Doze anos depois, os Elefantes voltam a rugir em uma Copa do Mundo. A Costa do Marfim garantiu sua vaga para o Mundial de 2026 e encerra um jejum que começou após a decepcionante campanha de 2014 no Brasil, quando a seleção africana foi eliminada ainda na fase de grupos com apenas um ponto conquistado em três jogos.

A volta dos marfinenses ao cenário mundial marca o fim de uma das ausências mais notáveis do futebol africano. Entre 2014 e 2026, a Costa do Marfim perdeu duas Copas do Mundo consecutivas - Rússia 2018 e Catar 2022 - justamente no período de transição entre a geração dourada liderada por Didier Drogba e Yaya Touré e os novos talentos que emergem do futebol europeu.

O legado da geração de ouro

Em 2014, a Costa do Marfim chegava ao Brasil com uma das formações mais respeitadas da África. Didier Drogba, aos 36 anos, acumulava 104 jogos pela seleção e comandava um ataque que havia conquistado a Copa Africana de Nações em 2015. Ao seu lado, Yaya Touré vivia o auge de sua carreira no Manchester City, tendo sido eleito o melhor jogador africano do ano em 2011, 2012, 2013 e 2014.

O elenco daquela Copa contava ainda com Gervinho, que defendia a Roma, e Salomon Kalou, peça importante no Chelsea de José Mourinho. A experiência européia era o diferencial: dos 23 convocados, 20 atuavam em ligas do Velho Continente, principalmente na Premier League e na Ligue 1.

"Tínhamos uma geração especial, jogadores que marcaram época nos grandes clubes europeus. A expectativa era enorme", relembrou o ex-técnico Sabri Lamouchi em entrevista recente.

Mas a campanha de 2014 frustrou. A Costa do Marfim empatou com o Japão por 2 a 1, perdeu para a Colômbia por 2 a 1 e foi derrotada pela Grécia por 2 a 1, somando apenas um ponto e terminando na lanterna do Grupo C. Foi o fim melancólico de uma era que prometia muito mais.

A nova geração marfinense

O elenco que se prepara para 2026 apresenta características completamente diferentes. Sébastien Haller, de 30 anos, assumiu a responsabilidade de ser o principal nome ofensivo após uma carreira consolidada no Ajax e no Borussia Dortmund. Com 21 gols em 31 jogos pela seleção, o atacante representa a ponte entre as duas gerações.

Franck Kessié, meio-campista do Barcelona, tornou-se o novo líder técnico da equipe aos 28 anos. Sua experiência na Serie A, onde defendeu Milan e Atalanta, e agora no futebol espanhol, oferece a maturidade que o time precisa. Ao lado dele, Wilfried Singo, lateral-direito do Monaco, e Ibrahim Sangaré, volante do PSV, completam a espinha dorsal da nova Costa do Marfim.

A grande diferença está na filosofia tática. Enquanto a geração de 2014 dependia heavily do individualismo de suas estrelas, principalmente Drogba e Yaya Touré, o atual técnico Emerse Faé prioriza um futebol mais coletivo e dinâmico. Conforme apuração do SportNavo, a seleção adotou um 4-3-3 que privilegia a posse de bola e a pressão alta, contrastando com o 4-2-3-1 defensivo utilizado em 2014.

O contexto africano mudou

A ausência da Costa do Marfim nas duas últimas Copas coincidiu com o crescimento de outras potências africanas. Senegal conquistou sua primeira Copa Africana de Nações em 2021 e chegou às oitavas de final no Catar 2022. Marrocos fez história ao alcançar as semifinais na mesma competição, tornando-se a primeira seleção africana a chegar tão longe em uma Copa do Mundo.

Essa nova realidade continental pressiona os Elefantes. Se em 2014 eles eram considerados favoritos naturais da África, agora precisam provar que merecem esse status novamente. A classificação para 2026 veio após uma campanha sólida nas eliminatórias, onde a Costa do Marfim terminou em segundo lugar no Grupo F, com 14 pontos em oito jogos.

"Sabemos que não somos mais os únicos favoritos da África. Isso nos motiva ainda mais a mostrar nosso valor", declarou Sébastien Haller após a classificação confirmada.

A preparação para o Mundial americano também reflete essa mudança de mentalidade. Enquanto em 2014 a seleção realizou amistosos principalmente contra equipes européias de médio porte, o planejamento atual inclui confrontos contra seleções sul-americanas e outras potências africanas, buscando maior variedade tática e ritmo competitivo.

Expectativas e realidade para 2026

As expectativas para a Copa de 2026 são mais comedidas, mas nem por isso menos ambiciosas. A nova geração marfinense não carrega o peso de ser considerada a principal candidata africana ao título, o que pode ser uma vantagem psicológica. A experiência de 2014 serve como lição sobre os perigos do excesso de confiança.

O sorteio dos grupos, marcado para dezembro de 2025, definirá o grau de dificuldade inicial dos Elefantes. Com o formato expandido de 48 seleções, a Costa do Marfim terá mais chances de avançar à segunda fase, algo que não conseguiu em suas três participações anteriores (2006, 2010 e 2014).

Segundo análise do SportNavo, o principal desafio será encontrar o equilíbrio entre juventude e experiência. Jogadores como Ousmane Diomandé, zagueiro de apenas 21 anos que se destacou no Sporting, representam o futuro, mas ainda precisam de tempo para amadurecer no cenário internacional.

A Costa do Marfim iniciará sua preparação intensiva para o Mundial em março de 2026, com uma série de amistosos programados contra Argentina e Brasil, confrontos que servirão como termômetro real do nível da nova geração marfinense comparado aos gigantes mundiais.