Diz-se que zagueiro eficiente precisa, acima de tudo, de centímetros — que a altura é o primeiro filtro pelo qual a posição se define no futebol sul-americano. Na verdade, não é bem assim — e o caso de Gastón Américo Benavídez é o argumento mais concreto contra essa premissa no Brasileirão desta temporada.

Onde ele está no jogo global

Benavídez tem 175 cm e 72 kg — medidas que, em qualquer manual tático clássico, desqualificariam um zagueiro antes mesmo do primeiro treino. Nascido em 23 de outubro de 1995 em Morteros, cidade do interior da província de Córdoba, na Argentina, ele chegou ao Athletico PR carregando um percurso construído longe dos holofotes e, justamente por isso, mais sólido do que parece à primeira vista. Aos 30 anos, veste a camisa 29 do Furacão e acumula, na temporada 2026 da Série A, 19 partidas disputadas, com 1 gol marcado e 2 assistências distribuídas — números que, para um defensor central, dizem muito sobre o modelo de jogo que o clube curitibano lhe exige.

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Gastón Américo Benavídez (Athletico PR)
Gastón Américo Benavídez (Athletico PR)

O percurso que o trouxe ao Brasil passou por três clubes argentinos de perfis distintos: Arsenal de Sarandí, Estudiantes de Río Cuarto e Talleres de Córdoba. Cada uma dessas passagens corresponde a uma fase diferente da formação do jogador — e é possível enxergar, nessa sequência, uma curva de crescimento que não foi linear, mas foi consistente.

O que os números dizem na comparação

Seria injusto chamar de era o período que Benavídez viveu em Talleres — mas foi uma era em escala doméstica, o tipo de ciclo que define carreiras. Entre 2022 e 2024, o zagueiro acumulou participações na CONMEBOL Libertadores e na Copa Argentina, além de disputar com regularidade a Liga Profesional Argentina. Em 2024, foram 39 jogos pelo campeonato nacional, com 3 gols e 5 assistências — desempenho que rendeu nota média de 7,21 na plataforma especializada, acima do padrão esperado para a posição. Em 2023, manteve volume semelhante: 40 partidas e 4 assistências. Em 2022, contribuiu com 2 assistências em 26 jogos pelo campeonato, além de dez partidas pela Libertadores.

Para contextualizar: zagueiros que participam de competições continentais pela Libertadores e ao mesmo tempo figuram como distribuidores consistentes de assistências dentro de um ciclo de três temporadas representam um perfil relativamente raro no mercado sul-americano. A maioria dos defensores centrais que cruzam o Atlântico rumo ao Brasileirão chega com histórico predominantemente defensivo, sem essa dimensão de construção ofensiva. Benavídez, ao menos nos dados disponíveis, destoa desse padrão.

Onde ele se distingue dos rivais

O debate sobre o perfil físico de Benavídez não é decorativo. Em um Brasileirão marcado por jogadas aéreas e disputas de força, um zagueiro de 175 cm precisa compensar com outras qualidades — leitura de jogo, posicionamento, capacidade de iniciar jogadas com os pés. A passagem pelo Arsenal de Sarandí, clube que historicamente valoriza a organização tática sobre o poder físico, pode ter sido determinante nessa formação. Lá, em 2021, foram 21 jogos pela Liga Profesional e mais 8 pela CONMEBOL Sudamericana, competição em que anotou 1 assistência e manteve média de 7,14 — número que, em uma competição continental, não é trivial para um defensor.

No Athletico PR de 2026, Benavídez ocupa a camisa 29 e já ultrapassou a barreira das 19 partidas na Série A — marca que, somada ao gol e às duas assistências, coloca-o entre os defensores mais participativos do elenco. O Furacão, clube com longa tradição em revelar e valorizar jogadores de perfil técnico na defesa, parece ter encontrado no argentino um elemento que se encaixa no modelo de construção desde a saída de bola que o clube tem buscado nas últimas temporadas, segundo análises táticas publicadas na imprensa especializada, compiladas em matéria do SportNavo.

A trajetória que aponta o teto

A questão mais relevante sobre Benavídez não é o que ele fez, mas o que ele ainda pode fazer. Aos 30 anos, um zagueiro sul-americano que atravessa o Atlântico em direção ao Brasil geralmente está em um dos dois extremos: ou já passou do seu melhor momento e busca um ciclo final de carreira, ou chegou a um patamar de maturidade que lhe permite render de forma consistente por mais quatro ou cinco temporadas.

Os dados disponíveis sugerem que Benavídez está mais próximo do segundo cenário. Sua evolução em Talleres — de um defensor discreto em 2022 para um dos mais participativos do elenco em 2024 — indica que o pico de rendimento pode coincidir justamente com este momento de chegada ao Brasil. A Série A, competição de altíssima intensidade física e taticamente diversa, será o teste definitivo dessa hipótese.

O que os próximos doze meses reservam para ele depende de variáveis que os números ainda não respondem: como o Furacão evoluirá taticamente, quais adversários vai enfrentar nas fases eliminatórias das competições nacionais e se o argentino conseguirá manter o nível de participação ofensiva que caracterizou suas temporadas mais maduras na Argentina. O que já está fixado, e que nenhuma hipótese muda, é o ponto de partida desta nova fase: 30 anos, 19 jogos, e uma temporada inteira ainda aberta.