Três coisas aconteceram antes do apito inicial da Copa do Mundo de 2026: um estádio perdeu o nome que custou centenas de milhões de dólares, uma seleção trocou as cores dos números na camisa em cima da hora, e um torcedor foi imobilizado por oito seguranças ao tentar invadir o gramado em Los Angeles. Cada episódio, isolado, parece anedótico. Juntos, eles compõem o retrato de uma Fifa que controla o produto Copa com precisão cirúrgica — às vezes eficiente, às vezes desajeitada, sempre onipresente.

A Copa de 1994 também renomeou estádios, mas ninguém notou tanto

A política de "estádio limpo" não nasceu em 2026. A Fifa aplica regras de exclusividade de marca desde os anos 1990, quando o marketing esportivo começou a se tornar um negócio autônomo. Na Copa de 1994, realizada nos Estados Unidos, os estádios já passavam por adaptações visuais para proteger patrocinadores oficiais. O que mudou em 2026 é a escala do conflito: os contratos de naming rights dos arenas americanos atingiram patamares que tornam qualquer apagamento um problema financeiro e simbólico de primeira ordem.

O SoFi Stadium, em Inglewood, na Grande Los Angeles, foi batizado com o nome da fintech SoFi após um acordo avaliado em US$ 625 milhões por 20 anos, firmado em 2019. Para a Copa, o local passou a se chamar oficialmente "Estádio de Los Angeles". O MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey — casa dos Giants e dos Jets da NFL —, tornou-se "Estádio de Nova York e Nova Jersey". O NRG Stadium, em Houston, virou simplesmente "Estádio de Houston". A Fifa foi direta em seu site: "Os nomes oficiais dos estádios para a Copa do Mundo da Fifa de 2026 foram adaptados aos nomes das cidades-sede e podem diferir dos nomes comuns usados localmente."

"Não estão satisfeitos. Pagaram muito dinheiro para ter visibilidade nesses estádios, mas é uma daquelas coisas que provavelmente não podiam evitar nesta situação", disse Rick Burton, professor emérito da Falk College of Sport da Universidade de Syracuse, à agência AFP.

O logotipo que a Fifa não conseguiu apagar no teto de Atlanta

A comparação histórica mais reveladora talvez venha do próprio torneio de 2022. No Catar, todos os estádios foram construídos especificamente para o evento, o que significava que a Fifa ditava as regras desde a planta arquitetônica. Em 2026, o cenário é radicalmente diferente: instalações preexistentes, com identidades visuais incorporadas à própria estrutura, precisam ser temporariamente despersonalizadas. O resultado é, em alguns casos, literalmente impossível.

O Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, rebatizado de "Estádio de Atlanta", carrega um logotipo gigante da montadora alemã embutido na cobertura retrátil do teto. Sem encontrar forma de cobri-lo sem danificar a estrutura, a Fifa optou por uma exceção: o símbolo da Mercedes permanece visível durante a competição. É o único estádio da Copa do Mundo de 2026 que não foi afetado por nenhuma renomeação — o BC Place, em Vancouver —, justamente porque seu contrato de patrocínio é neutro em relação às exigências do torneio.

Quem acompanhou a partida entre Estados Unidos e Paraguai na sexta-feira (12), primeira da Copa em solo americano, pôde testemunhar ainda outro episódio extracampo: um torcedor de óculos escuros, com uma bola nas mãos, saltou da arquibancada em direção ao gramado logo após o quarto gol americano na goleada por 4 a 1. Ele foi interceptado e imobilizado por pelo menos oito seguranças antes de avançar dois metros além da divisória. A cena, acompanhada de vaias e arremesso de bebidas pela torcida, durou menos de 30 segundos — mas viralizou nas redes sociais como símbolo de uma Copa que ainda busca seu ritmo de segurança em estádios acostumados ao futebol americano.

