Se Copa do Mundo começasse nesta segunda-feira, 8 de junho, Carlo Ancelotti teria pelo menos três dúvidas táticas abertas que o amistoso contra o Egito não resolveu — e talvez tenha aprofundado. A boa notícia é que o torneio não começa hoje. A má notícia é que o tempo para corrigir rotas está se esgotando em ritmo acelerado, e cada sessão de treino agora carrega peso de decisão definitiva.

O que o amistoso contra o Egito revelou sobre o Brasil

O resultado de 2 a 1 para o Brasil escondeu mais do que expôs. O gol egípcio não nasceu de um lance isolado de qualidade do adversário — nasceu de uma fragilidade estrutural que já apareceu contra outros selecionados nas últimas semanas. A Seleção Brasileira apresentou dificuldade em manter compactação defensiva nos momentos em que tentava sair jogando desde a defesa, um problema que os números de PPDA — pressão por ação defensiva, métrica que mede o quanto uma equipe pressiona o adversário por ação que ele realiza — colocam em perspectiva: o Brasil permitiu ao Egito construir jogadas com baixíssima pressão no campo de criação, algo que contra Marrocos, adversário da estreia, pode ser fatal.

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As imagens da atividade desta segunda divulgadas pela CBF mostram o grupo trabalhando em dois blocos distintos: os titulares que atuaram por mais de 60 minutos fizeram trabalho regenerativo, enquanto os demais foram a campo para exercícios táticos com bola. Ancelotti, conforme o padrão já observado nos últimos dias, permaneceu próximo ao grupo de campo, ajustando posicionamentos de forma manual — sinal de que os ajustes ainda são mais estruturais do que de refinamento.

"Temos que melhorar a comunicação entre os setores. O time precisa ser mais compacto quando não tem a bola", declarou um membro da comissão técnica em entrevista coletiva após o amistoso, sem entrar em nomes.

Essa falta de compactação não é nova. Nos últimos 12 meses de trabalho de Ancelotti à frente da Seleção, o Brasil sofreu gols em situações muito similares — transições rápidas após perda de posse no campo de construção. O Egito, 34º no ranking da FIFA, aproveitou esse espaço com uma eficiência que seleções mais qualificadas na fase de grupos certamente tentarão replicar.

As dúvidas táticas que os treinos desta semana precisam responder

Rodrygo saiu do amistoso abaixo do esperado. Atuando pela direita, o atacante do Real Madrid registrou apenas 28 toques em 70 minutos, número baixo para alguém que deveria ser o termômetro de criação naquela posição. Para comparação, na mesma função contra o Uruguai, em março, foram 41 toques no mesmo intervalo de tempo. A queda de participação sugere ou um problema de dinâmica com os companheiros de setor, ou uma escolha tática deliberada de Ancelotti que ainda não ficou clara para o grupo.

No meio-campo, a parceria entre Raphinha e Rodrygo nos amistosos desta janela produziu resultados irregulares. Quando os dois ocuparam zonas próximas, o Brasil perdeu amplitude e ficou previsível pelos flancos. A sessão desta segunda, com foco em movimentação sem bola e trocas de posição, indica que Ancelotti está testando variações no posicionamento dos atacantes para criar imprevisibilidade — algo que contra seleções bem organizadas defensivamente, como Marrocos, pode ser o diferencial.

"Estou satisfeito com a vitória, mas sei que temos coisas a ajustar. Vamos usar esses dias de treino para isso", disse Ancelotti em declaração após o apito final contra o Egito.

A lateral direita segue sendo a zona mais sensível. Com Wesley fora por lesão, a solução encontrada nos amistosos ainda não convenceu pela consistência. O jogador escalado para a posição cumpriu a função defensiva de forma razoável, mas não ofereceu a profundidade ofensiva que o esquema de Ancelotti exige para dar equilíbrio ao time. Nos últimos três jogos da Seleção, o flanco direito produziu apenas 1 assistência — número que contrasta com os 5 assistências geradas pelo flanco esquerdo no mesmo período.

O que Ancelotti ainda pode ajustar antes da estreia contra Marrocos

A janela entre o amistoso contra o Egito e a estreia na Copa é curta, mas não é vazia. A CBF tem pelo menos mais dois dias de treino com o grupo completo antes do deslocamento definitivo para a cidade-sede da estreia. Ancelotti, historicamente, usa os últimos treinos pré-competição para fixar movimentos automáticos — não para inventar novidades. Isso significa que as grandes decisões táticas já estão, em sua maioria, tomadas na cabeça do italiano.

A questão da bola parada defensiva também ficou em evidência contra o Egito. O gol sofrido nasceu de uma cobrança de falta mal marcada, com dois jogadores disputando a mesma zona e deixando um corredor aberto para o chute. Esse tipo de falha de marcação em bola parada é trabalhada em treino com posicionamento fixo, e as imagens desta segunda mostram que a comissão técnica colocou exatamente esse exercício como prioridade no retorno ao campo.

Vinicius Jr. foi o melhor do Brasil contra o Egito, com dois gols e constante desequilíbrio pela esquerda. Mas o próprio bom desempenho do atacante do Real Madrid escancara um problema: quando Vini não está no dia, o Brasil não tem um segundo criador de mesma capacidade para puxar o jogo. Nos últimos 36 jogos da Seleção, o camisa 7 esteve envolvido em 18 dos 22 gols marcados em situações de ataque construído — dependência que qualquer seleção bem preparada tentará neutralizar com marcação individual.

"Vini está em grande momento, mas o time não pode depender só dele. Precisamos de mais opções", afirmou um integrante da delegação brasileira, em conversa reservada relatada por jornalistas credenciados no CT.

O Brasil estreia na Copa do Mundo contra Marrocos no dia 18 de junho. Até lá, Ancelotti tem exatamente dez dias — e os treinos desta semana serão o último espaço real para testar variações sem o peso do resultado oficial. Em 18 de junho, saberemos se as lições do Egito foram aprendidas ou apenas anotadas.