O Flamengo vive mais um capítulo de sua crônica relação problemática com a retenção de jovens talentos. Ryan Roberto, atacante de 18 anos considerado uma das principais promessas da base rubro-negra, pode deixar o clube sem custo de transferência para o Shakhtar Donetsk, repetindo um padrão que já custou milhões ao Rubro-Negro nos últimos cinco anos.
Com contrato válido até março de 2027 e multa rescisória de 50 milhões de euros (R$ 293,43 milhões), Ryan enfrenta impasse nas negociações de renovação. O clube ucraniano monitora a situação e aguarda o desfecho das tratativas para oferecer pré-contrato ao jovem, estratégia que permitiria contratá-lo sem desembolso inicial no meio de 2025.
Padrão de perdas milionárias se repete
A situação de Ryan Roberto ecoa casos recentes que expõem a fragilidade do Flamengo em blindar suas joias. Reinier, hoje no Borussia Dortmund, deixou o clube em 2020 por apenas 30 milhões de euros para o Real Madrid, valor considerado baixo para um meio-campista que despontava como titular. O negócio incluiu apenas 5% de uma futura venda, percentual que se mostrou insuficiente diante da valorização do atleta no mercado europeu.
Matheus França representa outro exemplo da política equivocada de retenção. Vendido ao Crystal Palace por 18 milhões de libras em 2023, o ponta-direita havia renovado contrato meses antes, mas com cláusulas que facilitaram sua saída precoce. Segundo apuração do SportNavo, o Flamengo manteve apenas 15% dos direitos econômicos, perdendo controle sobre futuras negociações de um atleta que custou anos de investimento nas categorias de base.
João Gomes ilustra o outro extremo da equação. Vendido ao Wolverhampton por 15 milhões de euros em 2023, o volante de 22 anos já valia mais que o dobro no mercado inglês seis meses depois da transferência. A diferença entre o valor pago e o real potencial do jogador evidencia como o Flamengo subestimou o timing ideal para negociações mais vantajosas.
Shakhtar aproveita brecha contratual
O interesse do Shakhtar Donetsk em Ryan Roberto não surge por acaso. O clube ucraniano especializou-se em captar jovens talentos brasileiros em situações contratuais favoráveis, aproveitando brechas nas negociações entre atletas e clubes de origem. A estratégia permite investimentos menores em transferências e maior margem para desenvolvimento e revenda posterior.
Ryan destacou-se como um dos principais nomes do vice-campeonato da Libertadores Sub-20 de 2024 e já acumulou minutos no time profissional sob comando de Tite. Aos 18 anos, o atacante possui perfil técnico e físico que desperta interesse de clubes europeus, especialmente sua capacidade de finalização e movimentação na área.
A multa de 50 milhões de euros, embora alta em valores nominais, não representa obstáculo real para clubes dispostos a aguardar o fim do contrato. O Shakhtar calculou que seria mais vantajoso esperar a janela de pré-contrato do que negociar valores com o Flamengo, demonstrando como cláusulas mal estruturadas podem prejudicar o clube formador.
Política de base precisa ser repensada
A recorrência de situações similares expõe deficiências estruturais na gestão de contratos da base flamenguista. Enquanto clubes europeus investem em departamentos jurídicos especializados para blindar seus ativos, o Rubro-Negro ainda lida com renovações pontuais que deixam brechas para saídas prematuras.
Marcos Braz, vice-presidente de futebol, admitiu em entrevistas recentes que o clube precisa rever seus critérios de renovação com jovens atletas. A declaração veio após questionamentos sobre a demora em definir o futuro de Ryan Roberto, situação que se arrasta há meses sem resolução definitiva.
O levantamento do SportNavo mostra que o Flamengo perdeu aproximadamente 80 milhões de euros em potencial de vendas nos últimos três anos devido a negociações mal estruturadas ou saídas sem compensação adequada. Esse valor seria suficiente para financiar reformas completas no centro de treinamento e ampliar investimentos em captação de novos talentos.
O Flamengo tem até o final de dezembro para definir a renovação de Ryan Roberto ou correr o risco de perdê-lo gratuitamente para o Shakhtar em julho de 2025, quando o jogador poderá assinar pré-contrato com qualquer clube europeu.