Egito muda camisa e Infantino cutuca a Itália — a Fifa como árbitro de tudo

A mesma entidade que apagou o nome do SoFi Stadium também mandou o Egito alterar sua camisa às vésperas da estreia. A Fifa avaliou que sete estrelas acima do escudo egípcio — referência direta aos títulos da Copa Africana de Nações — não atendiam ao regulamento da competição. Os números e nomes nas costas, originalmente dourados, precisaram ser substituídos por branco. A seleção estreia no Grupo G contra a Bélgica nesta segunda-feira (15), às 16h de Brasília, já com o uniforme modificado.

A Copa de 1994 também renomeou estádios, mas ninguém notou tanto Fifa apaga nome
A Copa de 1994 também renomeou estádios, mas ninguém notou tanto Fifa apaga nome

O caso lembra o que ocorreu com o Haiti dias antes do torneio, quando a Fifa pediu a retirada de uma ilustração histórica do uniforme haitiano por entender que o elemento poderia ser interpretado como mensagem política. Dois países, dois uniformes alterados, uma mesma lógica de controle da imagem do torneio — que, diga-se, rendeu à Fifa receitas estimadas em mais de US$ 11 bilhões apenas em direitos de transmissão e patrocínios neste ciclo.

É nesse contexto que a declaração do presidente Gianni Infantino ganhou outro peso. Em entrevista à CazéTV na quinta-feira (11), ao ser questionado sobre ampliar o torneio de 48 para 64 seleções, Infantino ironizou a ausência da Itália — tetracampeã mundial, fora da Copa pela terceira edição consecutiva: "Vamos ver se a Itália se classifica com 64 seleções, ou talvez eu tenha que colocar 208 para ver se ela se classifica." A reação foi imediata. O ministro dos Esportes italiano, Andrea Abodi, disse ter ficado "perplexo". Fontes da Federação Italiana (Figc), sem comando desde a derrota para a Bósnia e Herzegovina na repescagem europeia, classificaram a fala como uma "declaração infeliz que feriu os sentimentos de toda a comunidade esportiva" do país.

"Ele não pode se permitir dizer uma coisa do tipo", exigiu Marco Tardelli, herói do tricampeonato italiano na Copa de 1982.

Identidade local versus produto global — onde está o torcedor nessa equação

Há uma tensão estrutural que essa Copa escancarou com clareza inédita. Pense no torcedor de Los Angeles — aquele que cresceu vendo o SoFi Stadium ser construído, que assistiu ao Super Bowl LVI ali dentro, que associa aquele endereço a uma identidade. Chegar para o jogo inaugural dos Estados Unidos e encontrar um "Estádio de Los Angeles" genérico tem o mesmo efeito desorientador que, para um carioca, chamar o Maracanã de "Estádio do Rio" durante seis semanas. A informação muda, a emoção estranha.

A Fifa lucra com essa padronização porque ela garante que nenhuma marca concorrente de seus patrocinadores oficiais — entre eles Adidas, Coca-Cola, Hyundai e Qatar Airways — apareça em qualquer material de comunicação do torneio. O modelo funciona há décadas e é financeiramente irrepreensível. O que 2026 acrescentou ao debate foi a escala americana dos contratos de naming rights, incomparável com a de qualquer Copa anterior realizada fora do Catar.

A estreia do Egito contra a Bélgica, nesta segunda-feira (15), em Dallas, será o próximo teste público da política de uniformes da Fifa. Se as camisas alteradas chamarem atenção nas câmeras de transmissão, o debate voltará à tona — e com ele, a questão de até onde vai o poder regulatório de uma entidade privada sobre símbolos nacionais.

O logotipo que a Fifa não conseguiu apagar no teto de Atlanta Fifa apaga nomes d
O logotipo que a Fifa não conseguiu apagar no teto de Atlanta Fifa apaga nomes d

No gramado do "Estádio de Los Angeles", as marcações ainda trazem as cores da NFL, os letreiros do corredor ainda têm resquícios do SoFi, e no teto de Atlanta a estrela da Mercedes continua girando. A limpeza nunca foi tão visível quanto nas suas exceções.