Diz-se que as ilhas caribenhas produzem atletas de atletismo e críquete, não de futebol. Curaçao está prestes a desmontar esse lugar-comum no maior palco do esporte mundial. Neste domingo, 14 de junho, em Houston, a seleção da ilha de 444 km² e 160 mil habitantes entra em campo contra a Alemanha pela estreia no Copa do Mundo de 2026 — a primeira da história do país. Quatro títulos mundiais alemães, uma ilha que até 2010 sequer existia como nação independente. O abismo é imenso. O jogo vai acontecer do mesmo jeito.

Uma ilha que aprendeu futebol em holandês

Curaçao tornou-se país autônomo dentro do Reino dos Países Baixos em outubro de 2010, quando a antiga Antilhas Holandesas foi dissolvida. O futebol local carregava essa herança dupla: a língua papiamento nas arquibancadas, o sistema de formação europeu nos gramados. Não por acaso, 25 dos 26 jogadores convocados para esta Copa nasceram na Holanda — filhos e netos de emigrantes caribenhos que cresceram nas categorias de base de clubes como Feyenoord, Ajax e AZ Alkmaar. O capitão Cuco Martina, que chegou a jogar na Premier League pelo Southampton entre 2016 e 2018, é o símbolo mais acabado dessa geração híbrida: caribenho de sangue, europeu de formação.

Uma ilha que aprendeu futebol em holandês Curaçao estreia contra a Alemanha e ca
Uma ilha que aprendeu futebol em holandês Curaçao estreia contra a Alemanha e ca

O precedente histórico mais próximo é o do Haiti em 1974, outra nação caribenha que estreou numa Copa do Mundo contra uma potência europeia — e perdeu para a Itália por 3 a 1, mas entrou para a história ao marcar um gol com Emmanuel Sanon, quebrando o jejum de 1.143 minutos de Dino Zoff sem sofrer gols. Curaçao chega a Houston com um elenco mais sofisticado do que aquele Haiti, com jogadores que atuam em ligas profissionais europeias, mas enfrenta uma Alemanha tecnicamente superior à Itália de Helmut Schön naquela edição alemã do torneio.

A Onda Azul e a goleada que virou ritual de despedida

A classificação inédita mobilizou a ilha de um jeito que poucos processos políticos conseguiram. A torcida organizou a chamada Onda Azul — referência às cores da seleção —, uma série de manifestações que tomou praças, escolas e praias de Willemstad, a capital. O movimento culminou no jogo de despedida contra Aruba, vizinha e rival histórica no futebol das Antilhas, encerrado com uma goleada de 4 a 0. O placar não foi apenas um resultado: foi uma declaração de confiança coletiva. Rivais históricos foram às arquibancadas torcer juntos — algo que, segundo relatos da imprensa local, não acontecia há décadas.

"Quem não tem cão caça com gato" — o ditado brasileiro traduz bem o que Curaçao construiu: sem os recursos das grandes federações, a ilha usou a diáspora holandesa como seu maior ativo, transformando filhos de emigrantes em guerreiros de uma bandeira que muitos deles nunca viram tremular numa Copa do Mundo.

A campanha de classificação nas eliminatórias da CONCACAF foi construída sobre uma defesa sólida e transições rápidas — o técnico Remko Bicentini, nascido em Curaçao e formado como treinador na Holanda, moldou um time que concedeu poucos gols e apostou na velocidade dos pontas para criar perigo. O aproveitamento na fase decisiva das eliminatórias ficou acima de 60%, número que surpreendeu analistas que esperavam uma campanha de sobrevivência.

O Grupo E e o calendário que não perdoa

Curaçao está no Grupo E ao lado de Alemanha, Equador e Costa do Marfim — três seleções com histórico consolidado em Copas do Mundo. A Alemanha, que chega a este torneio após o trauma do grupo na Copa de 2018 na Rússia, quando foi eliminada na fase de grupos pela primeira vez desde 1938, tem tudo para usar o jogo de abertura como declaração de intenções. O técnico Julian Nagelsmann escalou um time com Jamal Musiala, Florian Wirtz e Leroy Sané no setor ofensivo — uma combinação que, nos últimos 12 meses, produziu 34 gols em partidas oficiais.

A Onda Azul e a goleada que virou ritual de despedida Curaçao estreia contra a A
A Onda Azul e a goleada que virou ritual de despedida Curaçao estreia contra a A

Depois da Alemanha, Curaçao enfrenta o Equador e, na última rodada da fase de grupos, a Costa do Marfim. Matematicamente, o caminho para as oitavas de final existe — mas passa por uma combinação improvável de resultados. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o desempenho histórico de estreantes caribenhos em Copas mostrou que nenhuma seleção da região passou da fase de grupos em sua primeira participação. Trinidad e Tobago, em 2006, chegou mais perto: ficou no empate sem gols contra a Suécia, perdeu para a Inglaterra por 2 a 0 e foi eliminada.

O que Curaçao pode oferecer contra os quadricampeões

A Alemanha chega a Houston como favorita absoluta, com odds de vitória que chegam a 1.08 em algumas casas de apostas europeias — ou seja, quase consenso. Mas o futebol caribenho produziu surpresas em contextos menos improváveis. Em 2022, a Arábia Saudita venceu a Argentina por 2 a 1 numa fase de grupos; em 2018, o México derrotou a própria Alemanha por 1 a 0 no primeiro jogo do torneio russo. O padrão histórico sugere que a Copa do Mundo tem um talento particular para tornar o improvável plausível.

Bicentini deve escalar Curaçao num bloco defensivo compacto, com duas linhas de quatro e transições rápidas pelo lado direito, onde Leandro Bacuna — que atuou pelo Cardiff City e pelo Rangers — tem liberdade para progredir. A estratégia não é vencer a Alemanha: é não ser goleado nos primeiros 30 minutos e manter a competitividade tempo suficiente para que algum lance improvável aconteça.

"Nós não viemos à Copa do Mundo para tirar foto", declarou Bicentini em entrevista à imprensa holandesa na semana anterior ao torneio. "Viemos para jogar futebol e mostrar que Curaçao merece estar aqui."

A bola rola neste domingo, 14 de junho, às 15h, horário de Brasília, no NRG Stadium de Houston. Curaçao entra em campo diante de uma Alemanha que não perde uma estreia de Copa do Mundo desde 1982 — 44 anos de invencibilidade no primeiro jogo do torneio. Esse é o número que a ilha caribenha vai tentar apagar.