Confesso: eu errei sobre o futebol brasileiro em 2022. Quando vi Vinicius Jr. dançar no Catar e Rodrygo resolver jogos sozinho pelo Real Madrid, escrevi que o Brasil tinha encontrado o caminho para o hexacampeonato. Estava errada. E a eliminação para a Noruega por 2 a 1, nas oitavas de final desta Copa, me obrigou a engolir cada palavra daquele texto.

O calor de Atlanta ainda pesava no ar quando Neymar saiu de campo com os olhos vermelhos, na noite de sábado. Ele havia entrado nos minutos finais, convertido um pênalti — o único gol brasileiro — e viu o árbitro apitar o fim de uma Copa que o Brasil esperava vencer há 24 anos. As câmeras argentinas do canal Crónica Televisión não perdoaram: exibiram o craque chorando com a legenda "Neymar voltou chorando" e a trilha sonora de 'Você Partiu Meu Coração', de Nego do Borel, Wesley Safadão e Anitta. Cruel? Sim. Mas o futebol também é isso.

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A frase que explodiu na Europa após o Brasil cair

A 8.500 quilômetros dali, em Paris, Youri Djorkaeff sentava no estúdio do programa After Foot, da emissora francesa RMC Sports, e destrinchava o que acabara de assistir. O ex-meia, campeão mundial com a França em 1998 e pela Eurocopa em 2000, não escolheu palavras.

"Perdemos muita qualidade. Vocês assistiram a Brasil x Noruega? Dá vontade de vomitar vendo esse Brasil. Onde estão os brasileiros técnicos?"

A declaração viralizou em minutos. Djorkaeff não parou aí: usou o segundo gol de Haaland como aula comparativa. O centroavante norueguês recebeu dentro da área, controlou com tempo e espaço, e finalizou com simplicidade cirúrgica. Para o francês, isso é qualidade técnica real — domínio, leitura de jogo, decisão limpa. Depois, voltou o olhar para Endrick, que ficou cara a cara com o goleiro adversário e chutou para fora.

"Se fosse o Ronaldo com a bola, ele teria desmontado o goleiro com um drible e empurrado para o gol. O Endrick pegou a bola completamente livre na frente do goleiro... e perdeu."

Djorkaeff ainda descartou Lucas Paquetá como referência técnica — "Não venham me falar do Paquetá ou qualquer outro... é um absurdo" — e reservou apenas uma exceção ao Brasil inteiro: Neymar, 34 anos, sem sequência de jogos há quase cinco temporadas, que ainda assim criou as melhores jogadas brasileiras nos últimos minutos da partida.

O que o Brasil perdeu entre Ronaldo e Endrick

A crítica de Djorkaeff toca numa ferida que vai além de uma partida. O Brasil que venceu a Copa de 2002 tinha Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos e Cafu no mesmo elenco. Hoje, o coordenador da seleção, Rodrigo Caetano, admitiu ao desembarcar no Rio de Janeiro na madrugada desta semana que o time chegou à Copa num crescente, mas parou nas oitavas — o pior resultado brasileiro desde 1990.

Dentro da CBF, o diagnóstico interno reconhece falhas: o ciclo político turbulento com Fernando Diniz, Dorival Jr. e o interino Ramon antes de Ancelotti assumir; a convocação final com lacunas nas laterais, agravadas por lesões de Wesley e Militão; e decisões discutíveis como Neymar, Igor Thiago e Luís Henrique, que somaram poucos minutos em campo. Estêvão e Rodrygo, prováveis titulares no esquema de Ancelotti, chegaram à Copa machucados. O técnico italiano trabalhou com o que tinha — e o que tinha não era suficiente.

Seria injusto chamar de colapso geracional — mas é uma crise geracional em escala Copa do Mundo, e isso já é suficientemente grave para um país que não levanta a taça desde 2002.

Ancelotti fica e a renovação começa agora

A TV argentina ainda publicou uma foto de Endrick de joelhos com a legenda "Vão seguir esperando mais quatro anos". A provocação doeu, mas o calendário não para por dor. A CBF decidiu manter Carlo Ancelotti no cargo — o contrato vai até 2030 — apostando no prestígio de um técnico com cinco títulos de Liga dos Campeões para absorver a pressão que derrubaria qualquer outro nome. Rodrigo Caetano foi direto:

"A avaliação é positiva, senão ele não teria ficado. Ele mesmo não teria tomado a decisão de permanecer. Agora, o que a gente espera é que possamos ter o tempo necessário para reavaliar e fazer os ajustes necessários."

A única baixa confirmada na comissão é Davide Ancelotti, filho do técnico, que assume o Lille, da França. O restante da equipe segue intacto. A renovação do elenco já começou nos bastidores: Danilo e Casemiro, veteranos que viveram mais uma eliminação precoce, devem abrir espaço para os jovens. Estêvão, Rayan e Endrick são vistos como a espinha dorsal para a Copa de 2030.

Em matéria do SportNavo, apuramos que a primeira convocação do novo ciclo está marcada para setembro, com dois amistosos contra a Austrália em solo australiano — e a CBF trabalha para fechar um terceiro jogo no mesmo período. Quem quiser ver se Ancelotti consegue responder a Djorkaeff com futebol, vale gravar os jogos de setembro: é ali que começa, de verdade, o próximo capítulo.