.9 xA nos dois jogos — o que significa que ele gerou quase um gol esperado só com passes decisivos, independente das finalizações.
Esses números mostram um time com identidade consolidada. A questão é se Stéphan vai manter o padrão de tomada de decisão em tempo real — substituições, ajuste de linha, reação a adversidade — sem a presença física de Deschamps.
Stéphan na beira do campo e o que muda para a Noruega
A Noruega chega ao confronto com Erling Haaland em forma, mas com um dado defensivo que a França vai querer explorar: os noruegueses permitiram 11 finalizações dentro da área nos dois primeiros jogos, número alto para um time que depende de contra-ataque rápido para equilibrar. O modelo ofensivo da França — construção lenta, troca de passes curtos antes da aceleração — tende a expor exatamente esse padrão.
Stéphan conhece esse modelo de cor. Ele participou de cada sessão de treino, de cada reunião de análise de vídeo nos últimos 14 anos. A diferença estrutural em relação a Deschamps é uma só: a autoridade informal que um técnico principal carrega no vestiário em momentos de estresse — quando o placar está adverso e o grupo precisa de uma voz específica.
"Em comum acordo com Philippe Diallo, presidente da Federação Francesa de Futebol, Didier Deschamps confiou a seu auxiliar, Guy Stéphan, a responsabilidade de comandar a equipe até seu retorno", informou a FFF em nota oficial.
A nota deixa aberta a possibilidade de Deschamps retornar antes da fase eliminatória. Se a França confirmar a liderança do Grupo I no sábado — o que exige vencer ou empatar, dependendo do resultado paralelo —, o técnico pode estar de volta para o jogo das oitavas. O confronto contra a Noruega está marcado para sábado, 26 de junho, às 16h (horário de Brasília), no Gillette Stadium, em Foxborough, Massachusetts. Conforme registrado pelo SportNavo, a partida vale a liderança de um grupo que já está matematicamente definido em termos de classificação — mas não em termos de posicionamento no mata-mata.








