Se Arthur Elias tivesse que escalar o Brasil agora, às 10h desta segunda-feira, repetiria o mesmo time que venceu os Estados Unidos por 2 a 1 na Neo Química Arena. Não haveria motivo para mexer num onze que, de virada, bateu as atuais campeãs olímpicas sem a maior jogadora da história do futebol feminino. Mas a resposta que o técnico deu à imprensa nesta manhã, no reconhecimento do gramado da Arena Castelão, mudou o tabuleiro: Marta joga amanhã. E isso transforma tudo.

A confirmação veio em duas palavras. Questionado sobre a utilização da camisa 10, Arthur Elias foi direto ao ponto:

"Vai jogar", respondeu o treinador, sem revelar se ela será titular ou entrará no decorrer da partida — deixando a decisão propositalmente em aberto até a escalação oficial.

Marta ficou fora do primeiro amistoso, disputado na última sexta-feira em São Paulo, por conta de um edema na coxa esquerda que a manteve em fase de transição física. A CBF foi cautelosa: nem a relacionou para o jogo. A vitória por 2 a 1 — com gols de Tainá Maranhão e Bia Zaneratto — provou que a seleção tem pernas para competir sem ela. Mas ter Marta disponível é uma equação diferente, com variáveis que não existiam na sexta.

O peso histórico de Marta contra os Estados Unidos

Falar de Brasil contra Estados Unidos no futebol feminino é falar de uma das rivalidades mais ricas da modalidade. As americanas acumulam quatro títulos mundiais (1991, 1999, 2003 e 2015) e dois ouros olímpicos consecutivos, em Paris 2024 e Tóquio 2021. O Brasil, de seu lado, tem dois ouros olímpicos (Atenas 2004 e Pequim 2008) e duas finais de Copa do Mundo perdidas — em 2007, justamente para a Alemanha, mas com Marta como protagonista absoluta daquela geração.

Nos confrontos diretos entre as duas seleções, a história é marcada por clássicos que moldaram a identidade do futebol feminino mundial. A final olímpica de Pequim, em 2008, terminou com vitória americana por 1 a 0 após prorrogação — e Marta, então com 22 anos, era o centro gravitacional do jogo brasileiro. Dezessete anos depois, ela retorna ao mesmo palco de rivalidade com 38 anos, numa fase de carreira em que cada minuto em campo carrega o peso de uma despedida que o torcedor ainda não quer aceitar.

A vitória na sexta-feira quebrou um jejum de dez anos sem triunfo sobre os Estados Unidos em amistosos — dado que dá dimensão ao resultado de 2 a 1 e explica a euforia que cerca este segundo jogo em Fortaleza.

O dilema tático que Marta impõe ao treinador

O time que venceu os EUA na Neo Química Arena funcionou com uma estrutura de pressão alta e transições rápidas, apoiada na velocidade de Tainá Maranhão e na movimentação inteligente de Bia Zaneratto. Mexer nesse mecanismo por conta da chegada de Marta não é decisão simples — e Arthur Elias sabe disso melhor do que ninguém.

Inserir Marta como titular exige reposicionar ao menos uma das peças que funcionaram na sexta. A camisa 10, aos 38 anos, não é mais a atacante de velocidade que dribla três adversárias na linha de fundo — ela é, hoje, uma armadora de alto nível, capaz de criar espaços com poucos toques e dar profundidade ao jogo pela leitura que nenhuma outra jogadora brasileira possui. Usá-la como referência central ou como meia-atacante pelo lado esquerdo são as opções mais naturais dentro do 4-3-3 que Elias tem utilizado.

A alternativa mais conservadora seria guardar Marta para o segundo tempo, repetindo o papel que ela cumpriu em alguns jogos da preparação para Paris 2024: entrar quando o adversário já está desgastado, com espaços maiores e menos energia para marcar. Contra os EUA, time fisicamente avassalador, essa estratégia tem lógica defensável.

"Uma jogadora como Marta não precisa de 90 minutos para decidir um jogo. Às vezes, 20 minutos dela valem mais do que 90 de qualquer outra", disse um ex-técnico de seleção feminina sul-americana em entrevista recente a um canal especializado em futebol feminino.

Castelão como palco e a Copa de 2027 no horizonte

O segundo amistoso desta terça-feira, 9 de junho, às 21h30, na Arena Castelão, em Fortaleza, tem uma dimensão que vai além do resultado. A expectativa de público é de aproximadamente 40 mil torcedores — o que representaria um recorde de presença da seleção feminina no Nordeste. Fortaleza já demonstrou, em outras ocasiões, uma relação especial com o futebol feminino nacional, e ver Marta em campo no Castelão é um evento que transcende a preparação técnica.

O contexto maior é a Copa do Mundo Feminina de 2027, que o Brasil sediará. Arthur Elias tem usado esta Data Fifa de junho para testar combinações, medir a evolução física de jogadoras que vinham de lesão e calibrar a intensidade do time contra um adversário de nível máximo. Vencer os EUA duas vezes seguidas — algo que não acontece há muito tempo no histórico da rivalidade — seria um sinal de maturidade coletiva que vai além de qualquer placar isolado.

A presença de Marta neste ciclo também tem uma função simbólica que Elias reconhece publicamente. Com 38 anos e a Copa de 2027 no radar, ela pode ser a única jogadora da história a disputar seis edições de uma Copa do Mundo Feminina — feito que já conquistou, mas que ganha nova camada ao ser protagonista numa Copa em casa. Cada minuto que ela acumula nestes amistosos é um dado a mais para a comissão técnica avaliar se o corpo dela aguenta a maratona de 2027.

O que muda e o que permanece na seleção de Elias

A vitória por 2 a 1 na sexta-feira foi construída sobre dois pilares: a solidez defensiva nos primeiros 45 minutos e a capacidade de virar o jogo no segundo tempo com substituições bem-feitas. Tainá Maranhão, autora do primeiro gol, e Bia Zaneratto, que fechou o placar, representam a nova geração que Elias moldou ao longo dos últimos dois anos. Esse time funciona — e funciona bem.

Marta não chega para consertar algo quebrado. Chega para adicionar uma camada de imprevisibilidade que os Estados Unidos, mesmo com toda a sua organização defensiva, têm dificuldade histórica de neutralizar. Nas últimas três Copas do Mundo em que as duas seleções se enfrentaram, Marta participou diretamente de ao menos um gol em cada confronto — seja marcando, seja assistindo.

O Brasil entra em campo nesta terça-feira às 21h30 com a chance de encerrar a Data Fifa de junho com duas vitórias seguidas sobre os EUA pela primeira vez desde 2014. Marta, que completa 39 anos em fevereiro de 2027, estará em campo no Castelão — titular ou reserva, por 90 minutos ou por 20. O número que importa, por ora, é o 2 a 1 que o Brasil precisa superar para provar que o resultado de sexta não foi acidente.