O gramado do centro de treinamento de Columbia Park, em Nova Jersey, guardou neste domingo um momento que o futebol brasileiro esperava há semanas. Neymar treinou com o restante do elenco pela primeira vez desde que chegou à Copa — um passo concreto, mensurável, que muda os cálculos de Carlo Ancelotti para a partida contra a Escócia, na quarta-feira, dia 24, em Miami. O atacante de 34 anos não atua há mais de 30 dias, desde a derrota do Santos para o Coritiba em 17 de maio, quando sofreu a lesão na panturrilha direita. Agora, com dois dias de margem, Ancelotti precisa decidir quanto desse Neymar é suficiente para escalar.
A recuperação de Neymar e o que o treino de domingo revelou
O quadro clínico é de evolução, não de liberação total. Em alguns exercícios de maior intensidade, Neymar ainda realiza movimentos mais leves e controlados ou se afasta temporariamente do grupo para retornar em seguida. A CBF não trata isso como alarme — e tem razão em contextualizar. No mesmo treino de domingo, sete jogadores considerados titulares foram diretamente para a academia e não iniciaram as atividades no campo: Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Douglas Santos, Casemiro, Bruno Guimarães e Matheus Cunha. Dos onze que entraram contra o Haiti, apenas Alisson, Paquetá e Vini Jr. participaram da atividade completa.

O histórico físico de Neymar, contudo, exige uma leitura diferente da que se aplica a outros atletas. Desde a ruptura do ligamento cruzado do joelho direito sofrida na Copa de 2014, contra a Colômbia — lesão que o tirou da semifinal histórica do 7 a 1 — o jogador acumulou rupturas de metatarso em 2018 e 2019, tornozelo em 2023 e agora a panturrilha aos 34 anos. Não existe mais margem para gestão de riscos baseada em otimismo.
Neymar não sente dores há praticamente duas semanas e tem realizado trabalhos combinados de força, explosão, agilidade e resistência em dois e até três períodos diários. A trajetória é positiva. Mas o salto de treinos controlados para 90 minutos em ritmo de Copa do Mundo é o tipo de aposta que pode custar caro — e Ancelotti sabe disso.

Ancelotti e o papel centralizado que muda toda a lógica do ataque
O técnico italiano foi direto quando perguntado sobre onde usaria Neymar. "Punta ou meia punta" — centroavante ou ponta-de-lança centralizado. Não é a posição que o Brasil usou contra o Haiti, onde a largura do ataque dependia de Raphinha pelo lado direito. Com Raphinha fora por lesão, o tabuleiro tático mudou, e a entrada de Neymar não resolve o problema da ponta-direita — cria uma função nova no sistema.
Essa reconfiguração tem precedente histórico dentro do próprio ciclo brasileiro. Em 2002, Luiz Felipe Scolari usou Ronaldo como referência central com Ronaldinho e Rivaldo atuando mais próximos do eixo, e o Brasil levantou a taça no Japão com cinco vitórias em cinco jogos. A diferença é que Ronaldo chegou àquela Copa com ritmo de jogo — havia marcado 23 gols pelo Inter de Milão na temporada 2001/2002. Neymar chega sem minutos competitivos desde maio.
"São pequenos detalhes para escolher um ou outro jogador como substituto", disse Carlo Ancelotti após a vitória sobre o Haiti, na Filadélfia.
A frase do treinador resume a disputa pela vaga de Raphinha na ponta-direita, onde Rayan aparece como favorito por oferecer profundidade e drible em direção à linha de fundo — característica que Ancelotti busca para abrir o espaço e criar o duelo com Robertson, lateral do Liverpool. Luiz Henrique, Endrick e Martinelli completam as opções, cada um com vantagens e limitações táticas específicas. Neymar, nesse contexto, não concorre à ponta-direita — concorre a uma função própria no centro do ataque.
O que está em jogo além da Escócia — logística, liderança e a psicóloga que virou peça do grupo
Terminar em primeiro ou segundo lugar no Grupo C não é apenas questão de moral. Como apurado e registrado por SportNavo, o Brasil já garantiu a classificação, mas a liderança define toda a estrutura logística da fase eliminatória. Se avançar em segundo, a seleção praticamente abandona sua base em Basking Ridge, Nova Jersey, e passa a ser uma equipe itinerante: Monterrey, Houston, Boston e possivelmente Dallas, sem retorno à concentração entre os jogos.
Se terminar em primeiro, o primeiro jogo eliminatório seria em Houston, com possibilidade de retorno a Nova Jersey. As quartas de final também seriam disputadas no estado que abriga a base da delegação. A comissão técnica escolheu Basking Ridge justamente para oferecer estabilidade — integrantes da CBF viajaram ao local logo após o sorteio para garantir a reserva do hotel e do centro de treinamento do Red Bull. Abrir mão disso nas oitavas de final teria impacto direto na rotina de recuperação e preparação.
Outro elemento que ganhou espaço nesta Copa é Marisa Santiago, psicóloga incorporada à delegação brasileira. Sua presença tem gerado elogios do próprio Ancelotti e representa uma mudança de postura institucional relevante — durante anos, o suporte psicológico foi tratado como tabu no futebol brasileiro. Num grupo que carrega o peso do hexacampeonato e que tem em Neymar uma figura de pressão histórica, o trabalho de Santiago não é detalhe.
A Holanda aparece como provável adversária nas oitavas caso o Brasil termine em segundo — um confronto que remete à semifinal de 2010, quando a seleção de Dunga foi eliminada por 2 a 1 em Port Elizabeth, com gols de Sneijder e Robben. Evitar esse caminho começa na quarta-feira, contra a Escócia, em Miami, às 22h (horário de Brasília). A decisão sobre Neymar define não apenas a escalação — define o tipo de Copa que o Brasil quer jogar.








