A manhã desta sexta-feira no Ninho do Urubu reproduziu um cenário que se tornou familiar nos últimos dois anos: presidente Luiz Eduardo Baptista reunindo o elenco após uma goleada sofrida, discursos duros da comissão técnica e promessas de reação imediata. A derrota por 3 a 0 para o Red Bull Bragantino ativou novamente o protocolo de crise que o Flamengo já implementou pelo menos quatro vezes desde 2024, sempre com resultados questionáveis a médio prazo.

O padrão se repete com precisão cirúrgica: após cada revés elástico, a diretoria convoca reuniões de emergência, Leonardo Jardim intensifica os treinamentos e os jogadores se comprometem publicamente com a mudança de postura. Porém, uma análise detalhada dos últimos 24 meses revela que essas medidas corretivas produziram apenas melhorias temporárias, seguidas invariavelmente por novas crises de desempenho.

Histórico de goleadas e reações: um padrão previsível desde 2024 Flamengo repete
Histórico de goleadas e reações: um padrão previsível desde 2024 Flamengo repete

Histórico de goleadas e reações: um padrão previsível desde 2024

Desde a chegada de Bap à presidência, o Flamengo sofreu seis goleadas de três ou mais gols de diferença, todas seguidas por reuniões similares à desta sexta-feira. A primeira ocorreu em março de 2024, quando perdeu por 4 a 1 para o Fluminense no clássico que definiu o Campeonato Carioca. Na ocasião, a diretoria também convocou uma reunião de emergência e prometeu mudanças estruturais que nunca se concretizaram completamente.

Em setembro do mesmo ano, nova goleada marcou o calendário rubro-negro: 3 a 0 para o Peñarol, no Uruguai, pela Libertadores. O episódio gerou a mesma sequência de eventos - cobrança direta dos dirigentes, discursos inflamados da comissão técnica e compromissos renovados do elenco. A resposta veio na partida seguinte, com vitória por 1 a 0 sobre o mesmo Peñarol no Maracanã, mas a classificação já estava comprometida.

O ciclo se repetiu outras três vezes em 2025: 4 a 2 para o Palmeiras pelo Brasileirão, 3 a 1 para o Liverpool na Florida Cup e 3 a 0 para o Atlético-MG na Copa do Brasil. Em todas as ocasiões, as medidas corretivas incluíram aumento da carga de treinamento, conversas individuais com jogadores específicos e redefinição de metas coletivas. Os resultados imediatos sempre foram positivos - o time venceu as duas partidas seguintes após cada crise - mas a estabilidade nunca se consolidou.

Números revelam eficácia limitada das medidas corretivas

Uma análise estatística dos períodos pós-crise revela dados preocupantes sobre a eficácia das intervenções da diretoria. Nos dez jogos seguintes a cada goleada sofrida, o Flamengo manteve aproveitamento médio de apenas 53%, conquistando 16 vitórias, 8 empates e 16 derrotas em 40 partidas. O número está significativamente abaixo do padrão histórico do clube, que costuma manter aproveitamento superior a 65% nas últimas duas décadas.

Mais revelador ainda é o comportamento específico contra equipes de menor expressão técnica. Após cada reunião de crise, o Flamengo enfrentou 22 times considerados teoricamente inferiores - incluindo clubes da Série B, equipes em zona de rebaixamento e adversários sul-americanos de menor tradição. Dessas 22 partidas, venceu apenas 12, perdeu 6 e empatou 4, aproveitamento de 54,5% que seria considerado medíocre para qualquer clube da elite nacional.

Leonardo Jardim, presente em quatro dessas seis crises analisadas, também apresenta números preocupantes em momentos de pressão. Nos últimos dois anos, o treinador português comandou a equipe em 89 jogos oficiais, com 48 vitórias, 22 empates e 19 derrotas - aproveitamento de 62,1%. Contra o Red Bull Bragantino especificamente, são apenas duas vitórias em seis confrontos, com dois empates e duas derrotas, incluindo a mais recente.

Comparativo geracional: Flamengo atual versus eras de estabilidade

Para dimensionar a atual instabilidade, vale contrastar com períodos de maior consistência na história recente do clube. Entre 2019 e 2021, sob comando de Jorge Jesus e posteriormente Rogério Ceni, o Flamengo sofreu apenas duas goleadas em três temporadas completas: 3 a 0 para o Independiente del Valle em 2019 e 4 a 0 para o Resende no Carioca de 2021. Em ambos os casos, as reações foram imediatas e sustentadas - o time não voltou a sofrer goleadas por períodos superiores a oito meses.

A diferença fundamental residia na estrutura de liderança interna. Jogadores como Diego, Éverton Ribeiro e Filipe Luís assumiam protagonismo nas conversas de vestiário, reduzindo a necessidade de intervenções constantes da diretoria. O atual elenco, renovado em mais de 70% desde 2022, ainda busca essas lideranças naturais - papel que nem Gerson, nem Arrascaeta, nem Bruno Henrique conseguiram assumir de forma definitiva.

Outro aspecto relevante é a mudança no perfil das goleadas sofridas. Entre 2019 e 2021, as derrotas elásticas ocorriam majoritariamente contra adversários tecnicamente superiores ou em contextos específicos - finais de campeonato, jogos com um a menos, partidas em altitude. Atualmente, o Flamengo tem sido goleado por equipes de nível técnico similar ou inferior, como Red Bull Bragantino, Atlético-MG em má fase e até mesmo o Liverpool americano em amistoso.

Perspectivas para a nova tentativa de reação

A reunião desta sexta-feira seguiu o roteiro já conhecido: Bap cobrou posicionamento dos atletas, Leonardo Jardim reforçou questões táticas e o grupo se comprometeu com mudanças de atitude. Porém, o histórico recente sugere cautela nas expectativas de transformação duradoura. As próximas três partidas - contra Volta Redonda, Nova Iguaçu e Boavista pelo Campeonato Carioca - serão cruciais para avaliar se desta vez a reação terá substância diferente.

O calendário favorece uma resposta positiva imediata, já que os três adversários ocupam posições intermediárias na tabela estadual e não representam o maior nível de dificuldade técnica. Historicamente, o Flamengo costuma reagir bem contra esse perfil de oponente nas primeiras partidas pós-crise. A questão central é se conseguirá manter a regularidade quando enfrentar adversários de maior qualidade técnica, cenário onde as falhas estruturais costumam se evidenciar novamente.

A análise dos últimos dois anos demonstra que o problema do Flamengo transcende questões pontuais de motivação ou empenho individual. As goleadas recorrentes e as reações temporárias apontam para questões estruturais mais profundas, que reuniões de emergência e discursos inflamados não conseguem resolver definitivamente. Apenas mudanças consistentes na preparação física, organização tática e, principalmente, na construção de lideranças internas sólidas poderão quebrar esse ciclo que se tornou preocupantemente previsível na trajetória recente do clube carioca.