8 de maio de 2026. Nessa quinta-feira, o Marca publicou o que muitos já suspeitavam nos corredores do futebol europeu: José Mourinho está encaminhado para assumir o Real Madrid ao fim da temporada, em uma terceira passagem que Florentino Pérez apresenta como solução, mas que a história recente do clube torna muito mais complexa do que parece.
A narrativa do bombeiro e o que os números escondem
A leitura que circula em Madrid é sedutora na sua simplicidade: o vestiário está em chamas — brigas entre Tchouaméni e Valverde, tensão aberta entre Mbappé e o técnico interino Álvaro Arbeloa — e Mourinho seria o único com autoridade moral para impor ordem nesse ambiente. Florentino Pérez, segundo o Marca, preferiu o português a Mauricio Pochettino e Didier Deschamps exatamente por esse perfil. O problema com essa narrativa é que ela ignora um dado incômodo: Mourinho está há quase dez temporadas sem conquistar um título relevante.
Depois do Manchester United, entre 2016 e 2018, o treinador passou por Tottenham, Roma, Fenerbahçe e agora comanda o Benfica em Lisboa. No clube português, liderou uma campanha mediana na Champions League — embora marcada por uma virada espetacular contra o próprio Real Madrid, na Luz, com um gol do goleiro Trubin no último minuto, garantindo a classificação aos playoffs. Mas o Campeonato Português já tem campeão, e é o Porto, com dois jogos ainda por disputar. O Benfica, único invicto em 33 partidas, acumulou 11 empates que custaram o título. Não perder não é o mesmo que vencer — e essa distinção importa muito quando se fala em reconstruir um Real Madrid que aspira à hegemonia europeia.
Segundo o Marca, o acordo só não será fechado se houver alguma mudança drástica nos próximos dias, com Mourinho participando ativamente da reformulação do elenco merengue.
Mourinho será o quarto técnico do Real Madrid em menos de um ano
Há uma cena em Succession — a série da HBO sobre poder e sucessão disfuncional — em que um personagem diz que a empresa não precisa de um líder melhor, mas de uma estrutura diferente. O Real Madrid de Florentino parece recusar essa lição. Carlo Ancelotti saiu, Xabi Alonso passou, Arbeloa assumiu o interinato, e agora Mourinho entra como quarta escolha em menos de doze meses. A rotatividade por si só já é um sintoma: nenhum treinador resolve um problema que é, em essência, de gestão de elenco e política interna.
A primeira passagem de Mourinho pelo clube, entre 2010 e 2013, foi marcada por uma relação tensa com jogadores como Casillas e Sergio Ramos, além do desgaste progressivo com a imprensa madrilenha. Ele ganhou uma La Liga e uma Copa del Rey, mas saiu pela porta dos fundos, com a relação com o vestiário irreparavelmente comprometida. Agora, o elenco tem nomes como Mbappé — que já demonstrou publicamente desconforto com a gestão técnica — e o clima descrito pelo Marca como um "barril de pólvora". Trazer Mourinho para esse ambiente é uma aposta de alto risco, não uma solução estrutural.

Nas palavras do próprio Marca, Pérez acredita que o perfil de Mourinho é o mais adequado para lidar com o "barril de pólvora" que se tornou o vestiário merengue — uma avaliação que, ao mesmo tempo, revela a profundidade do problema.
O que uma terceira passagem exigiria para funcionar
Quando Mourinho chegou ao Real Madrid pela primeira vez, em 2010, tinha à disposição uma nova geração de galácticos, com Cristiano Ronaldo e Kaká como referências ofensivas. O contexto atual é radicalmente diferente: Mbappé ainda busca consistência na Liga espanhola, e o clube atravessa uma das temporadas mais decepcionantes da última década, com a troca de quatro treinadores servindo de termômetro. O português precisaria não apenas de autoridade no vestiário, mas de respaldo real de Florentino nas decisões de mercado — algo que historicamente foi fonte de conflito entre os dois.
A reformulação do elenco, prevista para acontecer em paralelo à chegada do treinador, é a variável mais importante dessa equação. Mourinho tem clareza tática e capacidade de impor um pressing alto eficiente quando conta com os jogadores certos — algo que ficou evidente em suas melhores temporadas no Inter de Milão e no Chelsea. Mas sem contratações cirúrgicas e sem uma gestão de conflitos que vá além do estilo intimidador que o caracteriza, a terceira passagem corre o risco de repetir os erros das anteriores, só que em velocidade acelerada.
A confirmação oficial do acordo deve vir apenas após o encerramento da temporada europeia, quando Mourinho também definirá seu futuro no Benfica — clube que, apesar do vice-campeonato português, termina o ciclo com a reputação de invicto, mas sem troféu. Para quem quiser entender como essa história vai começar, o primeiro jogo oficial de Mourinho como técnico do Real Madrid na próxima temporada já é um evento que vale marcar na agenda.









