Segunda-feira, 16 de junho de 2026. O ônibus da seleção iraniana deixa o SoFi Stadium às 23h47 — não em direção a um hotel em Los Angeles, mas rumo à fronteira com o México. Dentro do veículo, jogadores que acabaram de arrancar um empate por 2 a 2 com a Nova Zelândia na estreia da Copa do Mundo tentam dormir entre os assentos, enquanto o técnico Amir Ghalenoei ainda ferve por dentro depois de uma cena que nenhum treinador de Copa já viveu antes.
O calor de Los Angeles ainda pesa no ar quando a notícia chega: Mehdi Taremi, capitão e maior estrela do Irã, está retido no aeroporto. Problema de visto. Sem explicação oficial. O atacante que minutos antes havia comandado a reação iraniana em campo agora espera numa sala de imigração, longe do grupo, enquanto o Departamento de Estado americano e a Fifa permanecem em silêncio.
O que aconteceu antes do apito inicial
A crise não começou na noite do jogo. Ela foi construída semana a semana, visto a visto. A delegação iraniana recebeu autorização para entrar nos Estados Unidos apenas dez dias antes da estreia — tempo insuficiente, segundo Ghalenoei, para adaptar o elenco ao fuso horário americano, que tem 12 horas de diferença em relação a Teerã. O treinador havia pedido pelo menos duas semanas de antecedência. Não foi concedido.
Quinze membros da comissão técnica e administrativa foram simplesmente barrados pelo governo Trump. O presidente da federação iraniana não está nos EUA. O gerente da equipe, não está. O assessor de imprensa, tampouco. Funções que deveriam ser responsabilidade da diretoria recaíram sobre a comissão técnica — que, ao mesmo tempo, precisava preparar a equipe para enfrentar Nova Zelândia, Bélgica e Egito.
Sem poder pernoitar em território americano.
A base de treinamento ficou em Tijuana, cidade mexicana que faz fronteira com San Diego. A logística virou um exercício de resistência: entrar nos EUA na véspera do jogo, competir, e sair imediatamente depois. Os treinos que estavam programados para o Arizona foram transferidos para o México após o início do conflito militar entre EUA, Israel e Irã. Nenhuma outra seleção das 48 que disputam este Mundial enfrenta restrições remotamente parecidas.
Ghalenoei na frente de Infantino
A cena mais simbólica desta história aconteceu no vestiário do SoFi Stadium, logo após o apito final. Gianni Infantino, presidente da Fifa, entrou para manifestar apoio à delegação — e encontrou um técnico com muito mais a dizer do que agradecimentos. Ghalenoei discursou em persa, com tradução simultânea para o inglês, para que Infantino e o ex-jogador francês Youri Djorkaeff, também presente, entendessem cada palavra.
"Eu sei o quanto foi difícil para estarmos aqui. Somos o time mais agredido na Copa do Mundo por causa das condições e do efeito que criaram para nós. Isso é uma injustiça. Precisávamos ter vindo para cá com pelo menos duas semanas de antecedência, mas eles tiraram isso de nós. Eles não queriam nem que nós viéssemos para cá", disse Ghalenoei diante do presidente da Fifa.
O técnico não parou por aí. Lembrou que o planejamento da equipe é feito em Tijuana, mas que as decisões reais — quando entrar, quando sair, onde treinar — são tomadas em Washington. E cobrou da entidade máxima do futebol mundial uma postura mais firme.

"Aprendemos com você que o futebol é um lugar para a humanidade, é um lugar para se divertir, mas o anfitrião nos tirou a humanidade e a alegria. Eu espero que a Fifa aja com um pouco mais de força para que o time não seja mais oprimido e desrespeitado", completou.
Taremi, do lado de fora do vestiário, usou uma palavra só para descrever a situação: "desastre". E pediu diretamente à Fifa mais proteção. "Acho que a Fifa precisa nos ajudar mais do que isso", disse o capitão, que ainda estava tentando resolver sua situação no aeroporto enquanto os companheiros cruzavam a fronteira de volta ao México.
O custo esportivo de uma guerra nos bastidores
Ghalenoei foi preciso ao apontar o impacto técnico de tudo isso. Uma equipe que viajou 21 horas de voo desde o Irã, que precisa adaptar o corpo a 12 horas de fuso horário e que, mesmo assim, não pôde chegar com antecedência suficiente para aclimatizar. Após o jogo contra a Nova Zelândia, em vez de uma noite de recuperação em Los Angeles, os atletas embarcaram imediatamente de volta a Tijuana. Sono fragmentado, rotina destruída, foco dividido entre o campo e a burocracia.
Apesar de tudo, o Irã foi ao intervalo perdendo por 1 a 0, virou para 1 a 1, tomou o segundo gol e arrancou o empate em 2 a 2 nos minutos finais. Ghalenoei elogiou a entrega do grupo: "Nossos jogadores atuaram com o coração. Foi um dos jogos mais bonitos desta primeira rodada." Mas o técnico sabe que jogar no limite emocional e físico não é estratégia sustentável por três rodadas.
Em matéria do SportNavo publicada antes da estreia, já havia sinais de que a participação iraniana seria marcada por obstáculos fora do gramado. O que ninguém previu foi a dimensão do que se revelou na madrugada de segunda-feira — um capitão retido no aeroporto, um membro da delegação com visto expirado para uma única entrada, e um técnico discursando em persa para o presidente da Fifa dentro de um vestiário de Copa do Mundo.
O Irã volta a campo neste domingo, 21 de junho, às 16h no SoFi Stadium, contra a Bélgica — que treinou em Los Angeles, dormiu em Los Angeles e chegará descansada ao confronto. A terceira rodada do Grupo G será contra o Egito, em Seattle, no dia 26 de junho. Dois jogos ainda nos EUA, duas novas travessias de fronteira, e uma delegação que precisará encontrar energia onde a geopolítica insiste em tirar — o Irã ainda pode se classificar, mas terá que fazer isso sem o direito básico de dormir no país onde joga.








