O árbitro ainda não tinha apitado a prorrogação quando o Arrowhead Stadium começou a rugir de um jeito que não se ouvia desde o começo do torneio. Eram dois times que, em teoria, poderiam ter se abraçado no meio-campo e jogado bola de lado por 90 minutos — e quase fizeram isso. Mas a Copa do Mundo tem um jeito particular de transformar cálculo em caos. O empate por 3 a 3 entre Argélia e Áustria, na madrugada deste domingo (28), no Arrowhead Stadium, em Kansas City, foi o tipo de jogo que você assiste sem piscar e ainda assim não acredita no que viu.

Por que um jogo de seis gols quase não aconteceu

A lógica antes do apito inicial era simples demais. Com a Argentina já garantida em primeiro no Grupo J com 9 pontos, Argélia e Áustria chegaram ao confronto final com 3 pontos cada — e um empate classificaria as duas. Era a receita perfeita para um jogo morno, o tipo de partida que os fãs mais antigos chamam de "combinado" com um sorriso amarelo. Os primeiros 20 minutos deram razão ao ceticismo: muitos erros de passe, pouquíssima objetividade e a impressão de que os dois times estavam jogando para não perder em vez de jogar para ganhar.

A pausa para hidratação, porém, mudou o roteiro. Aos 27 minutos, David Alaba lançou direto da defesa para Marko Arnautovic, que dominou dentro da área com um toque preciso e tirou do goleiro Benbot com o bico da chuteira para abrir o placar. Com a derrota, a Argélia seria eliminada — e aí o jogo virou outra coisa. Mahrez pedalou, Chaïbi acertou a trave esquerda de Schlager aos 39 minutos, Maza desperdiçou duas chances claras. O primeiro tempo terminou 1 a 0 para a Áustria, e o Irã, do outro lado do chaveamento, ainda respirava.

O caos que Mahrez construiu com as próprias mãos

Riyad Mahrez entrou em campo carregando uma história que vai além do futebol. Nascido na França, filho de família argelina, perdeu o pai para um infarto aos 15 anos e decidiu levar a carreira ainda mais a sério. Passou por Leicester, Manchester City e hoje defende o Al-Ahli — mas foi com a camisa verde da Argélia que ele escreveu seu capítulo mais dramático nesta Copa. Primeiro deu a assistência para Belghali empatar. Depois, aos 47 minutos do segundo tempo, bateu no canto de Schlager e virou para 2 a 1. O Arrowhead explodiu — com vaias e gritos misturados, num ruído que lembrava o trânsito da Avenida Paulista às 18h de sexta-feira, sem direção definida.

Mas a Áustria não estava morta. Marcel Sabitzer empatou e fez 2 a 2. Com o placar assim, a Áustria avançava em segundo e a Argélia ficava de fora. A tensão no estádio era palpável — aquele tipo de silêncio elétrico que antecede o caos. Nos acréscimos, Mahrez voltou a aparecer e marcou o 3 a 2 para a Argélia. Parecia que a história estava escrita. Não estava.

"Kalajdzic entrou aos 50 minutos do segundo tempo, precisou de um toque na bola e se tornou o herói da classificação austríaca", registrou a cobertura do UOL Esporte.

Sasa Kalajdzic, 28 anos, dois metros de altura e uma carreira marcada pela superação — rompeu o ligamento cruzado na estreia pelo Wolverhampton em 2022 e passou por um longo processo de recuperação —, aproveitou uma sobra na pequena área nos acréscimos e fez 3 a 3. A prorrogação estava decretada, e com ela a classificação das duas seleções.

O que o 3 a 3 significa para o chaveamento das oitavas

Com o empate, Argélia e Áustria chegaram a 4 pontos cada no Grupo J. A Áustria ficou em segundo por ter saldo de gols superior — zero contra -2 da Argélia. A diferença de posição importa porque define os adversários na próxima fase. A Áustria enfrenta a Espanha, primeira do Grupo H, na quinta-feira (2), em Los Angeles. A Argélia, como uma das melhores terceiras colocadas, duela contra a Suíça na sexta-feira (3), em Dallas.

Quem pagou o preço foi o Irã. Os iranianos, terceiros colocados no Grupo G, dependiam de uma vitória de qualquer um dos lados para entrar como um dos oito melhores terceiros — e o empate os deixou de fora. O resultado foi confirmado no SportNavo durante a transmissão ao vivo da partida, com o quadro de classificação final mostrando Argentina (9 pontos), Áustria (4), Argélia (4) e Jordânia (0).

"O centroavante aproveitou uma sobra na pequena área nos acréscimos e evitou a eliminação austríaca, tornando-se o herói da classificação", descreveu a cobertura do UOL Esporte sobre Kalajdzic.

A Argélia chega às oitavas com Mahrez em forma — dois gols e uma assistência apenas nesta partida — e com a confiança de quem sobreviveu ao que parecia impossível. A Suíça, adversária na sexta em Dallas, vai precisar de uma resposta para o capitão argelino que ainda não encontrou ninguém nesta Copa. A pergunta que fica é: em uma eliminatória direta, sem margem para erro, Mahrez consegue repetir a dose — ou o peso da camisa pesa diferente quando não há segunda chance?