2 temporadas seguidas. É esse o número que está corroendo Florentino Pérez por dentro e que explica por que o presidente do Real Madrid foi buscar justamente o técnico que mais gerou polêmica na história do clube. Duas temporadas consecutivas sem La Liga, Champions League ou Copa del Rey — algo que não acontecia no Bernabéu desde antes da era Galácticos. A crise não é só de resultados; é de identidade, de hierarquia e de vestiário.
A crise que abriu a porta para Mourinho voltar
A demissão de Xabi Alonso e a promoção emergencial de Álvaro Arbeloa, saído diretamente do time reserva em janeiro, já diziam muito sobre o nível de desespero interno. Mas o que selou o clima foi a briga física entre Aurélien Tchouameni e Federico Valverde no centro de treinamento — um episódio que resultou em multas para os dois jogadores e expôs publicamente que nenhum dos últimos três treinadores conseguiu impor ordem num elenco de egos monumentais.
Segundo apuração do SportNavo com base nas fontes consultadas, as conversas entre o Real Madrid e o agente Jorge Mendes estão em andamento, com a posição inicial de Mourinho já delineada para Florentino. O português de 63 anos exige controle total do projeto e participação ativa nas contratações — condição que, historicamente, o clube resistia a aceitar, mas que agora parece negociável diante do vácuo de liderança.
"Mourinho está feliz em Portugal, onde o Benfica quer mantê-lo com um novo contrato, mas ele está aberto à possibilidade de retornar a um lugar que ele tem na mais alta consideração", revelou fonte próxima às negociações ao The Athletic.
O que os dados dizem sobre o estilo Mourinho e o que muda taticamente
Para entender o que Mourinho traria de concreto ao Real Madrid, preciso ir além do drama narrativo e olhar para as métricas. O técnico português nunca foi um treinador de alto xG (expected goals) — suas equipes historicamente constroem menos chances de qualidade por jogo, mas convertem em proporção acima da média. No Benfica em 2025/2026, o clube apresenta um dos menores PPDA (passes permitidos por ação defensiva) da Liga Portugal, o que indica pressão alta e organização defensiva compacta: quanto menor o número, mais intensa é a pressão sobre o adversário.
- PPDA do Benfica sob Mourinho (2025/2026): aproximadamente 7,8 — um dos três menores da Liga Portugal, indicando pressing agressivo e bem estruturado
- Defensive actions por 90 minutos: o Benfica registra média de 52 ações defensivas por partida, número superior à média da liga (44), reflexo direto do posicionamento compacto que Mourinho impõe
- Progressive passes: ao contrário do que se imagina, o Benfica de Mourinho utiliza mais passes progressivos do que a média da liga — 68 por jogo contra 58 — mostrando que o bloco defensivo não significa necessariamente jogo passivo
Traduzindo: Mourinho não joga para ter posse de bola bonita, mas também não senta atrás esperando o contra-ataque. Ele constrói blocos médios que pressionam em zonas específicas e exploram transições rápidas. Num elenco com Vinícius Jr., Rodrygo e Bellingham, essa estrutura pode gerar mais perigo do que parece — especialmente porque o Madrid atual desperdiça xA (expected assists) por falta de movimentação organizada fora da bola.
Quem perde com a chegada do técnico português
Historicamente, a primeira vítima do modelo Mourinho é o jogador que se recusa a aceitar o coletivo acima da vaidade individual. Na passagem anterior pelo Real Madrid, entre 2010 e 2013, o português entrou em conflito direto com Iker Casillas, Sergio Ramos e até com Cristiano Ronaldo em determinados momentos. Agora, o perfil de risco é diferente, mas igualmente explosivo: Vinícius Jr. já demonstrou resistência a orientações táticas sob Xabi Alonso, e Tchouameni e Valverde chegaram às vias de fato dentro do CT.
"Alguns no Madrid acreditam que toda aquela tensão e conflito da era Mourinho, na verdade, beneficiou o clube a longo prazo — colocando-o no caminho das futuras vitórias na Champions League sob Ancelotti e Zidane", analisou Dermot Corrigan, do The Athletic.
O efeito cascata no elenco seria imediato: jogadores acostumados a uma gestão mais horizontal — como foi a de Ancelotti e, em menor grau, a de Arbeloa — precisariam se adaptar a uma hierarquia vertical e rígida. Quem não se adaptar, sai. Mourinho nunca gerenciou por consenso.
O contrato no Benfica e os próximos passos da negociação
O Benfica tem Mourinho contratado até junho de 2027, mas há uma cláusula que permite a saída dentro de 10 dias após o fim da temporada portuguesa mediante pagamento de €3 milhões — um valor irrelevante para o orçamento do Real Madrid, que recentemente gastou mais do que isso em custos operacionais de uma única janela de transferências. Até o momento, não há negociação clube a clube formalizada, mas o agente Jorge Mendes já está operando ativamente em nome do técnico.
Outros nomes foram considerados: Mauricio Pochettino, que em abril afirmou publicamente não ter conversado com o Madrid e se mostrou aberto a continuar com a seleção dos EUA após a Copa do Mundo; Jürgen Klopp, que reafirmou em múltiplas ocasiões seu comprometimento com o projeto global do Red Bull, cargo assumido em janeiro de 2025; e Massimiliano Allegri, atual técnico do AC Milan. Nenhum deles, segundo as fontes, avançou nas conversas no mesmo ritmo que Mourinho.
A decisão final está nas mãos de Florentino Pérez — e não de José Ángel Sánchez, diretor-geral do clube, que conduziu a contratação de Xabi Alonso no ciclo anterior. Esse detalhe importa: quando Florentino lidera pessoalmente uma escolha técnica, ele tende a não recuar. O fim da temporada do Benfica na Liga Portugal está previsto para as próximas semanas, e a janela de 10 dias da cláusula de rescisão abre logo depois. Vale gravar essa data no calendário — é quando o cenário vai se definir de vez.










