É uma urna com memória longa. Quem coloca a mão dentro dela não sorteia apenas um adversário — sorteia um pedaço de história continental, com todas as cicatrizes que isso carrega. Na próxima sexta-feira, 29 de maio, a partir das 12h (de Brasília), a sede da Conmebol em Luque, no Paraguai, será o epicentro de um ritual que vai redesenhar o caminho de cada clube brasileiro rumo à final da Libertadores — e o peso desse sorteio começa antes mesmo de qualquer bola rolar.
Três brasileiros no pote e os que ainda brigam por uma vaga
Até esta sexta-feira, 22 de maio, três clubes brasileiros já tinham passagem garantida para as oitavas de final: Flamengo e Corinthians como líderes de seus respectivos grupos, e Mirassol — a surpresa mais agradável da fase de grupos — dependendo apenas de si mesmo para confirmar a primeira colocação. Do lado de fora do pote, mas ainda vivos, estão Palmeiras, Cruzeiro e Fluminense, que precisam dos resultados da última rodada, marcada entre os dias 26 e 28 de maio. A matemática ainda favorece os três, mas margem não é garantia — qualquer tropeço pode encerrar a jornada antes do sorteio.
Os adversários sul-americanos já classificados dão a dimensão do que espera os brasileiros: Independiente Rivadavia, Rosario Central, Coquimbo Unido e LDU completam o grupo dos confirmados. São nomes que carregam histórias próprias na competição — a LDU, por exemplo, foi campeã em 2008 e vice em 1990, com um modelo de jogo que historicamente incomoda times brasileiros acostumados a dominar posse de bola… e aí vem o problema.
O chaveamento que pode unir ou separar os rivais do Brasil
A regra do chaveamento da Libertadores nas oitavas é direta: líderes de grupo não enfrentam outros líderes na mesma chave, e times do mesmo país são separados sempre que possível. Isso significa que, se Palmeiras, Cruzeiro e Fluminense se classificarem, o sorteio vai trabalhar para evitar confrontos brasileiros nas oitavas — mas não há garantia absoluta caso o número de classificados do mesmo país ultrapasse o limite de separação possível. Segundo apuração do SportNavo, em edições anteriores com cinco ou mais brasileiros nas oitavas, o regulamento permitiu cruzamentos nacionais a partir das quartas, o que historicamente gerou as partidas mais assistidas da competição no país.
Aqui cabe uma analogia com o mundo da música: um festival bem curado evita colocar duas grandes atrações no mesmo horário no mesmo palco — mas quando os headliners são muitos, o conflito se torna inevitável. A Conmebol faz exatamente isso com o chaveamento, mas a grade tem limite. Com potencialmente seis brasileiros nas oitavas, algum confronto nacional pode aparecer mais cedo do que os torcedores gostariam.
Os confrontos das oitavas de ida estão programados para 11 a 13 de agosto, com as partidas de volta entre 18 e 20 de agosto — janela que só se abre após a Copa do Mundo. Esse intervalo longo entre o sorteio e o início do mata-mata é incomum na história recente da competição, e clubes que usarem bem esse período para ajustes táticos podem chegar às oitavas em condição muito diferente da que estão hoje.
O peso histórico do sorteio e o que ele revela sobre cada ciclo brasileiro
Quem acompanha a Libertadores desde os anos 1990 sabe que o sorteio das oitavas já definiu títulos antes mesmo de uma bola ser chutada. Em 1999, o Palmeiras do técnico Luiz Felipe Scolari caiu justamente para o Deportivo Cali nas oitavas — uma eliminação que ainda hoje é citada como exemplo de chaveamento cruel, com viagem longa, altitude e um adversário que nenhum modelo de favorito conseguia prever como ameaça real. Dois anos depois, em 2001, o Boca Juniors de Palermo e Riquelme chegou à final em parte porque o chaveamento o poupou dos rivais mais duros até as semifinais. Não é determinismo — é estrutura.

O Flamengo de 2019 e 2022 venceu a Libertadores com rotas distintas: em 2019, enfrentou o Emelec nas oitavas e só encontrou resistência real nas semifinais contra o Grêmio; em 2022, o caminho foi mais tortuoso desde cedo, com o Tolima e o Vélez Sársfield exigindo o máximo antes da final. A diferença entre os dois títulos não foi só talento — foi também o que o sorteio colocou no caminho. O Corinthians, campeão em 2012, teve no sorteio um aliado silencioso: evitou River Plate e Santos no mesmo lado da chave, cruzando com os rivais apenas na final. Detalhe que a memória coletiva tende a apagar, mas que os bastidores de cada clube nunca esquecem.
O Mirassol, nesse contexto, é o caso mais curioso. Clube do interior paulista que nunca havia disputado a fase de grupos da Libertadores, o time chega às oitavas com uma narrativa que lembra o Leicester City de 2015/2016 na Premier League — não em escala, mas na lógica da improbabilidade. O Leicester somou 81 pontos naquela temporada histórica e ninguém apostava nele antes do sorteio das rodadas finais. O Mirassol não vai ganhar a Libertadores, mas já reescreveu o que se espera de um clube do porte dele nessa competição.
O sorteio de 29 de maio em Luque vai transmitir ao vivo pelo canal do YouTube e TikTok da ESPN, além do Plano Premium do Disney+. Para os três brasileiros já classificados — e para os outros que podem confirmar vaga até 28 de maio —, o relógio já está contando. As oitavas de ida começam em 11 de agosto, e o adversário que sair da urna na próxima sexta-feira vai determinar se o caminho até a final de outubro passa por Luque, Lima ou Buenos Aires.










