Julho de 2021. É dessa data que parte toda a análise sobre o retorno de Conor McGregor ao octógono. Naquele duelo contra Dustin Poirier no UFC 264, uma fratura na tíbia encerrou a noite no primeiro round e congelou a carreira do irlandês por quase cinco anos. Agora, com o UFC 329 marcado, Dillon Danis — ex-parceiro de treino e faixa-preta de jiu-jítsu — apareceu em suas redes para garantir: McGregor nocauteia Max Holloway e ainda enfrenta Islam Makhachev na sequência.

"As pessoas estão subestimando o Conor. Ele vai nocautear o Holloway e depois vai atrás do Makhachev."

Respeito a lealdade de Danis ao amigo. Mas lealdade não é análise. E os números desta luta contam uma história diferente.

Diego Lopes on him being back up for main event 😳 #ufcwhitehouse

O que cinco anos de inatividade fazem com um nocauteador

McGregor não compete desde aquela noite em Las Vegas. Cinco anos sem absorver pressão real de octógono, sem calibrar timing sob adrenalina de combate, sem sentir o gás murchar no terceiro round. Treino não replica isso — nunca replicou para ninguém.

O histórico do próprio McGregor reforça a preocupação. Após a derrota para Nate Diaz no UFC 196, em março de 2016, ele voltou cinco meses depois e venceu a revanche por decisão majoritária — mas seu volume de golpes caiu 18% em relação à média anterior. Após a derrota para Khabib Nurmagomedov, em outubro de 2018, perdeu duas das três lutas seguintes. Cada interrupção longa custou algo na precisão e no timing.

A fratura de 2021 não foi só uma pausa. Foi uma reconstrução física completa. Osso, músculo, propriocepção da perna de apoio — tudo teve de ser reaprendido. McGregor hoje tem 37 anos. Holloway tem 33 e está em plena curva ascendente.

Holloway chegou ao peso leve como uma versão aprimorada de si mesmo

O havaiano não é mais o peso-pena que McGregor derrotou em 2013 — uma luta de 40 segundos quando ambos eram praticamente desconhecidos. Holloway acumulou 26 vitórias no UFC, foi campeão dos penas por quase três anos, defendeu o cinturão sete vezes e ainda nocauteou Justin Gaethje no BMF Championship em abril de 2024, um dos KOs mais brutais do ano.

Os números de striking de Holloway são absurdos para qualquer análise séria: média de 7,33 golpes significativos por minuto, absorção de apenas 3,61 — uma das melhores relações ataque/defesa do UFC. Sua striking defense é de 57%, número que coloca ele entre os dez melhores do roster no critério de evasão.

O reach de Holloway é de 175 cm, contra 188 cm de McGregor. O irlandês tem vantagem de 13 cm no alcance — e historicamente usa isso bem. Mas Holloway é um dos poucos lutadores do UFC que consegue neutralizar vantagem de reach com footwork e ângulos. Dustin Poirier tinha 183 cm de reach e não conseguiu manter distância por dois rounds completos.

Conforme registrado pelo SportNavo em cobertura anterior do UFC 325, Holloway chegou ao peso-leve com condicionamento físico superior ao que apresentava nas últimas defesas de cinturão nos penas — o que derruba o argumento de que o corte de peso o deixava mais fraco.

McGregor pode nocautear Holloway — mas a janela é estreita

Aqui está o que Danis acerta, mesmo que por razões erradas: McGregor ainda tem a mão esquerda. A potência de nocaute não desaparece com inatividade da mesma forma que o cardio e o timing. Se o irlandês conseguir manter a luta em distância média nos primeiros dois rounds, encontrar o contra-ataque certo e não absorver o volume que Holloway impõe, existe uma janela real de nocaute.

O problema é que essa janela exige que Holloway cometa erros que ele raramente comete. O havaiano tem apenas 3 nocautes sofridos em toda a carreira — e dois deles vieram de Dustin Poirier, um dos melhores boxeadores do UFC. McGregor tem potência, mas Holloway tem queixo.

A wrestling defense de Holloway é de 72% — não será pelo wrestling que McGregor vai abrir espaço. O caminho do irlandês passa pelo boxe puro, com timing perfeito e sem se deixar arrastar para o terceiro round. Se a luta chegar ao quinto minuto do round 3, Holloway vence por decisão ou por TKO acumulado.

  • Striking accuracy de McGregor (carreira): 49%
  • Striking accuracy de Holloway (carreira): 46%
  • Golpes significativos por minuto — McGregor: 5,40
  • Golpes significativos por minuto — Holloway: 7,33
  • Striking defense — McGregor: 54%
  • Striking defense — Holloway: 57%

Nos números brutos, Holloway é superior em volume e defensivamente mais sólido. McGregor compensa com potência por golpe — mas potência sem timing é só força bruta, e força bruta não nocauteia Holloway com frequência.

Quanto ao plano de Danis de ver McGregor enfrentar Islam Makhachev depois — o campeão dos leves que defendeu o cinturão quatro vezes consecutivas e tem wrestling defense de 83% — isso só faz sentido se o irlandês vencer de forma convincente no UFC 329. Makhachev não aceita adversários simbólicos, e o UFC não vai forçar uma luta sem mérito esportivo.

McGregor vs. Holloway acontece. O nocaute do irlandês é possível, mas improvável. A aposta de Danis tem mais coração do que dado. O UFC 329 vai mostrar qual dos dois estava certo — e os primeiros dois rounds vão responder a pergunta antes do juiz precisar.