O gol perdido pelo atacante do Remo na décima rodada do Brasileirão contra o Grêmio se transformou em mais que um simples erro técnico. O lance, que viralizou com mais de 2 milhões de visualizações em 48 horas, expôs uma realidade ainda pouco debatida no futebol nacional: a fragilidade do suporte psicológico oferecido aos atletas após falhas de grande repercussão.
Metodologia de recuperação mental nos grandes centros
Clubes europeus como Bayern de Munique e Manchester City desenvolveram protocolos específicos para lidar com situações traumáticas em campo. No Bayern, jogadores que cometem erros graves passam por sessões individuais com psicólogos esportivos nas 24 horas seguintes ao episódio. A metodologia inclui análise técnica do lance, exercícios de visualização positiva e trabalho de ressignificação do erro.
No Brasil, apenas Flamengo, Palmeiras e São Paulo mantêm departamentos de psicologia esportiva estruturados. O Palmeiras, sob orientação de Abel Ferreira, implementou desde 2021 um sistema chamado "Reset Mental", onde jogadores recebem acompanhamento personalizado após performances abaixo do esperado. O protocolo reduziu em 34% a recorrência de erros similares na mesma temporada.
"Trabalhamos com a premissa de que todo erro é uma oportunidade de crescimento, mas precisa ser processado de forma adequada para não se tornar um trauma", explica Dr. Ricardo Santos, psicólogo esportivo do Palmeiras.
Casos de superação transformam carreiras
A história do futebol registra exemplos marcantes de atletas que transformaram erros graves em motivação. Rogério Ceni perdeu três pênaltis decisivos entre 2005 e 2006, incluindo a final da Copa Libertadores. O goleiro recebeu acompanhamento psicológico intensivo e converteu 61 das 64 cobranças seguintes em sua carreira.
Kaká enfrentou situação similar após errar pênalti na final da Copa América 2004. O meio-campista trabalhou com especialista em visualização mental durante seis meses e marcou 17 dos 19 pênaltis cobrados nas duas temporadas posteriores pelo Milan. Seu aproveitamento saltou de 73% para 89% após o trabalho psicológico.
No cenário atual, Gabriel Jesus passou por processo semelhante no Manchester City após sequência de 12 jogos sem marcar em 2022. O atacante recebeu suporte de psicólogo especializado em ansiedade de performance e retornou com média de 0,7 gol por jogo nos 15 confrontos seguintes.

Realidade precária do futebol de base
A situação se agrava nas categorias inferiores e clubes menores. Levantamento da Confederação Brasileira de Futebol indica que apenas 23% dos clubes das Séries A e B possuem psicólogos esportivos em suas comissões técnicas. Na Série C, onde atua o Remo, o percentual cai para 8%.
Giovani, de 19 anos, atacante do Remo responsável pelo gol perdido, integra a categoria sub-20 desde 2023. O jogador acumula 12 gols em 28 partidas na temporada atual, com aproveitamento de 43% das chances criadas. Estatisticamente, mantém números superiores à média da Série C, onde atacantes convertem 38% das oportunidades claras.
"Casos como este mostram que talento técnico sem preparo psicológico pode resultar em traumas que afetam toda uma carreira", avalia Maria Fernanda Lima, coordenadora de psicologia esportiva da CBF.
Protocolos internacionais como referência
A Premier League desenvolveu em 2019 o programa "Mind Matters", que oferece suporte psicológico obrigatório para todos os jogadores das 20 equipes. O protocolo registrou redução de 27% nos casos de ansiedade de performance e 31% menos episódios depressivos relacionados ao futebol.

Na Alemanha, a Bundesliga exige desde 2020 que todos os clubes mantenham ao menos um psicólogo esportivo em tempo integral. A medida resultou em melhoria de 18% no aproveitamento de pênaltis e 22% menos cartões por condutas antiesportivas.
O Remo retorna aos gramados na próxima segunda-feira, enfrentando o Vila Nova fora de casa, pela 11ª rodada da Série C. A partida representa oportunidade para Giovani demonstrar superação mental e técnica após o episódio que marcou sua jovem carreira.

