Gabriel Barbosa não consegue esconder o peso emocional que representa vestir outra camisa no Maracanã para enfrentar o Flamengo. O atacante do Santos, de 28 anos, admitiu publicamente a dificuldade de jogar contra o clube que o transformou em ídolo nacional entre 2019 e 2024. "Não me sinto à vontade de jogar contra o Flamengo. Ainda mais no Maracanã", declarou o camisa 10 santista, que soma 12 gols em 28 partidas na temporada 2026.
O Maracanã como palco de glórias rubro-negras
Para compreender a dimensão do dilema vivido por Gabigol, é necessário revisitar sua trajetória no estádio da Gávea. Entre 2019 e 2023, o atacante disputou 84 partidas no Maracanã vestindo a camisa flamenguista, com aproveitamento de 71% de vitórias. Foram 34 gols marcados no estádio, incluindo os dois tentos históricos na final da Libertadores de 2019 contra o River Plate - lance que o eternizou na memória rubro-negra.
Os números no Maracanã refletem a grandeza de sua passagem pelo Flamengo: 86 gols em 226 jogos oficiais, com média de 0,38 por partida. No estádio carioca especificamente, sua média subia para 0,40 gols por jogo, demonstrando como o ambiente familiar potencializava seu rendimento. A torcida do Flamengo presenciou ali conquistas do Brasileirão 2019 e 2020, da Copa do Brasil 2022 e das históricas Libertadores 2019 e 2022.
O conflito emocional de um ídolo em território hostil
A situação de Gabigol encontra paralelo na história do futebol brasileiro com casos emblemáticos. Ronaldinho Gaúcho enfrentou dilema similar quando defendeu o Flamengo contra o Grêmio no Olímpico em 2011, assim como Kaká ao voltar ao Brasil pelo São Paulo e enfrentar o Milan em amistosos. A diferença reside na intensidade da identificação: Gabigol não apenas jogou pelo Flamengo, mas se tornou símbolo de uma das eras mais vitoriosas da história clube.
O Santos chega ao confronto na 15ª posição do Brasileirão 2026, com 18 pontos em 18 jogos, buscando se afastar definitivamente da zona de rebaixamento. O time de Fábio Carille não vence no Maracanã desde setembro de 2019, quando superou o Flamengo por 2 a 1 com gols de Carlos Sánchez e Marinho. Desde então, são seis derrotas consecutivas no estádio carioca, com saldo de 3 gols marcados contra 14 sofridos.
"Quando a bola rola, eu quero vencer", reforçou Gabigol, evidenciando o profissionalismo que o caracteriza. Contudo, a declaração revela a humanidade por trás do atleta de elite. A psicologia esportiva reconhece que vínculos emocionais intensos podem impactar o rendimento, especialmente em ambientes carregados de simbolismo como o Maracanã para um ex-ídolo flamenguista.
Entre o coração rubro-negro e o compromisso santista
O Flamengo de 2026, líder do Brasileirão com 42 pontos em 18 jogos, apresenta números impressionantes: 67% de aproveitamento, 38 gols marcados e apenas 12 sofridos. No Maracanã, o time de Tite mantém invencibilidade de 11 jogos, com nove vitórias e dois empates. O retrospecto recente contra o Santos é ainda mais favorável: cinco vitórias consecutivas, incluindo o 4 a 1 de abril passado pela Copa do Brasil.

Para Gabigol, que marcou 23 gols contra o Santos ao longo da carreira - sendo 11 pelo Flamengo -, o confronto representa um teste de maturidade profissional. Aos 28 anos, o atacante vive momento de reconstrução após temporada irregular em 2025, quando balançou as redes apenas 18 vezes em 47 partidas pelo Rubro-Negro.
A expectativa é que a torcida flamenguista receba o ex-ídolo com misto de carinho e cobrança. Historicamente, o Maracanã costuma aplaudir grandes nomes que marcaram época, como aconteceu com Zico em retornos esporádicos e com Ronaldinho em sua despedida em 2015. Porém, o caso de Gabigol possui particularidades: a saída conturbada do clube e o atual momento de rivalidade em campo.
O atacante já experimentou sensação similar defendendo o Cruzeiro contra o Flamengo em 2023, quando foi vaiado no Maracanã e teve atuação discreta na vitória rubro-negra por 3 a 0. Agora, pelo Santos, carrega a responsabilidade de ajudar o time a somar pontos preciosos na luta contra o rebaixamento, enquanto lida com o peso emocional de enfrentar o clube do coração.
O duelo deste domingo representa mais que três pontos em disputa. Para Gabigol, será o reencontro definitivo com seu passado glorioso, testando sua capacidade de separar sentimentos pessoais da missão profissional. O Maracanã, que por cinco anos foi sua casa, agora se apresenta como território a ser conquistado vestindo cores diferentes. A maturidade do atacante será medida não apenas pelos gols que possa marcar, mas pela serenidade para jogar onde um dia foi rei.

