Segunda-feira, 22 de junho de 2026. É o dia em que a Copa do Mundo começa a separar as campeãs mundiais entre as que já têm o futuro resolvido e as que ainda estão correndo atrás do próprio passado. Das sete nações que já levantaram a taça, apenas a Alemanha chegou a este ponto com a vaga na segunda fase matematicamente garantida — e o restante do grupo vive cenários que vão do confortável ao crítico.

A Alemanha como protagonista e o que ela fez diferente

Enquanto as outras campeãs ainda calculam pontos, a Alemanha já virou a página da fase de grupos. Ela é a única das sete a ter confirmado matematicamente a classificação até este domingo, 21, conforme registrado por SportNavo com base nos dados da competição. O que explica essa eficiência? Parte da resposta está no modelo de jogo que a seleção alemã vem aplicando — alta pressão no campo adversário, medida pelo PPDA (passes permitidos por ação defensiva), que reflete quantas ações defensivas uma equipe precisa para forçar o erro do rival. Quanto menor o PPDA, mais agressiva é a pressão. A Alemanha tem operado com PPDA baixo nesta Copa, o que se traduz em recuperações rápidas e transições velozes para o ataque.

O contraste com o estilo das seleções sul-americanas é revelador. O que para o alemão é pressão organizada com saída de bola curta, para o argentino é uma construção mais posicional, com progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — concentrados nos pés de Messi e nos meias de ligação. São filosofias diferentes que chegam ao mesmo objetivo: controlar o jogo. Só que a Alemanha já entregou o resultado; a Argentina ainda precisa provar.

Argentina, França e Inglaterra ainda têm trabalho a fazer nesta segunda

A Argentina de Lionel Messi entra em campo às 14h (horário de Brasília) contra a Áustria, no moderno estádio de Dallas, precisando da vitória para garantir a classificação antecipada. Os argentinos venceram na estreia e chegam a seis pontos em caso de triunfo — o que, pelo critério de confronto direto, tornaria matematicamente impossível para austríacos e argelinos ultrapassá-los na última rodada. Messi chega a este jogo em forma absurda: marcou três gols contra a Argélia na primeira rodada e igualou Miroslav Klose como maior artilheiro da história das Copas, com 16 tentos.

"É uma honra pelo que significa estar ao lado de Klose e daqueles que estão lá, Ronaldo [Fenômeno] também está, mas não acho que isso signifique muita coisa. Mbappé marcou dois gols hoje. No final, são estatísticas e nada mais", disse Messi após a partida contra a Argélia.

A França de Kylian Mbappé tem uma situação ainda mais confortável: às 18h, enfrenta o Iraque e avança com qualquer vitória — ou até com um empate, caso a Noruega vença o Senegal no mesmo horário. Mbappé já está em 14 gols na história das Copas após marcar duas vezes contra o Senegal na primeira rodada, ultrapassando Pelé. A métrica de xG (expected goals) do francês nesta Copa está acima de 2,5 nas duas partidas que disputou, o que significa que ele está criando chances de altíssima qualidade — não apenas convertendo oportunidades medianas.

"Ele é o rei, o melhor", comentou Mbappé rapidamente na zona mista ao ser questionado sobre ter superado a marca de gols de Pelé.

A Inglaterra tem prazo diferente: a vaga antecipada só vem na terceira rodada, quando enfrenta Gana. Uma vitória coloca os ingleses em seis pontos com vantagem no critério de desempate, tornando a classificação garantida independentemente dos outros resultados do grupo.

Uruguai de Bielsa na situação mais delicada entre as campeãs históricas

Bicampeão mundial em 1930 e 1950, o Uruguai vive o cenário mais tenso entre todas as campeãs desta Copa. A equipe de Marcelo Bielsa precisa vencer a Espanha na última rodada para avançar sem depender de outros resultados. Em caso de empate, a classificação fica condicionada a que o duelo entre Cabo Verde e Arábia Saudita também termine empatado — e com menos gols do que na partida uruguaia.

O problema do Uruguai vai além da tabela. O estilo de Bielsa exige altíssima intensidade física, com muitas defensive actions — pressão, interceptações e desarmes no campo adversário — por 90 minutos. Essa demanda é sustentável em ciclos curtos, mas o desgaste acumulado numa fase de grupos exigente pode comprometer o rendimento no mata-mata, caso o time avance. Para comparação, o xA (expected assists) dos meias uruguaios tem ficado abaixo de 0,4 por jogo nesta Copa, indicando dificuldade na criação de chances de qualidade — o que contrasta com a proposta agressiva de Bielsa no papel.

O Brasil, pentacampeão, está em situação bem mais tranquila: precisa apenas de um empate contra a Escócia na quarta-feira, 24, no Hard Rock Stadium em Miami, para garantir a classificação. Com cinco pontos, os brasileiros não poderiam ser alcançados por uruguaios e sauditas mesmo em caso de igualdade no placar.

O panorama desta segunda deixa claro o abismo entre as campeãs: Alemanha já descansa, Argentina e França podem resolver hoje, Inglaterra espera mais um jogo, Brasil está a um empate da vaga — e o Uruguai precisa de um resultado positivo contra a Espanha para não protagonizar uma das maiores zebras da fase de grupos. É o mesmo cenário que a Itália viveu em 2002, eliminada na primeira fase apesar de ser campeã vigente — só que agora a aposta é diferente, porque Bielsa ainda tem uma rodada para mudar o roteiro.