O VAR protegeu a integridade de uma partida e, ao mesmo tempo, violou o próprio regulamento que o governa. Esse é o paradoxo instalado no coração da Copa do Mundo de 2026 depois que a expulsão de Breel Embolo nas quartas de final entre Argentina e Suíça dividiu duas das entidades mais poderosas do futebol mundial — e o restante deste texto vai mostrar por que as duas podem estar certas e erradas ao mesmo tempo.

O lance que colocou o árbitro João Pinheiro no centro da tempestade

Aos 25 minutos do segundo tempo do duelo entre argentinos e suíços, o árbitro português João Pinheiro aplicou cartão amarelo ao volante Leandro Paredes por suposta falta cometida sobre o atacante Breel Embolo. A sequência, porém, foi interrompida pela cabine do VAR, que sinalizou possível erro de identificação na jogada. Pinheiro foi ao monitor à beira do campo — procedimento padrão desde a Copa da Rússia em 2018 — e, ao rever as imagens, chegou a uma conclusão que ia além do simples acerto de nome.

JÁ TÔ ANSIOSO PRA COPA DO MUNDO DE 2038 DEPOIS DESSA! 😂😂 #shorts

A comunicação pelo sistema de som do estádio foi direta:

"Após revisão, não teve falta do camisa cinco (Paredes) e o número sete (Embolo) teve uma clara simulação. Decisão final, cartão amarelo para o número sete (Embolo)."

Embolo, que já carregava um cartão amarelo anterior na partida, recebeu a segunda advertência e foi expulso. A Suíça terminou a partida com dez jogadores num jogo de quartas de final, o que altera radicalmente qualquer equilíbrio tático. Historicamente, times que ficam com um a menos em quartas de Copa perdem 73% das vezes — dado que torna a expulsão um elemento decisivo, não apenas protocolar.

A acusação da IFAB e o limite que o VAR não poderia ter cruzado

A International Football Association Board — o organismo que redigiu as Leis do Jogo desde 1886 e que reúne FIFA, FA inglesa, SFA escocesa, FAW galesa e IFA norte-irlandesa — foi categórica. Para a IFAB, o VAR só pode intervir em cartões amarelos que não resultem em expulsão imediata para corrigir a identidade do infrator, jamais para reavaliar a natureza da infração em si.

O raciocínio do comitê da IFAB tem lógica estrutural: se o protocolo permitisse que o VAR revisasse a substância de qualquer falta punida com amarelo, cada advertência aplicada em campo poderia ser reaberta, transformando o jogo numa sequência interminável de revisões. A entidade sustenta que Pinheiro cometeu um equívoco técnico ao alterar a natureza da infração — de falta de Paredes para simulação de Embolo — em vez de apenas confirmar ou corrigir qual atleta deveria receber o cartão.

O precedente é grave. Em 138 anos de história do futebol organizado, poucas vezes uma Copa do Mundo gerou um conflito de interpretação normativa tão explícito entre a entidade que organiza o torneio e a que escreve as regras do esporte.

A defesa da Fifa e o argumento da integridade desportiva

A Fifa respondeu publicamente e sem recuar. Em posicionamento oficial divulgado após o torneio, a entidade afirmou que o procedimento adotado por João Pinheiro — e chancelado pela cabine do VAR — foi totalmente consistente com as diretrizes internas aplicadas ao longo de toda a competição. O argumento central é que a simulação de Embolo induziu a arbitragem ao erro original: sem a encenação do atacante suíço, Paredes jamais teria recebido o cartão. Manter a advertência ao volante argentino, segundo a Fifa, seria perpetuar uma injustiça nascida de uma fraude.

A entidade informou ainda que já entrou em contato com os membros da IFAB para alinhar interpretações e debater atualizações futuras no protocolo de vídeo. A linguagem diplomática, registrada pelo SportNavo, não esconde a tensão: uma coisa é conversar sobre revisões futuras; outra, bem diferente, é admitir que o árbitro errou numa quartas de final de Copa.

Há um paralelo histórico relevante. Em 2010, na África do Sul, o gol fantasma de Frank Lampard contra a Alemanha — anulado erroneamente — levou a Fifa a resistir por mais quatro anos antes de aceitar o uso de tecnologia de linha de gol. A resistência custou caro: o gol mudou o placar do que poderia ter sido 2 a 2 para um 4 a 1 que eliminou a Inglaterra. A lição aprendida, à época, foi que a integridade do resultado prevalece sobre a rigidez procedimental — e é exatamente esse argumento que a Fifa usa agora para justificar João Pinheiro.

O efeito cascata para o VAR nas próximas competições

A Argentina — beneficiada diretamente pela decisão, já que Paredes teve o cartão anulado e continuou em campo — seguiu em frente nas quartas de final com onze jogadores contra dez. A Suíça, por sua vez, perdeu seu principal atacante num momento decisivo do torneio, com Embolo acumulando 6 gols em três edições de Copa do Mundo: 2018, 2022 e 2026.

O efeito cascata vai além do resultado daquela partida. Se a IFAB formalizar a acusação de erro procedimental — e há indicações de que o tema será pautado na próxima reunião anual da entidade, prevista para o primeiro trimestre de 2027 — o futebol entrará em território inédito: uma Copa do Mundo cujos resultados foram contestados institucionalmente pela própria guardiã das regras do jogo. Nenhuma edição anterior, nem mesmo a de 1966 com o gol fantasma de Geoff Hurst na final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental — 4 a 2 no placar oficial — gerou um embate normativo tão direto entre organismos reguladores.

Para os árbitros, a consequência imediata é a insegurança jurídica. João Pinheiro aplicou o que julgou ser correto; a Fifa o respaldou; a IFAB discorda. Quem um juiz de campo deve obedecer quando os dois organismos acima dele divergem? A resposta a essa pergunta determinará como o VAR funcionará na Copa do Mundo de 2030 — co-sediada por Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina e Uruguai, com potencial de 48 seleções e mais de 100 partidas no protocolo.

O debate formal entre Fifa e IFAB sobre a revisão do protocolo VAR para simulações em lances de cartão amarelo deve ocorrer na reunião anual da IFAB em março de 2027 — a regra está escrita, o conflito está aberto — e até lá, cada árbitro que pegar o apito numa competição internacional jogará num campo minado.