A câmera estava ligada, o microfone aberto, e Zlatan Ibrahimovic simplesmente não sabia o nome do lateral-esquerdo titular de uma das seleções em campo. O momento, relatado por editores do The Athletic durante a cobertura da Copa do Mundo de 2026, sintetiza o problema que a Fox Sports criou ao escalar o ex-atacante sueco como comentarista do torneio: um currículo de 62 gols em 116 jogos pela Suécia não garante, por si só, a capacidade de analisar ao vivo uma competição com 48 seleções e mais de 200 jogadores em rotatividade constante.
A Fox apostou no nome e esqueceu da função
Quando a Fox Sports anunciou Ibrahimovic como parte de seu time de transmissão para a Copa do Mundo, a lógica comercial era evidente: o sueco é uma das figuras mais carismáticas do futebol mundial, com passagens por Ajax, Juventus, Inter de Milão, Barcelona, AC Milan, PSG, Manchester United, LA Galaxy e Bolonha. Seu nome gera audiência. O problema, como o New York Times foi direto ao apontar, é que a cobertura da emissora "seria melhor" sem ele.
"Tom Brady levou uma temporada inteira para se tornar um comentarista esportivo de primeira linha na NFL. O problema é que Ibrahimovic parece não saber detalhes específicos sobre muitas das seleções e de seus jogadores", publicou o The Athletic em editorial durante o torneio.
A comparação com Tom Brady é precisa e cruel ao mesmo tempo. O quarterback aposentado estreou como comentarista na Fox NFL em setembro de 2023, cometeu erros, foi criticado, mas evoluiu de forma mensurável ao longo de 18 semanas de temporada regular. Ibrahimovic, ao contrário, chegou à Copa sem nenhum histórico relevante na função — ele é consultor sênior do Milan desde 2023, cargo essencialmente voltado a relações institucionais e recrutamento, não a análise técnica pública.
O episódio com Speed e o que ele revela sobre o papel de Zlatan
O momento que mais viralizou de Ibrahimovic na Copa não foi uma análise tática brilhante nem uma anedota reveladora de bastidores. Foi quando ele expulsou do estúdio ao vivo o influenciador americano Darren Jason Watkins, o IShowSpeed, após o criador de conteúdo afirmar que Portugal conquistaria o título mundial. A cena foi divertida, gerou milhões de visualizações — e resumiu exatamente o problema: Ibrahimovic funciona como entretenimento, não como jornalismo esportivo.
Quem tem cão caça com cão — quem não tem, caça com gato. A Fox claramente não tinha um analista com o apelo de Ibrahimovic e apostou no gato. O resultado é uma cobertura que entretém nas redes sociais mas deixa a desejar nos momentos em que o telespectador quer entender por que a Espanha usou uma linha de três zagueiros ou como o Brasil organizou a pressão alta no segundo tempo.
O padrão histórico dos ex-craques na cabine
A história do futebol televisivo é farta em exemplos de grandes jogadores que não encontraram na cabine o mesmo brilho que tiveram em campo. Gary Lineker, artilheiro inglês da Copa de 1986 com seis gols, precisou de anos à frente do Match of the Day para consolidar sua autoridade como apresentador — e ainda assim é mais apresentador do que analista técnico. Thierry Henry, 51 gols pela França e campeão mundial em 1998, também levou tempo para se firmar na CBS Sports nos Estados Unidos, onde hoje é reconhecido por análises táticas detalhadas.
O que diferencia Henry de Ibrahimovic neste contexto não é a qualidade da carreira — ambos estão entre os maiores atacantes da história recente —, mas a preparação para a função. Henry chegou à CBS com estudo sistemático de dados, vídeos e estatísticas das ligas que cobria. Ibrahimovic chegou à Fox com sua personalidade. Segundo o The Athletic, ele poderia ser melhor aproveitado no estúdio analisando aspectos técnicos e táticos, onde sua inteligência de jogo poderia ser demonstrada com tempo e recursos visuais, em vez de ser cobrado por informações factuais em tempo real.

"Além da força física exibida em campo, sua inteligência e capacidade de leitura do jogo também foram fundamentais para a carreira vitoriosa", reconheceu o portal, sugerindo que o formato atual desperdiça exatamente os atributos que tornariam Ibrahimovic um comentarista relevante.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da Copa, a tendência das grandes emissoras de escalar ex-atletas sem treinamento específico para a função tem gerado críticas recorrentes — não apenas no caso de Ibrahimovic. A diferença é que, com Zlatan, o abismo entre a expectativa criada pelo nome e a entrega real é particularmente visível.
A Copa do Mundo tem mais 11 dias de competição até a final, prevista para 19 de julho. Se a Fox optar por reposicionar Ibrahimovic para o estúdio analítico nas oitavas de final — como o The Athletic sugeriu —, ainda haverá tempo para o sueco mostrar que sua leitura de jogo, forjada em 22 temporadas de alto nível entre 2001 e 2023, pode ser traduzida em conteúdo de qualidade. É o mesmo cenário que Thierry Henry viveu em 2019 na CBS, quando foi tirado das transmissões ao vivo para atuar em estúdio — só que agora a aposta é diferente, porque o torneio já está em andamento e as câmeras não perdoam.








