Um jogador pode ser impedido de disputar uma Copa do Mundo por algo que um tribunal ainda não julgou? A pergunta parece simples. A resposta, no entanto, atravessa fronteiras, soberanias e princípios jurídicos que raramente aparecem na cobertura esportiva. Thomas Partey, volante de 32 anos que defendeu Arsenal por quatro temporadas e hoje joga no Villarreal, não embarcou para Toronto. O Canadá negou seu visto.

O governo de Gana não ficou em silêncio. Neste sábado, o ministério das relações exteriores emitiu um comunicado duro, escolhendo palavras com precisão cirúrgica. A decisão canadense foi classificada como "arbitrária e extremamente injusta" — e o argumento central é que Partey responde a acusações, não a uma condenação. Nenhum tribunal, em nenhum país, o declarou culpado até agora.

"O governo da República de Gana expressa fortes reservas em relação à decisão arbitrária e extremamente injusta do Canadá", diz o comunicado oficial do ministério das relações exteriores ganês.

Mas o Canadá não agiu fora da lei. Agiu exatamente dentro dela.

O que a lei canadense diz sobre vistos e acusações criminais

A Copa do Mundo de 2026 é co-sediada por três países, e cada um mantém sua própria soberania de imigração. O Immigration and Refugee Protection Act (IRPA), legislação federal canadense, prevê que um estrangeiro pode ser considerado inadmissível ao país se houver motivos razoáveis para acreditar que ele cometeu um ato que constituiria crime no Canadá — independentemente de condenação formal. A expressão-chave é "motivos razoáveis para acreditar", um padrão probatório significativamente menor do que o necessário para uma condenação penal.

Partey foi acusado cinco vezes por duas mulheres britânicas por crimes supostamente cometidos entre 2021 e 2022, período em que atuava pelo Arsenal, na Inglaterra. Em 2025, uma terceira mulher apresentou nova acusação de agressão sexual. No início de 2026, mais duas mulheres fizeram o mesmo. O jogador foi preso em 2025, obteve liberdade condicional mediante pagamento de fiança e, desde então, está proibido de contatar as acusadoras e obrigado a informar qualquer viagem internacional — condição que, por si só, já criava um obstáculo burocrático para a emissão de visto. Em fevereiro de 2026, declarou-se inocente perante um tribunal inglês.

"Embora respeite o direito soberano do Canadá de aplicar suas leis de imigração, Gana considera que a consideração de acusações não comprovadas, na ausência de uma decisão judicial, levanta questões fundamentais de justiça e proporcionalidade", completa o comunicado do ministério ganês.

A tensão aqui não é nova. Seria injusto chamar de precedente consolidado — mas é uma prática recorrente em escala suficiente para ter nome próprio nas discussões de direito migratório. Países como Canadá, Austrália e Estados Unidos possuem cláusulas de inadmissibilidade baseadas em "conduta", não apenas em condenações. A diferença entre os três sistemas está no grau de discricionariedade do oficial de imigração. No Canadá, esse grau é amplo.

Precedentes que mostram como isso já aconteceu antes

O caso de Partey não é isolado no esporte internacional. Em Copas do Mundo anteriores e em grandes torneios realizados em países anglófonos com legislações similares, atletas enfrentaram restrições de entrada por processos em andamento. A diferença, desta vez, é a visibilidade: um torneio com 48 seleções, transmitido para mais de 200 países, e um jogador que seria titular em uma das seleções africanas mais tradicionais do torneio.

A discussão sobre a aplicação de leis de imigração a atletas profissionais em eventos internacionais envolve um nó jurídico específico: acordos entre a FIFA e os países-sede garantem facilidades de acesso para delegações credenciadas, mas não suspendem a legislação migratória local. O credenciamento FIFA não equivale a um visto. É um documento de acreditação para o evento, não um salvo-conduto perante o direito de imigração canadense.

O argumento de Gana — de que acusações sem condenação não deveriam ser suficientes para barrar um cidadão — encontra eco em princípios de direito internacional, como a presunção de inocência. O contra-argumento canadense, tecnicamente sólido, é que países soberanos não são obrigados a receber estrangeiros, e que o padrão do IRPA não exige condenação porque sua função não é punir, mas proteger o território nacional de riscos potenciais.

O impacto concreto para Gana na fase de grupos

Partey desfalcará Gana na estreia da Copa do Mundo na próxima quarta-feira, contra o Panamá, em Toronto. A ausência do volante — que acumula mais de 40 partidas pela seleção ganesa e foi peça central nas campanhas recentes da equipe — pesa no meio-campo. Partey é o jogador responsável pela saída de bola e pela proteção da defesa, funções que exigem substituição de qualidade técnica equivalente.

A situação muda nos dois jogos seguintes. Como ambas as partidas serão realizadas nos Estados Unidos — contra a Inglaterra, em Boston, e contra a Croácia, na Filadélfia — Partey poderá entrar no país americano e estar à disposição da comissão técnica. A lei americana de imigração opera com critérios distintos dos canadenses, e o jogador não enfrenta, até o momento, restrição de entrada nos EUA. Gana, portanto, terá seu principal volante disponível em dois dos três jogos da fase de grupos — mas não no que abre o torneio.