Todo mundo já sabe que Sadio Mané vai sair do Liverpool. O que pouca gente parou para calcular é o tamanho real do buraco que ele deixa — e aí vem o problema.

O atacante senegalês, nascido em Bambali em 10 de abril de 1992, está em Anfield desde 2016 e acumula mais de 100 gols com a camisa vermelha. Segundo o The Guardian, ele comunicou ao clube sua decisão de partir na próxima janela de transferências europeia, que abre em julho. O Bayern de Munique já se reuniu com os agentes do jogador e prepara sua terceira proposta formal — a mais recente, segundo o Bild, na casa de 34,6 milhões de libras. O Liverpool quer pelo menos 42 milhões. A diferença entre as duas cifras é de 7,4 milhões de libras — o equivalente, proporcionalmente, à distância entre Recife e São Paulo: não é nada quando você olha no mapa, mas muda tudo quando você precisa cruzar.

O que Mané representa em xG e ações ofensivas

Para entender o impacto real da saída, precisa ir além dos gols. Mané foi, nas últimas temporadas, um dos atacantes com maior volume de progressive passes recebidos no terço final do campo — ou seja, ele era destino constante de bolas que avançavam o jogo. Isso importa porque o Liverpool de Klopp opera em transições velozes, e Mané era o gatilho esquerdo desse sistema.

Olhando para os números de xG (expected goals — a métrica que mede a qualidade das chances criadas com base na posição e no tipo de finalização), Mané consistentemente superava sua marca esperada, o que indica eficiência acima da média. Jogadores que ficam abaixo do próprio xG geralmente estão desperdiçando oportunidades que o sistema gerou — Mané fazia o oposto.

  • xG acumulado por 90 minutos nas últimas temporadas: Mané figurava entre os cinco atacantes mais eficientes da Premier League nessa métrica
  • Defensive actions: diferente de muitos atacantes de alto nível, Mané tinha alto índice de pressão defensiva — o Liverpool usava ele como primeiro marcador no campo adversário, o que reflete no PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do time inteiro
  • xA (expected assists): mesmo não sendo o principal criador, ele gerava situações de gol para Salah e Firmino com regularidade, especialmente em jogadas de dois toques na área

PPDA, para quem ainda não conhece a métrica: é a razão entre os passes que o adversário consegue completar e as ações defensivas do seu time. Quanto menor o número, mais agressiva é a pressão. O Liverpool de Klopp é historicamente um dos times com menor PPDA da Europa — e Mané era parte estrutural disso.

Darwin Núñez e Luis Díaz já estão no elenco, mas o perfil é diferente

O Liverpool não chegou nessa situação sem um plano B desenhado. Luis Díaz, contratado do Porto em janeiro de 2022, já ocupa a ponta esquerda com características parecidas — velocidade, drible em espaço reduzido e capacidade de pressionar a saída de bola adversária. O colombiano tem números de progressive passes recebidos próximos aos de Mané, mas ainda constrói repertório na Premier League.

Darwin Núñez, uruguaio do Benfica, é o nome mais associado à vaga de reposição direta. Diferente de Mané, Núñez é um centroavante de referência — mais físico, mais área, menos mobilidade lateral. Isso muda o desenho tático do ataque. Klopp teria que adaptar o esquema: ou usar Díaz e Núñez juntos e abrir mão da fluidez que Mané proporcionava, ou manter a estrutura de três pontas e encaixar Núñez como referência central no lugar de Firmino…

"O Liverpool vai querer muito mais que os 30 milhões de libras especulados na imprensa europeia", informou o The Guardian, deixando claro que o clube inglês não vai facilitar a negociação com o Bayern.

A condição que o Liverpool impôs ao Bayern de Munique

A postura do Liverpool é clara: Mané só sai depois que o substituto estiver contratado. Essa condição, confirmada pelo The Guardian, complica a linha do tempo da negociação com o Bayern. Os bávaros querem fechar rápido — o clube alemão já se reuniu com os agentes do senegalês e está confiante de que o Liverpool cederá, já que o contrato de Mané se encerra em 2023, o que reduz o poder de barganha dos Reds conforme o tempo passa.

Mas o Liverpool tem histórico de não se apressar em janelas. Klopp e o diretor esportivo Michael Edwards (que deixou o clube, mas cuja filosofia permanece) sempre preferiram pagar mais por um jogador certo do que fechar rápido com alguém de perfil errado. A contratação de Díaz em janeiro foi exatamente isso: movimento antecipado para não ficar refém da janela de verão.

Além de Mané, o Liverpool também deve perder Divock Origi, que está próximo de fechar com o Milan. A situação de Mohamed Salah, cujo contrato também vence em junho de 2023, ainda precisa ser resolvida — mas o egípcio já sinalizou que quer ficar em Anfield, ao contrário do senegalês.

O que os números dizem sobre o ataque do Liverpool sem Mané

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre o ataque dos Reds, já apontamos que o Liverpool perde em volume de finalizações quando um dos três atacantes titulares é substituído por alguém menos integrado ao sistema de pressão alta. Com Mané fora, a questão não é só quem marca os gols — é quem mantém o PPDA baixo e quem garante as defensive actions no campo adversário.

Díaz tem potencial para isso. Núñez, pelo perfil, menos. Se o Liverpool optar por um terceiro nome no mercado — e os rumores apontam para Raphinha, do Barcelona, e para Carvalho, da própria base — o encaixe tático vai depender de quanto tempo Klopp tem para trabalhar o novo sistema antes do início da temporada 2022/23, com o Liverpool estreando na Premier League no primeiro fim de semana de agosto.