O Flamengo enfrenta mais um episódio que ilustra a fragilidade dos clubes brasileiros em negociações internacionais: uma dívida superior a R$ 10 milhões do UD Almería, da Espanha, referente à contratação do atacante Lázaro. O caso ganha contornos peculiares com a recente aquisição de 25% do clube espanhol por Cristiano Ronaldo, mas evidencia um problema estrutural que atinge dezenas de equipes nacionais anualmente.
Panorama das dívidas no mercado internacional
Dados da Confederação Brasileira de Futebol indicam que clubes nacionais acumulam mais de R$ 150 milhões em dívidas pendentes com equipes estrangeiras nos últimos três anos. O Flamengo figura entre as vítimas mais recorrentes, com pelo menos quatro processos em andamento na FIFA contra clubes europeus e sul-americanos por valores não quitados.

O advogado especializado em direito desportivo Rafael Moreira explica que a situação do Almería representa apenas a ponta do iceberg. Segundo ele, clubes da segunda divisão espanhola e italiana são os que mais descumprem acordos de pagamento com equipes brasileiras, aproveitando-se da complexidade jurídica internacional para postergar quitações.
Santos, Palmeiras e Grêmio também enfrentam situações similares. O Peixe aguarda há 18 meses o pagamento de € 3,2 milhões do Sassuolo pela transferência de Kaio Jorge, enquanto o Tricolor gaúcho ainda não recebeu R$ 8,5 milhões do Benfica pela venda de Everton Cebolinha em 2020.
Estratégias jurídicas de proteção
Clubes brasileiros desenvolveram mecanismos contratuais mais rigorosos para reduzir riscos de inadimplência. O Botafogo, após prejuízo de € 2,1 milhões com o Valencia em 2019, passou a exigir garantias bancárias ou seguros de crédito em transferências acima de € 5 milhões.
A cláusula de "solidarity payment" tornou-se padrão nos contratos do Flamengo desde 2021, garantindo que parcelas sejam depositadas automaticamente em conta escrow antes da liberação do atleta. Esta medida reduziu em 60% os casos de inadimplência nas negociações rubro-negras.
Advogados especializados recomendam a inclusão de cláusulas de jurisdição brasileira em contratos, facilitando execuções judiciais. O mecanismo permite bloqueio de ativos de clubes devedores no Brasil, incluindo receitas de patrocínios e direitos de transmissão de partidas disputadas em território nacional.
Impacto financeiro e institucional
As dívidas internacionais afetam diretamente o planejamento financeiro dos clubes brasileiros. O Flamengo provisiona anualmente R$ 25 milhões para cobrir eventuais calotes de equipes estrangeiras, valor que poderia ser investido em infraestrutura ou contratações.
O departamento jurídico rubro-negro mantém escritórios especializados em Madrid, Londres e Milão exclusivamente para acompanhar processos de cobrança. Os custos operacionais desta estrutura atingem R$ 3,8 milhões anuais, demonstrando a dimensão do problema.
Clubes menores enfrentam dificuldades ainda maiores. O Ceará perdeu definitivamente € 800 mil do Vojvodina, da Sérvia, pela transferência de um lateral em 2018, após o clube europeu declarar falência. A ausência de recursos para custear processos internacionais inviabiliza a recuperação destes valores.
Perspectivas e soluções institucionais
A CBF estuda a criação de um fundo garantidor para transferências internacionais, inspirado no modelo francês. O mecanismo funcionaria como seguro coletivo, com clubes contribuindo percentual sobre cada venda para cobrir eventual inadimplência de compradores estrangeiros.
Especialistas defendem maior rigor da FIFA na punição de clubes inadimplentes. Atualmente, equipes devedoras podem ser proibidas de registrar novos jogadores, mas a medida raramente é aplicada em casos envolvendo valores menores que € 5 milhões.
O caso do Almería será decidido pela Câmara de Resolução de Disputas da FIFA nos próximos 90 dias, com o Flamengo confiante na recuperação integral dos R$ 10,3 milhões devidos pela transferência de Lázaro em janeiro de 2023.

