O gesto existiu — e a punição não veio. Esse é o paradoxo que o clássico entre Corinthians e São Paulo, disputado no domingo (10) pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2026, deixou sem resposta na Neo Química Arena. Bobadilla fez um gesto próximo às partes íntimas ao comemorar a assistência para o gol de Luciano, no fim do primeiro tempo. O VAR identificou a cena, chamou o árbitro Anderson Daronco para a revisão — e Daronco optou por não aplicar o cartão vermelho.
O que o árbitro reproduziu em campo e o que a regra determina
Diante da torcida presente na Neo Química Arena, Daronco reproduziu o movimento de Bobadilla para justificar sua decisão. O argumento implícito foi o de que o volante paraguaio não teria encostado nas partes íntimas — um critério que, segundo especialistas, não consta no texto da regra. A Lei do Jogo é objetiva: um jogador deve ser expulso se usar linguagem ou realizar ação ofensiva, insultante ou abusiva. Não há exigência de contato físico com o próprio corpo para que a punição seja aplicada.
Renata Ruel, ex-árbitra e analista de arbitragem da ESPN, foi direta ao avaliar o episódio:
"Daronco deixou de cumprir a regra ao não expulsar o Bobadilla. A regra diz que é para expulsar se o jogador usar linguagem ou realizar ação ofensiva, insultante ou abusiva. Não vejo interpretação: a ação é abusiva, é gesto obsceno, não importa se encosta ou não nas partes íntimas. Era para vermelho, o VAR acertou em chamar e o Daronco errou em não aplicar o vermelho."
A análise de Ruel não deixa margem para subjetividade: o critério de contato físico utilizado por Daronco simplesmente não existe na norma escrita. A decisão foi discricionária — e, para a especialista, equivocada.
Quando gestos semelhantes já resultaram em expulsão no Brasil
No futebol brasileiro, o tema não é novo. Em 1995, Edmundo fez um gesto envolvendo a região íntima em direção à torcida rival durante um clássico entre Vasco e Flamengo — episódio que ficou registrado como um dos primeiros casos de repercussão nacional envolvendo esse tipo de comemoração. O uruguaio Loco Abreu repetiu o movimento em diversas partidas ao longo da carreira, tratando-o como algo culturalmente aceito no futebol sul-americano.
Num recorte mais recente e diretamente comparável, Allan, então jogador do Corinthians, foi expulso após realizar gesto na região íntima durante uma partida. A diferença apontada à época foi o contato físico com o próprio corpo — critério que Daronco também utilizou para diferenciar o caso de Bobadilla. No entanto, como aponta a avaliação do SportNavo sobre a Lei do Jogo, essa distinção não tem amparo regulamentar explícito.
O ditado popular diz que quem não tem cão caça com gato — e no futebol brasileiro, na ausência de um protocolo claro sobre o que configura gesto obsceno, cada árbitro acaba caçando com o critério que tem à mão. O resultado é a inconsistência que o caso Bobadilla escancarou.
A linha tênue entre interpretação e omissão arbitral
Quando um árbitro consulta o VAR e mantém sua decisão original, ele precisa de fundamentação técnica sólida. Quando um árbitro consulta o VAR e altera sua decisão, também precisa. No caso de Daronco, o problema não foi a consulta — que foi correta — mas a justificativa usada para manter Bobadilla em campo, baseada em um critério que a regra não prevê.
Quando a norma fala em "ação ofensiva, insultante ou abusiva", ela não exige que o jogador toque o próprio corpo. Exige que a ação seja classificável dentro dessas três categorias. Um gesto que simula ato sexual ou expõe a região genital — com ou sem contato — se enquadra nessa definição segundo a interpretação majoritária entre profissionais de arbitragem.
A existência de casos anteriores com desfechos distintos — Allan expulso, Bobadilla não — cria um precedente de dupla régua que prejudica a credibilidade do sistema. A regra não mudou entre os dois episódios. O que mudou foi a interpretação do árbitro em campo.
O placar final e o que fica além da polêmica
O Corinthians venceu o clássico por 3 a 2. Raniele abriu o placar de cabeça após escanteio no primeiro tempo. Luciano empatou para o São Paulo, com assistência de Bobadilla, após o volante roubar a bola de Raniele dentro da área. Na segunda etapa, Matheuzinho e Breno Bidon marcaram para o Timão em sequência rápida. O São Paulo descontou com gol contra do próprio Matheuzinho, mas não conseguiu o empate. O resultado mantém o Corinthians na briga no Brasileirão sob o comando de Fernando Diniz.
A polêmica com Bobadilla, contudo, deve chegar à CBF e potencialmente ao STJD nos próximos dias. A entidade pode abrir processo disciplinar contra o jogador mesmo sem a expulsão em campo — o que já ocorreu em situações anteriores com base em relatório de árbitro ou análise de imagem. O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão na próxima rodada, quando o tema da arbitragem provavelmente ainda estará em pauta.









