Confesso: eu errei sobre Marrocos em 2022. Achei que a campanha deles no Catar era exceção, improviso africano glorioso, mas passageiro. Hoje, diante de uma equipe que chega ao Gillette Stadium, em Foxborough, carregando 30 partidas de invencibilidade, entendo que errei feio — e que o futebol marroquino construiu algo muito mais sólido do que eu quis enxergar.
Esta sexta-feira, 19 de junho, o Copa do Mundo de 2026 oferece um confronto que transcende o simples acúmulo de pontos. Escócia e Marrocos se encontram às 19h (de Brasília) em Boston com uma conta aberta desde 23 de junho de 1998, quando os africanos aplicaram 3 a 0 nos escoceses em Saint-Étienne, em uma partida que ficou marcada tanto pela magnitude do placar quanto pela crueldade do contexto — ambas as seleções foram eliminadas naquele dia, mesmo com a vitória marroquina, porque a Noruega derrubou o Brasil já classificado no jogo paralelo.
A ferida de Saint-Étienne e o que ela significa hoje
Naquele grupo de 1998, o Brasil também estava presente — e venceu as duas seleções que voltam a se enfrentar agora. A Seleção Brasileira bateu a Escócia por 2 a 1 na estreia e despachou Marrocos por 3 a 0 na segunda rodada. A ironia histórica é que o Brasil, já garantido na fase seguinte, perdeu para a Noruega por 2 a 1 na última rodada — e essa derrota, combinada com a vitória marroquina sobre a Escócia, não foi suficiente para salvar nenhum dos dois. A Escócia terminou com apenas um ponto; Marrocos, com três, mas fora por diferença de saldo.
Quase três décadas depois, a geometria do destino volta a juntar as mesmas peças no mesmo tabuleiro. O Brasil empatou em 1 a 1 com Marrocos na estreia desta Copa e agora enfrenta o Haiti às 21h30 desta mesma sexta, na Filadélfia. O que acontecer em Boston antes vai pesar diretamente sobre o humor — e sobre a matemática — da chave.
O que cada resultado faz com o Brasil no Grupo C
A Escócia estreou com vitória e chega a Boston podendo confirmar a classificação antecipada com mais três pontos. Marrocos, por sua vez, tem um ponto e a tal sequência de 30 jogos sem derrota, iniciada após uma eliminação por Mali na Copa das Nações Africanas de agosto de 2025. Um empate entre as duas mantém o grupo em equilíbrio máximo e transfere toda a pressão para a última rodada. Uma vitória escocesa praticamente garante os europeus e deixa Brasil e Marrocos disputando a segunda vaga. Uma vitória marroquina, ao contrário, complica a Escócia e pode até colocar o Brasil na liderança do grupo dependendo do resultado contra o Haiti.
Para o torcedor brasileiro, o cenário mais confortável é uma derrota escocesa — porque elimina um concorrente direto de fato e abre espaço para o Brasil chegar à última rodada com a classificação nas próprias mãos. O mais incômodo seria uma vitória da Escócia por placar elástico, que forçaria o Brasil a correr atrás de saldo de gols.
"Marrocos atingiu a marca de 30 partidas de invencibilidade após o empate diante do Brasil", registrou a cobertura do UOL Esporte, destacando que o último revés africano havia sido exatamente contra Mali, em agosto de 2025.
A Escócia diante de um adversário que não conhece bem
Há um dado que ilumina bem a fragilidade escocesa neste confronto específico. Nos últimos 12 anos, a Escócia jogou apenas duas vezes contra seleções africanas: empatou com a Nigéria em 2014 e perdeu para a Costa do Marfim por 1 a 0 em março deste ano, em amistoso preparatório para esta Copa. Dois jogos. Retrospecto de zero vitórias. Marrocos, por sua vez, chegou às semifinais do Mundial de 2022 e acumula experiência contra adversários europeus de alto nível — enfrentou Espanha, Portugal e França naquela campanha histórica.
O técnico escocês terá de resolver um problema tático real: como pressionar uma equipe que lê o jogo com blocos compactos e transições rápidas, sem expor a linha defensiva a contra-ataques que os marroquinos executam com precisão cirúrgica. A Escócia tem qualidade individual, mas o histórico recente contra o futebol africano não oferece referências confiáveis para montar um plano de jogo testado.
"A equipe africana ostenta uma regularidade invejável no cenário internacional", como observou a cobertura especializada sobre o desempenho de Marrocos nesta Copa — descrição que, em matéria do SportNavo, já antecipávamos como tendência desde o pós-2022.
A partida começa às 19h de Brasília, no Gillette Stadium, em Foxborough, Massachusetts, e pode ser acompanhada pela CazéTV no YouTube. Duas horas e meia depois, o Brasil entra em campo na Filadélfia contra o Haiti — e o placar que vier de Boston vai ditar o tom emocional e estratégico da Seleção de Carlo Ancelotti antes mesmo do apito inicial. Confesso: eu errei sobre Marrocos em 2026. Desta vez, não pretendo subestimar o que eles podem fazer com a Escócia — e com o grupo inteiro.








