O processo classificatório para a Copa do Mundo de 2026 está sendo marcado por situações inéditas que demonstram como fatores extracampo podem influenciar o maior torneio do futebol mundial. A confirmação do Irã após tensões geopolíticas, o retorno da Turquia depois de 24 anos de ausência e a classificação da Suécia sem vencer uma partida nas eliminatórias representam um cenário sem precedentes na história dos Mundiais.

Irã supera tensões políticas e confirma presença no Mundial

A participação iraniana na Copa de 2026 enfrentou semanas de incerteza devido a questões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, país-sede do torneio. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, precisou intervir pessoalmente para confirmar a presença da seleção asiática, que disputará suas partidas em território americano conforme o planejamento original.

Historicamente, o Irã possui um histórico respeitável em Copas do Mundo, tendo participado de seis edições desde 1978. Sua melhor campanha ocorreu em 2018, na Rússia, quando avançou da primeira fase pela primeira vez, sendo eliminado pela Espanha nas oitavas de final por 1 a 0. Nas eliminatórias asiáticas para 2026, a seleção de Team Melli manteve aproveitamento de 75% em 18 jogos, com 13 vitórias, 1 empate e 4 derrotas, marcando 42 gols e sofrendo apenas 8.

A recente vitória por 5 a 0 sobre a Costa Rica em amistoso preparatório demonstrou a força ofensiva da equipe comandada por Amir Ghalenoei. O atacante Mehdi Taremi, artilheiro da seleção com 49 gols em 81 jogos, segue como principal referência técnica do time que busca superar a histórica barreira das oitavas de final.

Turquia encerra jejum de duas décadas eliminando Kosovo

O retorno turco aos Mundiais após 24 anos de ausência representa um dos fatos mais significativos das classificações para 2026. A última participação da Turquia ocorreu na Copa de 2002, no Japão e Coreia do Sul, quando conquistou o terceiro lugar na competição - sua melhor colocação histórica em Mundiais.

Nas eliminatórias europeias, a Turquia terminou em segundo lugar no Grupo H, atrás apenas da Croácia, com aproveitamento de 58,3%: 7 vitórias, 1 empate e 4 derrotas em 12 jogos. O atacante Kenan Yildiz, de apenas 19 anos, emergiu como principal promessa da equipe, anotando 6 gols nas eliminatórias e estabelecendo-se como sucessor de veteranos como Burak Yilmaz.

Na repescagem decisiva contra Kosovo, o gol de Kerem Aktürkoglu aos 32 minutos do primeiro tempo garantiu a classificação turca e encerrou o sonho inédito da jovem seleção kosovar, que buscava sua primeira participação em Copas do Mundo. O técnico Vincenzo Montella conseguiu implementar um sistema tático que equilibrou experiência e juventude, utilizando jogadores como Hakan Çalhanoğlu, do Inter de Milão, como elemento de ligação entre defesa e ataque.

Suécia se classifica sem vitórias: anomalia regulamentar histórica

O caso sueco representa uma situação sem precedentes na história das eliminatórias para Copas do Mundo. A seleção nórdica garantiu vaga no Mundial de 2026 sem conquistar uma única vitória durante as eliminatórias europeias, beneficiando-se de mudanças regulamentares implementadas pela UEFA para esta edição.

Nas eliminatórias do Grupo C, a Suécia obteve aproveitamento de apenas 33,3%, com 4 empates e 8 derrotas em 12 jogos, marcando 12 gols e sofrendo 20. Esse desempenho contrasta drasticamente com campanhas históricas da seleção, que participou de 12 Copas do Mundo entre 1934 e 2018, incluindo o vice-campeonato de 1958 em casa e o terceiro lugar em 1994, nos Estados Unidos.

O novo regulamento da UEFA, que ampliou o número de vagas através de repescagens e coeficientes de ranking, permitiu que a Suécia se classificasse apesar do desempenho deficiente. Viktor Gyökeres, artilheiro do Sporting e principal esperança ofensiva sueca, marcou apenas 3 gols nas eliminatórias, número inferior à sua média de 1,2 gol por jogo nos clubes durante a temporada 2024-25.

Impacto das mudanças regulamentares no cenário mundial

A Copa de 2026 será a primeira com 48 seleções, representando aumento de 50% em relação ao formato anterior de 32 equipes. Essa expansão, combinada com novos critérios classificatórios, está permitindo situações atípicas como a da Suécia e facilitando a presença de seleções que historicamente enfrentavam dificuldades para se classificar.

Comparando com edições anteriores, nunca houve casos similares ao sueco. Na Copa de 2022, todas as 32 seleções classificadas obtiveram pelo menos duas vitórias em suas respectivas eliminatórias. A seleção com menor aproveitamento foi a Austrália, com 50% de aproveitamento nas eliminatórias asiáticas, ainda assim muito superior aos 33,3% suecos.

As tensões geopolíticas também ganham nova dimensão com a expansão do torneio. Além do caso iraniano, outras situações diplomáticas complexas poderão surgir, considerando que seleções de regiões com conflitos históricos terão maior probabilidade de classificação devido ao aumento no número de vagas disponíveis.

O retorno de seleções tradicionais como a Turquia, ausente desde 2002, representa o lado positivo da expansão, permitindo que países com forte tradição futebolística voltem ao cenário mundial após décadas de ausência. Historicamente, apenas três seleções europeias ficaram mais tempo sem participar de Copas: Noruega (24 anos entre 1998 e 2022), Islândia (que estreou apenas em 2018) e algumas nações do leste europeu criadas após 1990.

A Copa de 2026 promete ser um divisor de águas na história dos Mundiais, não apenas pelo aumento no número de participantes, mas pelas circunstâncias únicas que estão moldando o processo classificatório, demonstrando como fatores externos ao campo podem influenciar decisivamente o maior espetáculo do futebol mundial.