Dorival Júnior vive o pior momento de sua carreira como treinador. Aos 62 anos e com mais de três décadas no comando técnico, o experiente comandante acumula pela primeira vez oito jogos consecutivos sem vitória, marca que se tornou um incômodo fardo na sua passagem pelo Corinthians. O jejum, iniciado em março, coloca em xeque não apenas o futuro do técnico, mas também as ambições alvinegras para 2024.
A sequência negativa ganhou contornos dramáticos na última rodada do Brasileirão, quando o Corinthians perdeu por 2 a 1 para o Fluminense no Maracanã. O confronto, válido pela 9ª rodada, foi marcado ainda pela expulsão de um jogador corintiano por gesto obsceno, episódio que simbolizou o descontrole emocional que tem dominado o elenco nas últimas semanas.
A admissão de culpa de um veterano
"Nunca trabalhei com créditos", declarou Dorival após a derrota carioca, assumindo integral responsabilidade pela fase. A postura do técnico contrastou com momentos anteriores de sua carreira, quando costumava dividir o peso das derrotas com fatores externos. Formado na escola clássica do futebol brasileiro, Dorival construiu reputação sólida em passagens por Santos, Flamengo e Ceará, sempre demonstrando capacidade de reação em momentos de crise.
Os números atuais, contudo, representam território inexplorado para o comandante. Em 1997, quando assumiu o Guarani pela primeira vez, Dorival havia enfrentado sequência de seis jogos sem vitória - até então seu pior jejum. A marca foi superada duas décadas depois, desta vez vestindo a camisa do clube paulista que mais desafios tem oferecido em sua trajetória profissional.
Padrões táticos em xeque
A análise dos oito jogos revela inconsistências que extrapolam questões técnicas. O Corinthians sofreu 14 gols e marcou apenas 8 no período, média defensiva que destoa dos padrões históricos de equipes comandadas por Dorival. No Santos de 2010, por exemplo, sua defesa concedia média de 0,8 gol por partida no Campeonato Paulista, eficiência que se traduziu no título estadual daquele ano.
As mudanças táticas constantes também chamam atenção. Dorival utilizou 11 formações diferentes nos oito jogos do jejum, alternando entre linha de três e quatro defensores sem encontrar equilíbrio. O meio-campo, setor tradicionalmente forte em suas equipes, apresenta lacunas de criação que remetem aos problemas enfrentados pelo Corinthians na temporada 2007, quando Mano Menezes viveu crise similar antes da virada que resultou na conquista da Copa do Brasil.
Histórico de reação alvinegra
Dorival não esconde otimismo baseado em precedentes históricos do próprio Corinthians.
"O time já mostrou que pode reagir", afirmou o técnico, referindo-se especificamente ao período entre maio e junho de 2023, quando a equipe emendou sete vitórias consecutivas após início vacilante no Brasileirão. Aquela sequência positiva, curiosamente, também teve início após derrota no Maracanã - contra o Flamengo por 2 a 0.
A comparação encontra respaldo nos dados: em 2019, o Corinthians iniciou o segundo turno do Brasileirão com apenas 23 pontos, mas terminou a competição na 4ª colocação com 56 pontos conquistados. A reação daquele ano, comandada por Fábio Carille, baseou-se em solidez defensiva e eficiência nas bolas paradas - fundamentos que Dorival tem tentado implementar sem sucesso até agora.
Estatisticamente, equipes que superam jejuns de oito jogos no Brasileirão tendem a reagir de forma consistente. Desde 2003, apenas três times conseguiram reverter sequências similares e terminaram a temporada entre os dez primeiros colocados: Palmeiras (2012), Internacional (2016) e o próprio Corinthians (2019).
O peso da pressão e os próximos desafios
A pressão sobre Dorival intensificou-se após declarações de dirigentes corintianos questionando publicamente algumas escolhas táticas. Diferentemente de 2020, quando Roberto de Andrade defendeu Tiago Nunes durante crise similar, o atual presidente Augusto Melo mantém silêncio que alimenta especulações sobre mudança no comando técnico.
O calendário não oferece respiro: o próximo compromisso será contra o Palmeiras, no Allianz Parque, pela 10ª rodada do Brasileirão. O clássico, marcado para domingo às 16h, representa oportunidade de quebrar o jejum contra adversário que não perde para o Corinthians há cinco confrontos - desde março de 2023. Uma nova derrota pode decretar o fim da era Dorival no Parque São Jorge, encerrando capítulo que prometia resgatar o protagonismo alvinegro no cenário nacional.

