Confesso: eu errei ao afirmar, em 2024, que a Conmebol acabaria reinstituindo a regra que impede confrontos entre clubes do mesmo país nas fases iniciais do mata-mata. Achei que a pressão dos mercados televisivos nacionais seria suficiente para reverter a decisão. Hoje vejo o porquê não foi — e o sorteio desta sexta-feira, 29 de maio, às 12h em Luque, no Paraguai, é a prova mais concreta disso.

Seis brasileiros, dois potes e nenhuma barreira por país

A Libertadores 2026 chega às oitavas de final com uma composição que, do ponto de vista do futebol brasileiro, é simultaneamente promissora e arriscada. Dos 16 classificados, seis são clubes do Brasil — uma participação que representa 37,5% do campo. No Pote 1, os líderes de grupo: Flamengo e Corinthians. No Pote 2, os segundos colocados: Palmeiras, Fluminense, Cruzeiro e Mirassol.

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O regulamento vigente da Conmebol estabelece uma única regra estrutural para o sorteio: times do Pote 1 enfrentam obrigatoriamente times do Pote 2. Não há restrição por país, por confederação ou por histórico de confrontos. Isso abre oito combinações possíveis envolvendo apenas clubes brasileiros — e duas delas são clássicos estaduais de alto impacto econômico e simbólico.

Flamengo pode enfrentar Fluminense, Cruzeiro, Palmeiras ou Mirassol. Corinthians pode cruzar com qualquer um dos mesmos quatro. Segundo dados compilados pela Pluri Consultoria e referenciados em reportagem publicada pelo SportNavo ao longo desta temporada, um Fla-Flu em fase eliminatória da Libertadores movimentaria entre R$ 18 milhões e R$ 24 milhões em direitos de transmissão adicionais, apenas no mercado doméstico.

A ausência de travas por país não é um descuido regulatório. É uma escolha deliberada da Conmebol, que desde 2023 passou a priorizar a imprevisibilidade do sorteio como valor comercial. O argumento institucional é que confrontos entre gigantes nacionais geram audiência. O contra-argumento — que clubes menores de outros países perdem a chance de exposição continental — raramente aparece nos comunicados oficiais.

O que os potes revelam sobre a fase de grupos brasileira

Flamengo e Corinthians no Pote 1 não é apenas um dado de sorteio. É um indicador de desempenho coletivo. Terminar na liderança do grupo garante o jogo de volta em casa — uma vantagem que, nos últimos cinco ciclos da Libertadores, correspondeu a 68% de aproveitamento dos mandantes nas oitavas, segundo levantamento da IFFHS publicado em abril de 2026.

O Palmeiras no Pote 2 merece uma leitura mais cuidadosa. O clube alvinegro, que faturou a Libertadores em 2020 e 2021 e chegou à final de 2023 — perdendo para o Flamengo — terminou a fase de grupos como segundo colocado. Isso significa que, independentemente do adversário sorteado, o Palmeiras fará o jogo decisivo fora de casa. Para um clube com orçamento de R$ 1,1 bilhão em 2025 e investimento crescente em infraestrutura no Allianz Parque, jogar o mata-mata sem a vantagem do mando é uma desvantagem estrutural que o departamento de futebol certamente preferiria evitar.

Mirassol, por sua vez, representa um dado sociológico relevante. O clube do interior paulista, com orçamento estimado em R$ 120 milhões — menos de 11% do orçamento do Palmeiras —, chegou às oitavas da Libertadores pela primeira vez em sua história. Sua presença no Pote 2 ao lado de Palmeiras e Fluminense é um argumento empírico contra a tese de que a competição continental é um oligopólio dos grandes centros.

"Joguem um pelo outro", disse Luiz Felipe Scolari em mensagem ao elenco da Seleção Brasileira, numa frase que, parafraseada, poderia servir de diagnóstico para o momento do futebol brasileiro na Libertadores — clubes de diferentes realidades econômicas competindo no mesmo palco, com chances matematicamente iguais no sorteio.

Fla-Palmeiras seria a reedição da final — e o que isso significa para o torneio

Entre todos os possíveis duelos brasileiros, Flamengo x Palmeiras carrega o peso histórico mais imediato. Os dois clubes se enfrentaram na final da Libertadores 2023, com vitória rubro-negra. Uma reedição nas oitavas de 2026 eliminaria, logo no primeiro mata-mata, ao menos um dos dois clubes com maior valor de mercado no Brasil — o Flamengo, avaliado em aproximadamente €320 milhões pelo Transfermarkt em maio de 2026, e o Palmeiras, em torno de €290 milhões.

Do ponto de vista da competitividade do torneio, a eliminação precoce de um desses gigantes seria uma perda de audiência mensurável. Pesquisa Kantar Ibope de março de 2026 apontou que Flamengo e Palmeiras, juntos, respondem por 47% da audiência televisiva da Libertadores no Brasil. Tirar um deles nas oitavas comprime o potencial comercial das fases seguintes.

Há também a dimensão do Fla-Flu. Um confronto entre Flamengo e Fluminense nas oitavas seria o primeiro clássico carioca em fase eliminatória da Libertadores desde 2008, quando o Fluminense eliminou o Flamengo nas quartas de final. Naquela edição, o Maracanã registrou 72.000 pagantes no jogo de volta. O impacto econômico local — hotelaria, transporte, alimentação — foi estimado pelo SEBRAE-RJ em R$ 38 milhões à época, valor que, corrigido pelo IPCA até 2026, equivale a aproximadamente R$ 130 milhões.

Corinthians x Palmeiras nas oitavas seria o Derby paulista em nível continental. O último encontro entre os dois na Libertadores foi em 2012, quando o Corinthians — campeão daquela edição — eliminou o Palmeiras na fase de grupos. O peso simbólico desse confronto ultrapassa qualquer análise de desempenho recente.

"O regulamento atual não possui travas e permite que equipes do mesmo país se enfrentem logo nas oitavas de final", conforme confirmado pela Conmebol em comunicado oficial sobre o formato da competição 2026.

O sorteio às 12h desta sexta em Luque definirá qual dessas possibilidades se torna realidade. Os jogos das oitavas estão programados para julho e agosto de 2026, com datas exatas a serem confirmadas pela Conmebol após o sorteio — e ao menos um duelo entre brasileiros é estatisticamente mais provável do que improvável, dada a proporção de seis clubes nacionais entre os dezesseis classificados.

Confesso: eu errei ao afirmar, em 2024, que a Conmebol acabaria reinstituindo a regra que impede confrontos entre clubes do mesmo país nas fases iniciais do mata-mata — e hoje o Brasil paga o preço dessa ausência de proteção, com seis clubes na mesma chave e a possibilidade real de eliminar um gigante nacional antes mesmo das quartas.