— Você ouviu? O Geovani morreu.
— Qual Geovani?
— O Pequeno Príncipe, cara. O camisa 8 do Vasco.

A notícia correu pelas redes sociais na madrugada desta segunda-feira, 18 de maio de 2026. Geovani Silva, um dos maiores meias da história do Vasco da Gama, morreu aos 62 anos após sofrer uma parada cardíaca em Vila Velha, no Espírito Santo. Ele passou mal de forma repentina durante a madrugada, foi socorrido e levado ao Hospital Praia da Costa, mas não resistiu às tentativas de reanimação. A morte foi confirmada por familiares nas redes sociais.

Vinte anos de batalha contra tumor e coração frágil

A luta de Geovani com a saúde começou em 2006, quando recebeu o diagnóstico de polineuropatia — disfunção simultânea de vários nervos periféricos — associada a um tumor vertebral. A condição comprometeu progressivamente sua locomoção, deixando-o com sérias dificuldades de movimentação nos anos seguintes.

Em 2022, o ex-jogador ficou internado por cerca de 20 dias por complicações cardíacas. Dois anos depois, em 2024, retornou ao hospital por desidratação severa causada por inflamação e infecção no intestino. Em agosto de 2025, nova parada cardíaca o levou às pressas ao Hospital Praia da Costa, em Vila Velha, na Grande Vitória, com posterior transferência para outro centro médico particular da região.

A sequência de internações ao longo de quase duas décadas traça uma linha que vai do tumor na coluna ao colapso cardíaco final — uma distância tão longa quanto a que separa Vitória de São Paulo em sofrimento acumulado.

408 jogos e cinco títulos que definiram uma geração no Vasco

Nascido em Vitória, Geovani foi revelado pela Desportiva Ferroviária e chegou ao Vasco em 1982. Nas três passagens pelo clube, somou 408 jogos e 49 gols, além de cinco Campeonatos Cariocas — em 1982, 1987, 1988, 1992 e 1993. Atuou por 12 anos em São Januário, entre 1983 e 1995, jogando ao lado de Roberto Dinamite e Romário em uma das gerações mais talentosas da história cruz-maltina.

O estilo era inconfundível: corria pouco, jogava de cabeça erguida, distribuía lançamentos milimétricos e executava dribles de alta precisão técnica. Era o arquétipo do meia armador clássico, categoria em extinção no futebol moderno.

Na seleção brasileira, o currículo também impressiona. Foi artilheiro do Mundial Sub-20 de 1983, com seis gols, e marcou o gol do título na final contra a Argentina. Em 1988, integrou a equipe que conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Seul — ao lado de Taffarel, Romário e Bebeto, derrotada pela União Soviética na final. Em 1989, fez parte do elenco campeão da Copa América disputada no Brasil, embora nunca tenha disputado uma Copa do Mundo.

Fora dos gramados, seguiu carreira política e foi deputado estadual pelo Espírito Santo entre 2002 e 2006 — exatamente o mesmo ano em que recebeu o diagnóstico que mudaria o restante de sua vida.

A homenagem de 21 mil torcedores que o ídolo ainda pôde receber em vida

Em fevereiro de 2025, o Vasco organizou uma cerimônia oficial no estádio Kleber Andrade, em Cariacica, no Espírito Santo — terra natal de Geovani. Diante de 21.626 torcedores, o presidente do clube, Pedrinho, entregou pessoalmente ao ídolo o título de lenda cruz-maltina.

"Ele é um patrimônio para todos nós. O famoso 'Pequeno Príncipe' que na minha infância tive oportunidade de chegar dos treinos e ver o profissional treinando ali, com Geovani no campo. E quando eu subo pro profissional ainda pego um pouquinho dele comigo lá. É um ídolo pra gente. Está na história do Vasco, um dos maiores camisas 8 que tivemos e é conhecido como Pequeno Príncipe de forma muito merecida", declarou Pedrinho durante a cerimônia.

A escolha do Kleber Andrade não foi casual. Realizar a homenagem no estado onde Geovani nasceu e viveu seus últimos anos foi um gesto deliberado do clube para aproximar o ídolo de sua terra e de sua história pessoal. O SportNavo apurou que a cerimônia foi uma das mais emocionantes realizadas pelo Vasco fora do Rio de Janeiro nos últimos anos, reunindo familiares, ex-companheiros de clube e torcedores que viajaram do Rio especialmente para o evento.

O legado que fica e o velório marcado para esta terça

Geovani deixa três filhos. O corpo será velado nesta terça-feira, 19, em Vila Velha, com sepultamento previsto no Parque da Paz, no mesmo município onde o ex-jogador viveu seus últimos anos.

O impacto de sua carreira ultrapassa os números. Geovani também passou pelo futebol italiano, com uma passagem pelo Bologna, antes de encerrar a carreira em clubes capixabas — Rio Branco, Desportiva, Serra, Tupy e Vilavelhense. Mesmo no fim da trajetória esportiva, permaneceu ligado ao futebol de seu estado natal.

A morte abre um debate que o futebol brasileiro ainda não resolveu: o que acontece com os ídolos quando param de jogar? Geovani passou os últimos 20 anos lutando contra um tumor vertebral, internações recorrentes e um coração que precisou ser reanimado mais de uma vez. A homenagem de fevereiro de 2025 foi bonita — e necessária — justamente porque veio enquanto ele ainda estava vivo para recebê-la.

O Campeonato Carioca de 2026 segue em andamento, e o Vasco deve prestar homenagens oficiais ao ídolo no próximo jogo do clube em São Januário, cuja data ainda não foi confirmada pela diretoria até o fechamento desta reportagem. A nota oficial do clube com os detalhes da homenagem póstuma está prevista para ser divulgada até quarta-feira, 20 de maio.