Se o Brasil tivesse aproveitado cada técnico campeão nas categorias de base desde 2011, a história da Seleção hoje seria outra. Ney Franco levou o título mundial sub-20 naquele ano. Rogério Micale ganhou o ouro olímpico em 2016. André Jardine repetiu o feito. Nenhum dos três seguiu na estrutura da CBF como parte de um projeto de longo prazo. Todos sumiram. E a Espanha, enquanto isso, construiu silenciosamente a maior máquina geracional do futebol mundial.
O homem que nunca pisou na La Liga e levou a Espanha ao topo
O calor de Los Angeles ainda pairava sobre o SoFi Stadium quando Luis de la Fuente ergueu a taça da Copa do Mundo 2026. Um técnico que jamais havia dirigido um único jogo na La Liga. Que começou a carreira em clubes de menor expressão da Espanha. Que entrou na federação espanhola em 2013 como treinador das categorias de base — e ficou. Por dez anos. Construindo, tijolo a tijolo, a geração que acabou de conquistar o mundo.
De la Fuente treinou as seleções sub-17, sub-19, sub-21 e a olímpica da Espanha antes de assumir o comando da equipe principal em 2023. Nesse trajeto, conquistou a Eurocopa sub-19 e a Eurocopa sub-21. Ganhou a prata nos Jogos de Tóquio — perdendo, ironicamente, para o Brasil de André Jardine, o mesmo técnico que a CBF depois ignorou. Quando chegou à seleção principal, conhecia pessoalmente mais de dez jogadores que se tornariam campeões do mundo: Unai Simón, Pedro Porro, Marc Cucurrella, Rodri, Fabián Ruiz, Pedri, Dani Olmo, Mikel Merino e Mikel Oyarzábal passaram por suas mãos antes de chegar à elite.
"Não quis parecer pretencioso, só constatei uma realidade. Vai ter gente que pode conhecer como eu, mas meu trabalho tinha que estar perfeitamente informado de quais são os melhores jogadores das últimas dez gerações", disse de la Fuente, ao explicar a declaração polêmica que fez em sua apresentação como técnico da seleção principal, em 2023, quando afirmou categoricamente ser o homem certo para o cargo.
Não era arrogância. Era uma descrição precisa de um currículo que ninguém mais no mundo do futebol tinha acumulado daquela forma.
O fosso entre os dois modelos cabe entre Manaus e Recife
A distância entre o modelo espanhol e o brasileiro de formação de técnicos para a seleção é algo como a rota entre Manaus e Recife — mais de 4 mil quilômetros que ninguém consegue percorrer de carro. Dois países no mesmo mapa, separados por uma lógica completamente diferente de construção.
A Espanha definiu em 2013 um projeto com objetivo claro: manter a identidade de jogo a partir das categorias de base, preparar jogadores para funções táticas específicas e garantir continuidade de comando. De la Fuente foi o fio condutor desse processo por 13 anos. No Brasil, o mesmo período foi marcado por trocas constantes de técnico na seleção principal — Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari, Dunga, Tite, Tite de novo, Ramón Menezes interino, Fernando Diniz, Dorival Júnior — e por uma rotatividade igualmente alta nas categorias de base que nunca alimentou um projeto coeso.
O resultado está no calendário. A Seleção Brasileira não chega à final de uma Copa do Mundo há seis edições. A última vez foi em 2002, no Japão e Coreia. Desde então, eliminações precoces, frustrações e um ciclo de reflexões que se repete a cada quatro anos — sem que a estrutura mude de verdade.
Os técnicos que o Brasil formou e depois descartou
Ney Franco ganhou o Mundial sub-20 de 2011 na Colômbia. Foi demitido do cargo em 2012. Nunca mais integrou o quadro de seleções da CBF de forma permanente. Rogério Micale conduziu o Brasil ao ouro olímpico de 2016 no Maracanã — um dos momentos mais emocionantes da história recente do futebol nacional — e também foi dispensado logo depois, sem que seu trabalho fosse aproveitado como base para algo maior.
André Jardine venceu a medalha de ouro nos Jogos de Tóquio, em 2021, derrotando justamente a Espanha de de la Fuente na final. Era o técnico que mais conhecia aquela geração de jogadores. A CBF não o manteve no projeto principal da seleção. Jardine foi para o futebol mexicano, assumiu o América e construiu carreira fora do país, enquanto o Brasil continuava sua busca por um modelo.
O padrão é perturbador. A Espanha viu de la Fuente perder uma final olímpica e manteve a confiança no processo. O Brasil viu seus técnicos vencerem e os descartou. Como aponta análise publicada em matéria do SportNavo sobre o ciclo de base da CBF, a falta de padronização metodológica é um dos fatores estruturais que mais pesam nesse retrocesso.
"Meu trabalho tinha que estar perfeitamente informado de quais são os melhores jogadores das últimas dez gerações", reforçou de la Fuente após o título, deixando claro que a profundidade do seu conhecimento sobre o plantel espanhol não era acidente — era produto de uma década de imersão deliberada.
O que a CBF precisa mudar antes da próxima Copa
A Copa do Mundo de 2030 acontece na Espanha, Portugal e Marrocos — com jogos simbólicos na Argentina e Uruguai. O Brasil tem quatro anos para começar a construir algo diferente. O prazo é curto. A mudança exigida é profunda.
O modelo espanhol aponta três pilares concretos: estabilidade de comando nas categorias de base, identidade tática definida e propagada de cima para baixo, e valorização dos técnicos que vencem competições juvenis como parte de um plano de carreira dentro da federação. Nenhum desses três pilares existe hoje na CBF de forma consistente.
A geração espanhola que tem entre 23 e 30 anos em 2026 — Pedri, Gavi, Yamal, Dani Olmo — cresceu dentro de um sistema que os preparou para jogar de uma maneira específica, com um técnico que os conhecia desde os 16 anos. O Brasil tem jogadores de qualidade equivalente espalhados pelo mundo. O que falta não é talento. É o projeto que transforma talento em campeão.
A próxima janela de oportunidade real para a CBF começar essa virada começa agora, com a formação dos times sub-17 e sub-20 que disputarão os Mundiais juvenis de 2027. Se os técnicos dessas equipes forem escolhidos com critério de continuidade — e não substituídos na primeira derrota — o Brasil pode, em 2030, ter alguém que conheça sua geração tão bem quanto de la Fuente conhecia a dele. A Copa de 2030 não espera.










