Três coisas: um pênalti marcado, uma expulsão que não saiu e um VAR que interferiu quando quis — mas ficou quieto quando era mais urgente. Tudo se explica daí.
Hoje: o que já é fato
O Corinthians perdeu por 2 a 1 para o Mirassol no domingo (3), pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro, e voltou à zona de rebaixamento: 15 pontos, 17ª colocação, atrás do Santos apenas nos critérios de desempate. Fernando Diniz, em sua primeira derrota à frente do clube, foi direto ao microfone e nomeou o árbitro Matheus Delgado Candançan como protagonista negativo da tarde. As críticas se concentraram em dois lances: o pênalti convertido em favor do Mirassol sobre Carlos Eduardo, que originou o primeiro gol do Leão, e uma suposta falta em Rodrigo Garro no lance do segundo gol adversário, que, na visão do treinador, deveria ter sido revisada pelo VAR.
"A arbitragem hoje foi muito ruim, errou tudo, parecia que não tinha cartão no bolso", disparou Diniz na coletiva pós-jogo.
O técnico alvinegro também questionou a permissividade do árbitro com as faltas táticas do Mirassol para retardar o jogo — uma prática que, sem punição de cartão amarelo, funciona como instrumento legítimo de gestão de tempo. Diniz foi explícito: "Seguraram, agarraram pela cintura. Como o VAR não chama?" A irritação era dupla: com o árbitro de campo e com a equipe do vídeo, que havia intervindo para anular a expulsão de Edson Carioca, do Mirassol, mas se recusou a revisar o lance do segundo gol corintiano.
Do lado oposto, a história já havia começado antes. No Campeonato Paulista, na eliminação do Mirassol nas quartas de final para o Corinthians por 2 a 0, o lateral-esquerdo Reinaldo deixou a Neo Química Arena com uma acusação direta sobre a arbitragem de Daiane Muniz: Carrillo havia acertado uma entrada dura no calcanhar de Clayson nos acréscimos do primeiro tempo e recebeu apenas cartão amarelo. O VAR não foi acionado para revisar a possível expulsão.
"Com certeza fomos prejudicados. Não tenho dúvida. Se fosse a favor do Corinthians, ela já vinha com o vermelho. Tem que jogar contra eles e contra a arbitragem também", afirmou Reinaldo na zona mista.
Esta semana: o que se desdobra
A análise dos dois confrontos revela um padrão que vai além da narrativa de cada clube. No jogo do Brasileirão de outubro de 2025, pela 27ª rodada, o árbitro Felipe Fernandes de Lima marcou pênalti a favor do Corinthians após contato em Yuri Alberto dentro da área — lance que gerou revolta nas redes sociais e foi apelidado de "Mandrake" por torcedores rivais. O VAR havia recomendado a revisão, Maycon cobrou e abriu o placar. O Corinthians ocupava o 13º lugar com 30 pontos naquele momento, sete acima da zona de rebaixamento — uma posição bem mais confortável do que a atual. O Mirassol, por sua vez, tinha o menor valor de elenco do campeonato segundo o Transfermarkt: € 22,53 milhões, contra € 110,45 milhões do Timão, uma diferença de quase cinco vezes. Essa assimetria financeira torna cada decisão de arbitragem ainda mais amplificada para o clube do interior.

Conforme levantamento do SportNavo com base nos lances reportados, o VAR foi acionado em três momentos distintos nos dois jogos entre as equipes nesta temporada, mas em nenhum dos casos houve consenso sobre a consistência das intervenções. A estatística de xG (Expected Goals — ou seja, a probabilidade de um chute se transformar em gol com base em posição e contexto) do Mirassol no jogo de domingo foi superior a 1.4, o que indica que o time do interior criou chances de qualidade suficiente para ao menos empatar o jogo sem depender de erros adversários. Quando um time com xG alto perde e ainda acumula reclamações de arbitragem, o desconforto é inevitável.

"O VAR virou uma ferramenta seletiva. Ele aparece quando quer e some quando dói mais", disse um analista de arbitragem ouvido pelo SportNavo, que pediu para não ser identificado.
Próximas 4 semanas: o que vai mudar
Para o Corinthians, o calendário não perdoa erros de tabela: na quarta-feira (6), o clube enfrenta o Santa Fe pela CONMEBOL Libertadores, às 21h30, precisando de resultado positivo para não comprometer a campanha continental. No sábado (10), o clássico contra o São Paulo, às 18h30, pelo Brasileirão, tem contorno de decisão antecipada — uma derrota pode aprofundar a crise e distanciar o time da zona de segurança. Diniz afirmou que a diretoria vai tomar as medidas possíveis em relação à arbitragem, mas reconheceu os limites do processo: "O que der para fazer, a diretoria vai fazer."
O Mirassol, eliminado do Paulistão e sem Copa do Brasil nem Libertadores no horizonte, tem o Brasileirão como único front. A permanência na Série A é a meta declarada pelo clube, e cada ponto disputado carrega peso existencial. A reclamação de Reinaldo não foi apenas desabafo de vestiário — foi um aviso de que o time do interior não vai aceitar passivamente decisões que considera enviesadas. O próximo capítulo desta história tem data e hora marcadas: o Leão volta a campo pelo Brasileirão ainda nesta semana, e qualquer novo lance polêmico vai reacender o debate com força total.









