Quantos torcedores que votaram em Endrick como titular já assistiram a um jogo completo de Carlo Ancelotti dirigindo um time? A pergunta não é provocação — é o ponto central do que a enquete VC Escala, do ge.globo.com, acabou de expor na véspera do Brasil enfrentar o Marrocos neste sábado, às 19h, em Nova Jersey. Dezenas de milhares de votos foram depositados em nomes, posições e uma formação específica. O resultado é um retrato fiel do que o torcedor quer ver em campo. O problema é que Ancelotti raramente faz o que o torcedor quer.
O time mais vezes montado na ferramenta chegou a um 4-3-3 com Bruno Guimarães como segundo mais votado geral, Casemiro e Danilo Santos compondo o meio-campo, e Vini Jr., Raphinha e Endrick no ataque. Esse arranjo exige três volantes, três atacantes e nenhum meia clássico entre as linhas — exatamente o oposto do que o técnico italiano praticou em quase toda a sua carreira europeia, onde o 4-2-3-1 ou o 4-3-3 com um meia enganche são marcas registradas, não exceções.
O 4-3-3 da torcida enfrenta a lógica de Ancelotti
Quando Ancelotti usa um 4-3-3, ele costuma fazer isso com um meio-campo de duas referências fixas e um jogador de ligação — alguém como Lucas Paquetá, que apareceu em décimo lugar na lista de mais votados, atrás até de Douglas Santos. A torcida, ao escalar Casemiro, Bruno Guimarães e Danilo Santos juntos, está pedindo um bloco compacto e físico no meio, sem criatividade posicional. É como montar uma barragem sem comporta: segura a pressão, mas não deixa a água fluir para o ataque com fluidez.
Ancelotti, ao contrário, tende a usar Paquetá exatamente como a comporta dessa barragem — o jogador que conecta a recuperação de bola com o último terço. A ausência de Paquetá no time ideal dos torcedores não é um esquecimento; é uma declaração tática. O público prefere solidez a criatividade no meio, e isso diz muito sobre o trauma acumulado com seleções que dominavam a bola mas vazavam em transições.
A lateral direita virou disputa após o corte de Wesley
Com o corte de Wesley antes da Copa, a lateral direita abriu uma briga real entre Danilo, do Flamengo, e Ibañez. Na enquete, Danilo foi mais votado — mas a escolha popular carrega uma carga afetiva que os números de campo não necessariamente sustentam. Danilo tem 33 anos, chegou ao torneio saindo de uma temporada irregular pelo Flamengo no Brasileirão 2026, e Ancelotti já demonstrou preferência por jogadores com mais mobilidade ofensiva quando a situação pede pressão alta.
Na lateral esquerda, Douglas Santos foi o mais escolhido pelos torcedores para ocupar a vaga que seria de Alex Sandro — que apareceu em décimo quinto lugar na votação geral, praticamente fora do radar popular. Douglas Santos, do Zenit, tem 31 anos e uma temporada europeia consistente, mas enfrenta a mesma questão que Danilo: Ancelotti pode preferir um perfil mais jovem e vertical se o planejamento for de pressão alta nos primeiros jogos da fase de grupos.
Endrick como titular revela a expectativa que Ancelotti precisa administrar
O dado mais simbólico de toda a enquete é Endrick como terceiro mais votado no geral, atrás apenas de Vini Jr. e Bruno Guimarães. O atacante do Real Madrid, com 18 anos, virou a encarnação do desejo popular por uma Seleção que ataque sem medo — e que tenha um centroavante de área depois de anos com falsos noves e meias improvisados na posição. Segundo o próprio estafe técnico da CBF, Ancelotti enxerga Endrick como peça de impacto vindo do banco, não como titular absoluto na estreia.
"Endrick tem qualidade para começar, mas a decisão é técnica", disse uma fonte próxima à comissão técnica brasileira, sem revelar o nome, ao portal UOL Esporte.
Essa divergência é o coração do debate. A torcida vê em Endrick um símbolo de renovação e ousadia. Ancelotti vê um talento que ainda precisa de contexto para render — e que, saindo do banco em um jogo equilibrado, pode ser mais letal do que tentando construir o jogo desde o início contra uma defesa organizada como a marroquina, que eliminou Portugal e Espanha na Copa do Catar em 2022.
Há uma leitura alternativa que merece espaço: a preferência popular por Endrick como titular não é ingenuidade tática. É uma resposta emocional a anos de Seleções que escolheram a segurança e pagaram o preço nas quartas de final. O torcedor que votou em Endrick está votando contra o conservadorismo — e esse sentimento tem fundamento histórico, mesmo que a solução proposta seja discutível.
A síntese honesta é que nem a escalação da torcida nem a provável de Ancelotti é perfeita. O 4-3-3 popular tem consistência defensiva no meio, mas perde em criatividade e pode isolar os três atacantes. O esquema mais provável do técnico italiano — com Paquetá como meia e Endrick no banco — tem mais lógica posicional, mas carrega o risco de repetir a apatia ofensiva que já custou pontos ao Brasil nas Eliminatórias. O que os votos revelam, acima de tudo, é que o torcedor não quer mais assistir a um Brasil que joga para não perder. Em 17 de junho, quando o Brasil enfrentar a segunda partida da fase de grupos, já teremos a primeira resposta concreta de qual dessas visões Ancelotti escolheu defender.








