É um relógio com pavio curto.

A imagem serve para o que o Brasil carrega desde 2006: uma máquina tecnicamente competente, capaz de chegar longe em Copas do Mundo, mas que explode no momento exato em que encontra uma seleção europeia no mata-mata. Cinco eliminações consecutivas — França em 2006, Holanda em 2010, Alemanha em 2014, Bélgica em 2018 e Croácia em 2022 — formam uma série estatística que nenhum departamento de análise de desempenho consegue ignorar. O Brasil não derruba um europeu em fase eliminatória de Copa do Mundo há exatos 24 anos, desde a virada sobre a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final do Japão/Coreia do Sul, em 2002.

Matheus Cunha (Manchester United)
Matheus Cunha (Manchester United)

O que Cunha disse no vestiário antes de Nova Jersey

Matheus Cunha foi direto ao ponto na coletiva realizada em Nova Jersey, na véspera do confronto contra a Noruega pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O atacante, que assumiu a camisa 9 da Seleção Brasileira nesta edição do torneio, não fugiu do tema histórico.

"A gente não conversa sobre isso e sobre Copas passadas. Na verdade, temos conversas sobre o momento exato da eliminação porque muitos companheiros passaram por isso. Mas é muito mais sobre não querer reviver aquele dia do que propriamente sobre o adversário ou sobre a escola da qual ele vem, no caso a europeia. Mas é algo que a gente tem que fazer para matar ou sumir com esse fantasma. Para ganhar Copa do Mundo, tem que passar por esses percalços. Espero que a gente possa contar outra história agora", disse Cunha.

A fala revela algo que os dados já indicavam: o peso psicológico dessa sequência existe dentro do grupo, mesmo que o discurso público tente minimizá-lo. Cunha é um dos poucos jogadores do atual elenco que não viveu nenhuma dessas derrotas como titular — o que, paradoxalmente, pode ser uma vantagem. Ele chega à oitava de final com três gols marcados na Copa do Mundo de 2026, a maior pontuação individual do Brasil no torneio até aqui.

Cinco eliminações, cinco padrões que se repetem

Analisar as cinco derrotas para europeus no mata-mata revela padrões que vão além do simples azar. Em 2006, a França de Zidane venceu por 1 a 0 no quartas de final, explorando a falta de criatividade brasileira no segundo tempo. Em 2010, a Holanda aplicou 2 a 1 nas quartas, com o Brasil sofrendo dois gols em bolas paradas — uma vulnerabilidade defensiva que voltaria a aparecer. Em 2014, a Alemanha impôs o 7 a 1 histórico, aproveitando a ausência de Neymar e Thiago Silva para explorar espaços que a Seleção deixava em transição. Em 2018, a Bélgica eliminou o Brasil por 2 a 1 nas quartas, com dois gols de bola parada nos primeiros 31 minutos. Em 2022, a Croácia empatou no último minuto da prorrogação e venceu nos pênaltis, depois de o Brasil ter desperdiçado chances claras com a vantagem no placar.

Furou.

O padrão comum a quatro das cinco eliminações é a incapacidade de gerir vantagem ou de manter organização defensiva em momentos de pressão europeia. A exceção parcial foi 2014, onde o colapso foi anterior — mas o resultado final reforça o mesmo diagnóstico: fragilidade estrutural quando o adversário eleva a intensidade física e a pressão tática no segundo tempo.

"Vários jogadores foram vitoriosos com ela [a camisa 9], com muitas conquistas. Espero continuar dessa forma", disse Cunha sobre a responsabilidade de carregar o número no torneio.

O atacante do Atlético de Madrid não tem atuado como centroavante fixo no esquema de 2026 — sua movimentação é híbrida, com liberdade para recuar e construir jogadas. Esse perfil, aliás, é exatamente o que o treinador tem utilizado para criar desequilíbrio posicional, algo que as eliminações anteriores mostravam ausente no momento decisivo.

O que o Brasil precisa executar diferente contra a Noruega

A Noruega chegou às oitavas de final com uma das defesas mais organizadas do torneio, sustentada em bloco médio-baixo e saídas rápidas pelo lado direito, onde Odegaard tem atuado como referência de construção. O time escandinavo concedeu apenas dois gols na fase de grupos e tem média de 68% de duelos aéreos vencidos — dado relevante para uma Seleção Brasileira que ainda busca consistência nas bolas paradas defensivas, conforme registrado por SportNavo ao longo da fase de grupos.

Para quebrar o ciclo, o Brasil precisará de algo que faltou nas últimas cinco eliminações: controle emocional nos 30 minutos finais. Nas derrotas para Holanda, Bélgica e Croácia, os gols sofridos que mudaram o rumo dos jogos vieram entre os minutos 60 e 90 — ou na prorrogação. A gestão de jogo nessa janela específica é o indicador mais crítico para domingo.

Cunha, com três gols em quatro jogos na Copa do Mundo de 2026, é o jogador com mais finalizações no gol do elenco brasileiro no torneio. A partida contra a Noruega está marcada para domingo, às 17h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Uma vitória não apaga os 24 anos de sequência negativa — mas reescreve o próximo capítulo dessa história.

É um relógio com pavio apagado.